memórias

Minha mãe viveu heroicamente até o último minuto. Viveu 94 anos do jeito que quis. Era dura às vezes, tentando equilibrar-se entre o coração bonissímo e a alma justa.
Agora, mexendo nas coisas dela, estou descobrindo a mulher frágil e romântica que o filho nem sempre soube ver e a mãe talvez tentasse esconder.

Entre outras coisas, há este poema de Drummond, que imprimi e coloquei num quadro, não lembro se em seu aniversário ou num Dia das Mães:

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.