paz noturna

Ela ronca. Fico feliz de ouvi-la roncar: sinal de que está viva e dorme profundamente. Seus roncos se integram ao som da chuva, à escuridão e ao sono do mundo numa harmonia que é hoje a minha paz, a paz possível e desejada ao fim de cada dia, essa paz noturna e invernal, úmida, quando pairo quase imaterial sobre o meu cotidiano e sinto as coisas, cada coisa, em seu lugar e a vida a tecer-se mortalha e alma liberta.

Ela dorme profundamente. Descansa, a incansável formiguinha. E amanhã talvez me conte sonhos que não saberemos – nem eu, nem ela – se reais ou imaginados. E retomará seus afazeres, único traço persistente de memória – louvado seja Deus.

(Nunca imaginei que um dia poderia me sentir feliz de ouvir alguém roncar…)

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