os sons da casa

Na cama, ainda na escuridão do quarto que resiste bravamente ao assalto do dia ensolarado e quente, ouço imóvel os ruídos da casa em movimento. Chica já chegou e tange a vida com o carinho rotineiro e eficiente. Por isso posso ficar um pouco mais na cama, por isso posso interinamente morrer: apenas ouço e quase me comovo ao reconhecer cada ruído.

Aqui, na casa de minha mãe, quase tudo é velho de mais de meio século, porque quase tudo fabricado num tempo em que as coisas eram feitas para durar. As panelas, por exemplo, são mais velhas do que eu. Eu as ouço, portanto, desde que nasci. Então, daqui, do quarto escuro e fechado, reconheço nitidamente os ruídos da chaleira do bule e da leiteira, das gavetas de talheres se abrindo e fechando, das louças se distribuindo pela mesa.

Não são barulhos, são ruídos quase naturais, delicados, imperceptiveis a uma mente desatenta e desapaixonada. São como as vozes desses animais domésticos criados pelo homem: panelas, garfos, xícaras, pratos – tão acalentadores quando o canto do canário do vizinho, o latido de um cão, as fragatas silenciosas cortando o céu.

É a música – intima e singular – do cotidiano de cada um. É a alma de alguém – a minha – expressa em ruídos insignificantes, mas cheios de sentido – para mim e apenas para mim e para uns poucos. Um sentido que é fruto da atenção. E a atenção é a medida do amor. E é o amor que dá sentido às coisas. Ontem mesmo li uma frase de Borges que diz o mesmo de outro modo: “Uno está enamorado cuando se da cuenta de que otra persona es única.”

(E agora que escrevo é em você que penso, cada vez mais única e inigualável.)