Das pequenas revelações

infancia02

O que minha mãe me sussurrava no instante da foto já não me lembro, mas ainda sei que era algo muito bom de se ouvir. Vê-se no meu rosto, claro. Foi algo que me provocou (disso me lembro) uma alegria que tinha a forma de uma certeza, uma alegria duradoura que se estendeu por todo aquele domingo em Itatiaia. Foi, mal comparando, como uma boa notícia cuja consumação se deve aguardar, mas é certa que se realize. Como um presente de Natal para uma criança ou o céu para o homem santo.

Olho a foto e não tenho como não me comover. Há na expressão da minha mãe um lúcido e carinhoso didatismo, como se me explicasse uma obviedade talvez um pouco dura, mas que se incondicionalmente aceita trará frutos mais do que compensatórios num prazo relativamente curto. E esse talvez seja um bom resumo da educação que os pais devem aos filhos, afinal: convencê-los a esperar, convertê-los a uma fé natural na vida, na eficácia do tempo, na relativa inexorabilidade dos fatos. Essa fé que é como o ponto de partida, a trilha aberta para a fé verdadeira, ou melhor, a fé completa: a fé sobrenatural num Deus criador e, mais do que único, singular como uma pessoa; um Deus tão familiar e generoso como a natureza, mas que não se confunde com ela.

Olho a expressão dela e a minha combinadas e parece mesmo que eu recebo uma revelação – e a aceito e compreendo com a perfeição de uma entrega: estou largado nos braços de minha mãe, inteiramente relaxado, me deixando abraçar, aconchegado, como se todo feito de nuvem: sim, estou momentaneamente no céu, um céu que naquele instante me parece legitimamente eterno. Não me lembro de outra foto em que eu pareça tão feliz.