da lucidez

A lucidez não é a simples percepção da realidade tal qual ela é, tarefa relativamente fácil para os sentidos. A lucidez é a aceitação da realidade tal qual ela é ou se apresenta. A lucidez é então uma forma da humildade.

Escrevi num papel em letras grandes a lista dos mortos mais recentes e colei no espelho em frente ao console do telefone:

MORRERAM:
Margarida
Guida
Marcos

Do quarto, posso ouvi-la discando insistentemente, vezes seguidas, para um número, deduzo, onde ninguém atende.

Invariavelmente, em algum momento ela me perguntará sobre um dos três da lista e eu invariavelmente a exortarei a ler o que está escrito no papel colado no espelho em frente ao telefone:

MORRERAM:
Margarida
Guida
Marcos

– Eu não consigo acreditar… A Margarida morreu mesmo?
– Está escrito aí…
– E a Guida também?
– É o que está escrito…

Essa cena se repetirá duas, três, quatro vezes ao longo do dia. A lista pregada no espelho talvez nos poupe da cena se repetir mais vezes, não sei. Talvez pareça mórbido ou cruel a lista – mas é tão natural e factível quanto a lista dos aniversariantes do mês pregada no mural de um escritório. Porque tornou-se para mim imperioso retirar da cena todo seu conteúdo emocional – a perplexidade diante da morte, a dor mitigada da perda – e enfatizar o caráter meramente factual, informativo que tenta fixar na memória movediça a mínima aceitação da realidade em que a lucidez possa ainda se agarrar:

MORRERAM:
Margarida
Guida
Marcos

Mas a alma, parece, se recusa – ignora a lista escrita em letras garrafais e volta a encenar a mesma história, vez após vez, como fazíamos os dois, quando eu lhe pedia para ler de de novo aquela mesma história – “o príncipe dos pés pequenos”, será esse o título? “seu primeiro livro” e que ela guardou como tantas outras coisas, num museu precoce de mim que desde cedo parece esperar a minha morte para então, como Getúlio, sair das gavetas para ingressar na história.

A lucidez é aceitar a realidade tal como ela é ou se apresenta. E se algum traço comum existe entre tudo que é ou se apresenta é que tudo passa, fenece, morre.