ela, magnífica

As fragatas passam rente ao teto do prédio e o sol poente rebrilha no corpo do avião lá bem alto. Vim, na verdade, ver a lua nascer, como já fiz tantas vezes num passado hoje mítico, quando o tempo parecia não exatamente imóvel, dócil ou cúmplice, mas tudo isso do modo quase traiçoeiro dos gatos. Um tempo marcado menos por calendários e relógios do que pelo lento movimento da luz do sol e da lua pela casa e no céu.

Agora me surpreende como me agrada estar aqui no apartamento esvaziado de toda a minha história: as paredes brancas sem quadros, as estantes quase sem livros ou objetos, sem telefone, sem computador. Sou como um nômade onde antes era não sei se rei ou exilado.

A história é sempre um fardo: possui volume, peso e com o tempo já não se pode mais arrastá-la sozinho. Claro, cheia de valor e brilho, cheia de secretas compensações. Mas eu, se puder escolher, agora me quero assim, sem quadros, sem livros, sem móveis, sem nada que se diga meu, a não ser esse gosto pelas palavras e um amor com quem partilhar o silêncio.

Finalmente, lá está ela, magnífica!

Reverente, apago as luzes e fico no escuro, quieto, vendo. De quase cor de laranja, ela foi se aperolando até tornar-se branca, branca – e perfeitamente esférica. Me dou conta que ela é como um espelho que reflete o sol. E há nisso tanto significado e tanto símbolo… Mas, não, não agora. Agora, reverente, sou só silêncio.

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(foto de Antonio Caetano, meu queridíssimo amigo e xará!)