de amor e de paisagem

“De amor e de paisagem”. Seria um belo título de livro, a sugerir – de modo enganoso – um homem de muitas amantes e viagens. Mas não é necessariamente o caso. O amor não será menos intenso ou misterioso se for único; e a mesma paisagem repetida dia após dia guarda variações tão sutis e minuciosas que a tornam mais uma das infinitas expressões do infinito. Talvez o homem de uma só mulher e uma só cidade acabe por saber mais do amor e do mundo do que aquele que passou a vida entre amantes e viagens. Mas não necessariamente. Na verdade, tudo depende do olhar, da atenção que cada um dedica a amores e cidades. O desafio é sempre sair de si; ver os outros e as coisas como são – e encantar-se. Encantar-se – essa a palavra que decide tudo.

(Sem esquecer que entristecer-se é uma forma de encantar-se).

* * *

Quer saber? Eu nem acho que tenha pena (como diz você no comentário abaixo), nem motivos para escrever. Escrevo provavelmente pelos dois mais torpes motivos que levam alguém a escrever: escrevo para parecer grande; escrevo para parecer íntimo. Escrevo contraditoriamente, como se vê, para ser amado e para me manter distante. E nem sei se é por isso que escrevo.

Também eu achei que era preciso ser alguém para escrever. Ou que o simples fato de escrever me tornaria alguém: Henry Miller, Hemingway, Graham Greene, Rubem Braga. Viajar, viver. Essas coisas… Fernando Pessoa – e mesmo Borges – me mostraram que era possível escrever sendo ninguém. E tive de admitir que o sucesso, o reconhecimento, para muitos – para quase todos – é um veneno. Também logo descobri que o humor e a amargura são inseparáveis – e inevitáveis.  O que mais? Bom, escrever é a maneira mais completa de se estar sozinho.

5 Comentários

  1. De me achar mirrada me criei uma sombra, uma auréola de escritora q justificaria a dor de eu ser mirrada, cheia de percepções de inferioridade. Mas a falta projeto de escrita logo evidenciavam que me achar escritora era delírio. Que me roubava a chance de vida real.
    E, qdo me livrei da ‘síndrome de escritora’, descobri-me uma Judas que troca qq talento por ofício que se traduza em dinheiro.
    Reconheço meu texto esfarrapado, a inconstância do pensamento, a incapacidade de concentração. Talento não é tudo, é preciso ter a alma d escritor q reflita e ordene isso sobre uma mesa. Você tem isso.

  2. Meu querido, muitas vezes penso que nem arranha a superfície de seus saberes… Aqui, me permito a ignorância de um ser comum. Você escreve, toca e emociona. O que poderia além disso um escritor querer? (Assim como qualquer artista).
    “de amor e de paisagem” acrescentaria somente o sonho de vivê-las, intensamente. Cada canto em você é tão rico. Muito bem sabem as duas mesas de cabeceira. Você é feito de seus pequenos gestos e todas as palavras que te cabem. Diria sem medo que seu mundo é mágico. Escreva, sempre, por favor!

  3. Houve um tempo em que eu tinha a convicção de que só valeria a pena escrever um livro, se eu tivesse viajado num convés de navio;frequentado a sociedade, mesmo que de lado, olhar meio enviesado. Houve a época de acreditar que falar sobre os escombros da minha alma atrairia leitores. Mudei de ideia concluindo que não haveria alguém tão entediado para consumir meus lenga-lenga existencial. Pensei em ser engraçadinha, fazer ilustrações brejeiras e entreter o leitor com histórias de bancos e supermercados. O tempo foi. Envelheci e nem espero contar histórias num abrigo de velhos. Concluo que não basta ter a pena, mas , motivo para escrever. Você tem. Esperemos mais histórias, inclusive, este momento único de convívio com sua mãe.

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