Flores na janela

A vizinha ganhou flores… Ou será “o vizinho comprou flores”? Na verdade, um vasinho de flores – que daqui me parecem aquelas que eu erradamente chamo de begônias. Digo que se for vizinha ganhou e se for vizinho comprou porque sou um sujeito antigo. Hoje já vivemos num tempo em que há esse lado bom de também as mulheres surpreenderem os homens com flores.

Mas deixemos assim e sigamos adiante…

Moro de fundos e minhas janelas dão para os apartamentos de fundos da rua do outro quarteirão. Na verdade, nunca vejo nem esse, nem os outros vizinhos desse prédio. São uns apartamentos de quarto e sala conjugados, até grandes para o padrão moderno. Em todos, há uma só janela onde o sol bate quase toda a manhã – talvez por isso, e por uma busca insensata de privacidade, todos os apartamentos vivem fechados atrás de grossas cortinas que raramente são abertas.

Então como sei que o vizinho ou a vizinha comprou ou ganhou flores? Porque ele ou ela teve a delicadeza de abrir metade da cortina e deixar as flores tomando sol. Provavelmente já saiu para trabalhar. Hoje é dia de semana e já são quase nove da manhã. Além disso, a janela está fechada, prudência comum de quem vai passar o dia fora. Mas as florizinhas estão lá, meio espremidas entre a cortina e o vidro, tomando sol, satisfeitíssimas, presumo.

É a primeira vez que me dou conta de que há um ser humano atrás daquelas cortinas. Nunca o vi. Mas já nutro por ele um carinho fraterno, discreto, como se já fizesse parte das minhas orações.