os sons da casa

Na cama, ainda na escuridão do quarto que resiste bravamente ao assalto do dia ensolarado e quente, ouço imóvel os ruídos da casa em movimento. Chica já chegou e tange a vida com o carinho rotineiro e eficiente. Por isso posso ficar um pouco mais na cama, por isso posso interinamente morrer: apenas ouço e quase me comovo ao reconhecer cada ruído.

Aqui, na casa de minha mãe, quase tudo é velho de mais de meio século, porque quase tudo fabricado num tempo em que as coisas eram feitas para durar. As panelas, por exemplo, são mais velhas do que eu. Eu as ouço, portanto, desde que nasci. Então, daqui, do quarto escuro e fechado, reconheço nitidamente os ruídos da chaleira do bule e da leiteira, das gavetas de talheres se abrindo e fechando, das louças se distribuindo pela mesa.

Não são barulhos, são ruídos quase naturais, delicados, imperceptiveis a uma mente desatenta e desapaixonada. São como as vozes desses animais domésticos criados pelo homem: panelas, garfos, xícaras, pratos – tão acalentadores quando o canto do canário do vizinho, o latido de um cão, as fragatas silenciosas cortando o céu.

É a música – intima e singular – do cotidiano de cada um. É a alma de alguém – a minha – expressa em ruídos insignificantes, mas cheios de sentido – para mim e apenas para mim e para uns poucos. Um sentido que é fruto da atenção. E a atenção é a medida do amor. E é o amor que dá sentido às coisas. Ontem mesmo li uma frase de Borges que diz o mesmo de outro modo: “Uno está enamorado cuando se da cuenta de que otra persona es única.”

(E agora que escrevo é em você que penso, cada vez mais única e inigualável.)

8 Comentários

  1. Laura, sentimos falta dos textos novos do A C mas há textos vários por aqui, muito bons, muito significativos dum tempo em que a net começava. Desconfio de que o Cafe Impresso é um livro com começo, meio e fim.

  2. Hacía tanto que no tenía tiempo de pasar por el Café. Tus crónicas, la de este tipo, son inigualables.
    Un abrazo enorme, amigo querido!

  3. Cronista, faz tempo não tem escrito. Seus leitores gostam de seu excelente texto. Talvez, não tenham mais tempo de comentar ( este, o meu caso), mas vão ler , com alegria, o seu trabalho.

  4. Associo os elementos deste texto à manhã aqui em casa. Eu corria e pensei em tomar café numa xícara , sem pires. Eu estava angustiada. E percebi que precisava do pires,nao por sua utilidade , mas, p causa do seu som. Eu precisava muito do som de porcelana dando na outra. Sem isso eu ficava mais angustiada, menos, humana.
    Essas criações humanas ( as europeias) de xícaras, travessas, tudo isso tem um peso de árvore, fruto, seixo. A vida se não vale por outra coisa vale por isso. É no que me fio p ter vontade de viver…os trens da casa, cozinha.

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