de volta

Finalmente, depois de meses, estava em sua casa, sua verdadeira casa. Chegara furtivamente de madrugada, acomodara suas coisas, bebera  uns copos d’água bem gelada, e ficara por algum tempo saboreando a saudade  da solidão e do silêncio daquela casa que lhe eram tão caros. Depois, banhara-se no chuveiro generoso e agora, deitado entre as duas mesinhas de cabeceira novas, ponderava tudo que acontecera.

Por mais magoado que se sentisse, persistia no fundo de seu coração – seu coração de biscoito que se queria de pedra – um tipo novo e, portanto, estranho para ele, de amor, baseado na admiração: as inúmeras qualidades femininas e humanas a tornavam uma mulher verdadeiramente amável. Lá no fundo de seu coração – de biscoito, não de pedra – repousava esse sentimento que, não sem riscos, poderia crescer até tornar-se uma genuína pérola. Lá no fundo de seu coração – e certamente contra sua vontade magoada – esse poder de amá-la por suas qualidades resistia inalterado. Por quanto tempo? Diria que para sempre porque era um sentimento que se fundava em fatos e percepções que a inteligência captara com viva lucidez. Nunca lhe acontecera encontrar alguém tão generoso, uma generosidade conquistada contra as tentações que lhe impusera a vida de abandonar-se à indulgente mesquinhez que a muitos seduzia sem motivo. Nunca ninguém lhe dera tantas coisas – objetos, palavras, carinhos, histórias de vida, fantasias, comidas, receitas, conselhos, risos e gozos – em tão pouco tempo. Sem falar do que tecera em segredo e que ele em sua mágoa se recusara a receber. E isso era – ele próprio o considerava – imperdoável: nada se recusa a quem nos tenha amado genuinamente.

Tivera motivos para tanta amargura? Não queria pensar nisso agora. Não queria mais pensar nisso.

Quando rezava o Pai Nosso, quase sempre lembrava-se de pensar que “livrai-nos do mal” para ele significava “livrai-me da certeza de estar certo”. Mesmo assim, mais uma vez, esquecera-se. Esquecera-se do quanto podia tornar-se mal a pretexto de ser justo. “Não julgueis!” Fora, enfim, esse o perdão que literalmente implorara: não se julga quem nos ama, não se julga quem amamos.

Ao menos, era assim que sentia, na semi-escuridão do seu quarto onde fora também com ela tão feliz.

Como sempre, houvera desmedida em seus gestos, a desmedida de quem se move com atraso. Ainda haveria tempo de aprender a ser mais exato e econômico? Talvez. Talvez estivesse mesmo melhorando. Havia sim algo de “parvo heróico e retumbante” no que fizera e em muito do que fazia. Padecia de às vezes se sentir circulando em um mundo mais de símbolos do que de fatos.

Mas certamente ainda precisava da desmedida para alcançar esta estranha calma.