21/04/2014, 11:13

Há mais de doze horas chove sem parar no Rio. Fazia meses que não chovia assim. Em nenhum momento foi uma chuva violenta, dessas que em pouco minutos inundam ruas, destroem casas, arrastam carros e pessoas. É uma chuva mais persistente do que forte, uma chuva regular, que não chega a atrapalhar a vida, mas vai nos deixando úmidos de uma melancolia cinza, sem calor e sem luz. Há, claro, a novidade desse frescor que vem com a chuva, que por todo o verão nos abandonara. Há sobretudo o som da chuva percutindo em telhados de amianto e zinco, nos mármores dos parapeitos, no vidro das janelas, na madeira das persianas, uma variedade tão sutil de tons que distingui-los me concentra e distrai, ao mesmo tempo.

Enquanto escrevia, a chuva amainou um pouco e é agora um chuviscar. Levanto a persiana para que o ar se renove e não há ninguém no paredão de janelas que se estende de fora a fora, tão perto e tão longe. A maioria delas está fechada, duplamente fechada: à chuva, pelos vidros, e também aos olhos alheios por cortinas que jamais se abrem inteiramente.

Fecho tudo e volto a escrever. Mas não tenho nada a escrever senão que chove. Chove mansa e impiedosamente. Sem parar. E é como se o tempo não passasse. Tempo abolido sob a paisagem igual. Haverá amanhã? Terá havido? Esse que sou mal se sabe porque não tem agora espelho que o confirme: quem escreve? Quem sente? Quem eu veria se houvesse espelho? Não sei – ou o que sei não o sei com a precisão que se exige de quem sabe. Sou para mim algo tão vago quanto esses vizinhos que vislumbro por detrás das cortinas.

Deus está em toda parte e há um anjo para cada homem e uma legião de demônios para tentá-los. E de nada me dou conta: anjos, demônios ou vizinhos; eu, Deus. Tudo me parece tão presente e tão vago, tão longe e ao alcance da mão. E por preguiça, medo, má vontade de viver e sei lá mais que sentimentos sigo confinado neste quarto a pretexto dessa chuva que gentilmente não cessa.

Insidiosa, a morte vai roubando de minha mãe a mobilidade do corpo e a lucidez da alma. Mobilidade e lucidez: eis que pela dor encontro uma definição da vida. E nem é dor o que sinto ao assisti-la. Não ainda, ao menos. É compaixão que humanamente mistura-se com tristeza, impaciência, tédio e, às vezes, até raiva. E há, a temperar tudo isso, genuína admiração – porque, agarrada às orações, às manias, à fé, ela não se entrega e trata a morte pelo que de fato ela é: uma conta herdada. Não uma injustiça, mas um equívoco.

Quisera ter dela a mesma fibra… Mas eu penso, o que em mim é uma maneira manca de sentir. Um modo de sempre concluir que “é tarde demais”. Não somos da mesma fibra, mas ainda assim sua força escorre por cada palavra escrita aqui, presente na obstinada insistência em escrever – e mesmo se me faltam palavras ou vontade, sigo – como ela segue insistindo em quase arrastar-se pela casa, em fazer seu café, em telefonar para os parentes mortos e surpreender-se que não atendam.

(E se a morte é um equívoco, o que será o tempo?)

Anoiteceu. Os vizinhos começam a chegar. As luzes se acendem, mas por causa da chuva, poucas janelas se abrem e entre as frestas das cortinas o que se vê são vultos imprecisos que se movem, sombras de que mal se deduzem corpos. Meus vizinhos… Sinto por eles uma carinho superficial, sem compromisso, eles lá em suas celas – mais amplas ou menos amplas – cheios de uma angústia que às vezes confundem com felicidade e esperança. Como eu?

Chove ainda, as águas que fecham tardias o verão excepcionalmente quente. Pelos próximos seis meses não haverá mais moças desfilando de calcinha pelas casas ou de biquini estendidas lânguidas ao sol, à beira da piscina do edifício em frente, para meu sonso e desleixado deleite que nem sequer faz disso uma obsessão onanista. Não por pudor ou castidade, mas por um cansaço menos do corpo do que da alma: não há mais nada que eu queira a ponto de lutar por isso. Masturbar-se é ainda sonhar e eu… Eu tenho perdido o sono – ou dormido mal.

(“Um sujeito tão sensual devia ter se casado.”)

Chove ainda. Só uma ou outra luz subsiste na madrugada fria. Cansado e sem sono, me encanto a pensar o tempo como quem conta carneirinhos.

Se Deus é eterno e vivo como é possível concebê-lo imóvel em sua eternidade, se a imobilidade é o signo da morte? Sabê-Lo talvez me trouxesse a paz, não a paz dos homens que os milhões com que sonho não poderiam me dar, mas a paz, a Tua paz…

Ah, Deus, por que tão fácil te abandono? Porque é mais forte a carne, esse outro nome que se dá ao Homem. A carne, onde mira-se a alma como num espelho…

(“A quem servem esses dois, à carne ou a Deus?”, perguntarão.
E eu lhes direi: salvou-se o centurião e ardem os fariseus.)

“Há o Místico.”

Em algum momento, muito cedo, algo em mim se quebrou e para sempre. E dessa profunda negação, uma porta se abriu numa parede onde não havia porta alguma. E ela não conduzia à Vida, mas a uma visão – às vezes, obscura; às vezes, ofuscante. Uma visão da eternidade?

(Será eternidade esse multiplicar de fantasias que indefinidamente as possibilidades abrem a cada passo? “E, se…”, “e, se…”, “e, se…”. Quantas vidas não vividas há numa só vida? E quanta intensidade pode haver num sonho que na vida jamais chegamos a conhecer?)

Um porta se abriu onde não havia porta alguma e eu por medo de enganar-me contentei-me em espreitar pela fresta como às vezes espreito meus vizinhos…

Há a miséria pessoal preservada em cenas que são sempre de covardia: covardia de reagir, covardia de indignar-se, covardia de amar, covardia de dizer sim ou não, covardia de contentar-se… Será essa a eternidade que me caberá?

“Não julgueis!”

Quisera ver a Deus – e O tenho visto em tudo e nada tem me contentado.

Ah, fátuo filho de Adão, quanta soberba! E quanta acídia…

Parou de chover. Um rapaz fuma na janela. Sequer podemos nos ver e acenar seria ridículo. Mas sabê-lo ali, insone e cúmplice, fiel a seu vício e a suas obsessões restabelece em mim o senso prático – essa espécie de cegueira necessária para seguir vivendo…