sherazade

Sonhávamos. O conhecimento dela das coisas e do mundo dava substância à fantasia e logo a elevava à condição de escolha possível. Sonhávamos. E assim atravessávamos a noite. E tudo era sonho porque sua voz também à memória dava cor e movimento: via-se a menina por uma estrada nas montanhas em sua bicicleta repleta de flores; via-se a mulher tangendo velhinhos escada abaixo em um arranha-céus em chamas; viam-se os campos de lavanda da Provença e os vinhedos da Toscana; viam-se cavalos, muitos cavalos, e borboletas; viam-se quadros que eram sonhos dentro de sonhos e dores tão fundas que não se relembram sem chorar… Sonhávamos. E assim atravessávamos as trevas. E tudo era tão vivo que nos fazia pensar em Deus. Sonhávamos, juntos, de olhos bem abertos e ouvidos atentos, noite após noite.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *