A calçadeira

calçadeira
Foto Paloma Perez – Rio de Janeiro, 2016

Aos poucos vão restando só os objetos de mais estima. Objetos que já existiam antes de mim, que já estavam aqui antes que eu lhes aprendesse o nome ou o uso. Objetos que foram como estranhos animais de estimação, que permaneceram os mesmos enquanto eu envelhecia. Eu brinquei com eles, lhes interroguei o sentido, saboreei seus nomes, lhes inventei funções, até incorporá-los à vida e finalmente esquecê-los no fundo de uma gaveta, como fragmentos anacrônicos de um modo de vida que foi se perdendo, e de que quase não há traço, senão lembranças. Eram objetos feitos para durar, muito diferentes desse pesadelo platônico de simulacros esculpidos em matéria plástica em que vivemos já há tanto tempo.

A calçadeira, por exemplo, é feita de chifre, e me intriga como conseguiram dar essa forma curva tão exata numa superfície quase translúcida de tão fina, e, no entanto, resistente. Traz impresso em baixo relevo o nome do fabricante ou vendedor, não sei: “A Corista”. E apesar de mais curta do que os modelos usuais, cumpre com perfeição seu destino de fazer escorregar o pé suavemente para dentro dos sapatos. Dos sapatos daquela época, claro: sapatos de amarrar, de couro duro e contrafortes rígidos, e que por isso exigiam o auxílio de uma calçadeira.

Mas quem ainda usa calçadeiras? Duvido que alguém com menos de 30 – ou até 40! – anos, seja capaz de, pela forma, lhe deduzir o uso. Talvez a própria palavra “calçadeira” já nem faça mais sentido.

Pertenceu a meu pai e certamente foi dos objetos que sobreviveram ao seu tempo de solteiro. Terá, portanto, quase 70 anos, senão mais. E deverá durar outros 70, quase imune ao tempo, que nos devora a carne, mas finge nos poupar os ossos.