balanço

Graças a um amigo que me elogiou os textos, revisitei o meu A Pedra Evanescente, que publiquei sob a forma de e-book na Amazon.

Fiquei supreso em perceber que minha literatura – ao menos esta literatura que cultivo em público, feita de crônicas e poemas em prosa – ela se alimenta de amor e de paisagem.

Era de sol, de nuvens no céu inconstante, de ventos, de fragatas (que insisto em chamar de gaivotas) e biguás, de plantas, do mar eventual, era disso que me nutria. E da presença do amor.

Agora entendo melhor o meu silêncio recente, essa ausência das palavras: nunca antes ocorrera me faltarem os dois, o amor e a paisagem. O sol nunca alcança este quarto senão timidamente; o vento é vago; a visão do céu é modesta e a paisagem se resume a uma multidão de janelas ensimesmadas. Tampouco há lugar neste quarto para o amor: a cama é de solteiro e a mãe, ciumenta como costumam ser as mães, dedica-se à austera tarefa de morrer aos poucos, numa lenta corrida contra a imobilidade a a loucura. Não, não é um cenário propício ao amor.

O delicado equilíbrio da minha vida tão infima e precária dependia, só agora percebo, da minha discreta torre erguida a altura de um oitavo andar de onde, numa solidão calculada, descortinava fantasias, êxtases e vidências. De lá, era como se eu pairasse sobre o mundo com olhos de anjo: era o mundo que vinha a mim imóvel e imenso.

Foi escolha minha estar aqui. E não me arrependo. Nunca terei a clareza plena das minhas motivações, mas vou aos poucos tendo alguma consciência dos efeitos dessa escolha. Não depende só de mim o amor, mas a paisagem estará sempre ao alcance do corpo, ainda que o espírito tenha se deixado entrevar. O corpo quer carinhos, mas se contentará com o sol, a brisa, o mar. E, sim: com o espirito nutrido de luz, o amor virá – ou poderá vir.