espatódea

Chama-se espatódea a flor vermelha que vi outro dia e não lhe sabia o nome. Tão carnal e tão serena era a espatódea que bem podia tê-la tomado pela flor da árvore do conhecimento. Ah, se fosse… Eu talvez então percorresse o caminho inverso de meu ancestral incauto e, em vez de me perder por seu fruto, reencontrasse na contemplação da flor – porque tão carnal e tão serena – o segredo perdido de ter paz e alegria, gozo e riso, deixando para trás e para sempre o ciúme, o ressentimento, a mágoa de que nenhum amor desde Adão escapa imune.

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Mas não, não é assim.

Tudo tem limite, diz o espírito cansado à carne que sempre esquece quem é e o quanto pode. O espírito sabe, a carne quer. E então acontece: o espírito vê e, não sem tristeza, adverte a carne, obstinada e cega. A carne quer. E, incansável, a tudo se dispõe. Mas o espírito vê e não pode iludir-se. Chora porque é seu dever guiar a carne que não é senão ele mesmo submerso no tempo, mistério da Criação e da Queda. Esconde as lágrimas, porque é hora de partir, de dizer adeus (para sempre) e até breve (porque a morte nos alcançará e não sabemos como será nossa eternidade). Nenhum amor é deste mundo, o espírito sabe. Mas a carne sempre quer realizar aqui, neste mundo, o que soa ser delírio, êxtase ou promessa, segundo a crença que cada um abrace, fruto sempre do que fez do amor que traz, em si, desde sempre, como um fardo ou um presente.

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(“Espatódea”, desenho de Paloma Perez)