sem perdão

Revi Unforgiven (Sem Perdão ou, na estúpida tradução brasileira, Os Imperdoáveis), do às vezes tão subestimado Clint Eastwood. O filme foi me dando uma tristeza de perder o sono. Um sentimento de desamparo. Um medo talvez.

Como é triste o filme. E profundamente cristão, porque exibe um mundo ainda não tocado pela Revelação: não há compaixão e todos movem-se apenas por interesse ou vingança, justificados por um vago senso de justiça, nem por isso menos selvagem, cruel.

Destituídos de qualquer senso de sobrenaturalidade que lhes possa restituir, senão a dignidade, ao menos a hombridade, os homens dividem-se, como em um bando de cães, em uma massa de seres subservientes e covardes girando em torno de um fanfarrão mais valente, que arranca sua ousadia não de alguma superioridade moral, mas de uma forma qualquer de patologia mal compreendida. Entre o orgulho e a acídia, ninguém escapa, imersos no mal.

A covardia determina o ritmo da vida/ do filme, numa crescente violência que irá explodir nas cenas finais, ínfimo apocalipse certamente mais comum do que supõe minha vã comodidade. Mesmos os fanfarrões são covardes nos ardis que montam para alcançar seus objetivos: Unforgiven é um antiwestern onde ninguém enfrenta ninguém frente a frente, mano a mano, de mãos limpas – ou de cara limpa. Não há heroísmo, pois não há grandeza.

Nesse sentido, ninguém vale nada e todos se agarram às suas precárias existências com um ódio sem esperança de redenção. Mesmo a vingança perpetrada pelas prostitutas não visa a satisfazer a moça retalhada, mas mostrar que elas são algo mais que mera mercadoria, algo mais que gado – mas é como manada (ou classe) que reagem: num mundo assim não pode haver individualidade genuína. Por isso, na ausência de um confessor, os que pensam ter uma “história para contar” se agarram ao mitômano que faz às vezes de escritor, a própria encarnação (e tradução) da massa idólatra e covarde que lhe consome os livros, que perpetuam com seu arremedo de literatura (de Revelação) esse mundo.

Enfim, quando Hackman diz a Eastwood “Vejo você no Inferno”, mais do que uma piadinha de cinema, ele expressa a única certeza de todos aqueles homens: não haverá perdão para eles.

Nesse mundo, só o amor oferece um vislumbre de Céu. Mas, morto o amor, a árdua solidão logo se torna um injusto Purgatório que se abandona ao primeiro convite do Inferno. A justificativa para o mal é sempre a mesma: querer ser justo. A armadilha se repete. Mas o homem que parte nessa jornada já não é o mesmo, e no caminho vai contratastando aquele que ele foi – e a quem pensa retornar temporariamente – com aquele que pelo amor se tornara: ele desaprendeu a montar. É lenta a transfiguração do mal – e dolorosa. Mas a força do amor que o conduz parece invencível, carregado de graça.