cozinha

Seis e meia da manhã, eu já acordado, e o telefone toca. É a Chica – minha Sã Francisca, tão doce e pretinha como São Benedito, padroeiro dos cozinheiros, junto com São Lourenço – com a voz fanhosa e cansada me explicando que estava saindo de casa àquela hora e por isso chegaria mais tarde porque dormira mal, gripada, como tosse e um pouco de febre. Meu coração de pedra-biscoito se compadece e num gesto impensado e heróico tão ao seu gosto diz o óbvio: não venha, fique em casa, descanse, se recupere, eu aqui me viro. E me viro mesmo.
Assim que desligo, já estou na cozinha. Não tenho tempo a perder: há compromissos já marcados para a manhã. Vasculho a geladeira e a despensa: abóbora, inhame, batata, cebola, cenoura, alho, vagem, nabo, salsa… Descasco e lavo tudo. Separo a vagem e a salsa, porções de batata, cenoura, nabo,  e ponho o resto para cozinhar num panelão. Corto em pedacinhos o que foi separado e vou tocando a vida enquanto o fogo faz sua parte. (Vou arrumando as coisas enquanto trabalho então a cozinha está sempre limpa, sem nada entulhado. O café da manhã já está encaminhado, falta só minha velhinha levantar.)

Gosto de cozinha, do som da água correndo, do toque, dos cheiros, dos gostos, da azáfama dos diferentes tempos das coisas correndo juntos para o mesmo ponto; gosto das louças, das facas, dos vidros e panelas. Gosto do espírito primordial, quase imune ao tempo.

Passo rapidamente os legumes cozidos no liquidificador. Cozinho no vapor as porções cortadas em pedacinhos. Junto tudo e eis a sopa ao meu jeito, um caldo mais grosso cheio de pedacinhos coloridos, todos no mesmo ponto de mordida. Quase não pus sal: me encanta o gosto natural dos legumes misturados e sutilmente distintos. Soberbo tudo. E tão simples.