paz noturna

Ela ronca. Fico feliz de ouvi-la roncar: sinal de que está viva e dorme profundamente. Seus roncos se integram ao som da chuva, à escuridão e ao sono do mundo numa harmonia que é hoje a minha paz, a paz possível e desejada ao fim de cada dia, essa paz noturna e invernal, úmida, quando pairo quase imaterial sobre o meu cotidiano e sinto as coisas, cada coisa, em seu lugar e a vida a tecer-se mortalha e alma liberta.

Ela dorme profundamente. Descansa, a incansável formiguinha. E amanhã talvez me conte sonhos que não saberemos – nem eu, nem ela – se reais ou imaginados. E retomará seus afazeres, único traço persistente de memória – louvado seja Deus.

(Nunca imaginei que um dia poderia me sentir feliz de ouvir alguém roncar…)

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1 Comentário

  1. Minha vida foi um bailado em torno da minha mãe a quem eu amava demais. Em setembro ela morreu, mas há dez anos tinha deixado claro que não era mais mãe,assim, virando outra pessoa. Até o fim competiu comigo; e teria preferido que eu tivesse ido antes dela. Foi embora invejando que eu fosse mais nova e ficasse “ Para de fazer carinho na minha cabeça!” – ela me disse – irônica – um dia antes de ir para a UTI. Preferiu morrer a usar cadeira de rodas; não quis tornar-se dependente de mim. Deixou-se morrer, ´pegou infecção urinária assintomática. Morreu altiva – e me xingando. Foram uns 10 dias de terror.Eu e ela – que os outros parentes sumiram.
    São confusos os meus sentimentos. Ela não queria mais ser minha mãe e nem ficar na condição de cuidada. Perdi a paciência tantas vezes. E depois me confessei.
    O processo pelo que você passa talvez seja mais claro. Ela ainda é mãe. Isso facilita tudo.

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