memórias

Minha mãe viveu heroicamente até o último minuto. Viveu 94 anos do jeito que quis. Era dura às vezes, tentando equilibrar-se entre o coração bonissímo e a alma justa.
Agora, mexendo nas coisas dela, estou descobrindo a mulher frágil e romântica que o filho nem sempre soube ver e a mãe talvez tentasse esconder.

Entre outras coisas, há este poema de Drummond, que imprimi e coloquei num quadro, não lembro se em seu aniversário ou num Dia das Mães:

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

1 Comentário

  1. A minha dificuldade é a de não esquecer minha mãe. Ainda estou no seu entorno, como se vivesse pra ela ainda. Creio que ainda não percebi que ela morreu, ela não morre. A cada passo, a cada modo meu ela surge ( eu me pareço com ela, no jeito).
    Isso não tem sido saudável, porque é feito se eu vivesse com um fantasma. Ela era magnífica, uma artista, inteligente, poderosa e sem medo ( aparente) mas, autoritária. Antonio, só a terapia tem me ajudado a me desgrudar dela.
    Nem toda mãe é tão benfazeja quanto foi a sua – e a do poema de Drummond. Mamãe não dava colo, nunca fez comida pra gente. Mas era tão especial que éramos vidrados nela. Eu, mais que os outros, achava que o mundo era permeado por ela. Pensei em mudar de casa, mas o terapeuta avisou: a casa vai com você.
    Mãe, uma relação do céu e às vezes dum céu imaginário.

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