de amor e de paisagem

“De amor e de paisagem”. Seria um belo título de livro, a sugerir – de modo enganoso – um homem de muitas amantes e viagens. Mas não é necessariamente o caso. O amor não será menos intenso ou misterioso se for único; e a mesma paisagem repetida dia após dia guarda variações tão sutis e minuciosas que a tornam mais uma das infinitas expressões do infinito. Talvez o homem de uma só mulher e uma só cidade acabe por saber mais do amor e do mundo do que aquele que passou a vida entre amantes e viagens. Mas não necessariamente. Na verdade, tudo depende do olhar, da atenção que cada um dedica a amores e cidades. O desafio é sempre sair de si; ver os outros e as coisas como são – e encantar-se. Encantar-se – essa a palavra que decide tudo.

(Sem esquecer que entristecer-se é uma forma de encantar-se).

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Quer saber? Eu nem acho que tenha pena (como diz você no comentário abaixo), nem motivos para escrever. Escrevo provavelmente pelos dois mais torpes motivos que levam alguém a escrever: escrevo para parecer grande; escrevo para parecer íntimo. Escrevo contraditoriamente, como se vê, para ser amado e para me manter distante. E nem sei se é por isso que escrevo.

Também eu achei que era preciso ser alguém para escrever. Ou que o simples fato de escrever me tornaria alguém: Henry Miller, Hemingway, Graham Greene, Rubem Braga. Viajar, viver. Essas coisas… Fernando Pessoa – e mesmo Borges – me mostraram que era possível escrever sendo ninguém. E tive de admitir que o sucesso, o reconhecimento, para muitos – para quase todos – é um veneno. Também logo descobri que o humor e a amargura são inseparáveis – e inevitáveis.  O que mais? Bom, escrever é a maneira mais completa de se estar sozinho.