o tempo

Tem feito dias lindos, dias de maio no inverno de agosto. Há os ipês floridos em variados tons de violeta e umas árvores de que não sei o nome com flores púrpuras (ou, por que não dizer, encarnadas?). O mar anda transparente e calmo e caminhar na areia da praia quase vazia tornou-se um ritual. É como se não fosse eu exatamente a caminhar na areia com as ondas a se entrelaçar como cãezinhos brancos entre meus pés, mas uma entidade milenar que atravessa o tempo: “o homem que caminha à beira-mar pensando”. Camões, Platão, Hopper, Antonio… Claro, distingue-nos a irrelevância da indumentária, detalhe a marcar nossa cômoda concessão aos usos da época. Importa, a nos unir, o que pensamos. Animam-nos (ou não estaríamos caminhando ao pé do mar) as mesmas perguntas – sobre a Beleza, o Amor, o sentido da Vida e do Tempo. Temas maiúsculos que a ínfima figura deve enfrentar com todas as suas limitações e daí ainda extrair alguma verdade que o acalme e possa servir ao outros de legado sob a forma precária das palavras.
A Gaivota paira de súbito sobre nós –  a marcar a implacável e soberana contingência de todos os fatos – e num mergulho preciso enterra-se no mar de onde emerge com um peixe! Tem sido assim desde o princípio dos tempos. Haveria então A Resposta que se poderia alcançar depois de um resoluto mergulho nas trevas? Ou a cada um estarão destinadas apenas escorregadias porções de verdade nem sempre fáceis de engolir? Ah, quanto ironia em caminhar na areia se imaginando maior do que se é…

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