A lei suprema não é o kharma, a infindável teia de causas e efeitos que gera as sucessivas encarnações marcadas por sofrimento e limitação. A lei suprema é anicca, impermanência, o exato oposto do kharma.
O kharma existe enquanto não aceitamos a impermanência, a condição finita de todas as coisas mundanas, preço que pagamos pela experiência da singularidade. Só podemos viver a experiência de sermos únicos e singulares enquanto seres finitos. Só Deus, por princípio, pode ser simultaneamente singular e infinito.
Se a genuína aceitação de anicca (impermanência) nos conduzirá a alguma nova condição de vida singular – a construção de uma alma singular, como parece ser a promessa de Cristo – é uma especulação que só nos atrapalhará na difícilima tarefa de aceitar e vivenciar anicca para superar a condição egoista que nos escraviza ao kharma.
Há nisso um grande koan, aparentemente paradoxal: o kharma existe e não existe. Existe, como iusão negativa do ego, como sua crença mais fundamental: se isto então aquilo. Não existe – ou melhor, se dissolve – quando a lei suprema da impermanência é encarnada definitivamente em uma vida.
Buda e os professores de Vipassana insistem que os alunos abandonem as especulações e se dediquem com empenho e disciplina à pratica da meditação. Essencialmente, estão nos dizendo sempre uma mesma coisa: “Vivam o presente”. Eles insistem que fixemos nossa atenção no presente, no imediatamente dado, na única realidade a que temos acesso que é aquela que se identifica com as sensações do corpo. De fato, o presente identifica-se com o sensível – do mesmo modo que a memória se identifica com o passado e a imaginação com o futuro, numa redução ideal das faculdades que constituem a consciência.
O presente é o corpo, enfim. Só o corpo e o silêncio nos pertencem genuinamente. Até as palavras nos são emprestadas.
Borges fazia resenhas de livros imaginários, podemos fazer isso sistematicamente. Por exemplo, me ocorreu um título “A imanência de Deus” – livro em que o autor defende a tese de que a questão da imanência de Deus é o problema central da metafisica a partir do cristianismo. A encarnação de Deus, sua deliberada experiencia humana não só nos redimiria de todos os pecados – ou, em termos búdicos,teria feito cessar a roda – como principalmente revela à carne um significado novo: a boa nova do Evangelho é o corpo.
(Mas afinal o que é o corpo? O corpo é o presente, repito sempre. Mas o corpo é o sensível: é o tato, o olfato, o paladar, é ver e ouvir, é “ouver”, como eu gostava de dizer. E o que é o sensível senão flutuações de intensidade, nuances, de duração e intensidade variaveis, mas sempre finitas. Sempre. Então isso, o sensível finito ingressaria na eternidade que é por definição infinita.
Entre espirito e materia, entre corpo e alma, a diferença é de grau não de essência – ou no dizer de Platão, se o tempo é a imagem movel da eternidade, a materia é a atualização do espirito, sua individuação em algo que está no todo mas não é o todo, a gota fora do oceano, pq a gota no oceano é o proprio oceano.
Eu leitor, imagino que na Natureza só há espécies e não individuos. Os individuos são epifenomenos da espécie. É nesse sentio que acho Descartes quis dizer que os animais nao têm alma. Talvez uma alma comece a se construir quando esses animais convivem com humanos.
Como é que o nada passa de mero não-ser, de virtualidade, a inverso da totalidade? A totalidade por definição não pode ter algo que esteja fora dela. A totalidade inclui o que é e o que foi, mas também o que pode ser. O ser é a atualização da totalidade e o nada simplesmente o que apenas pode vir a ser, e está lá, na totalidade, como possibilidade de ser.
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Eu diria então o contrário: que minuciosamente tudo é perfeito. A única “imperfeição” está prevista no contrato: tudo que é é finito. Ser é durar. Então a Vida não cessa de querer crescer e se multiplicar, egoísmo e desejo, e isso portanto é santo. Não se deve falar mal da Vida, então santo é o egoismo e o desejo, o egoísmo que quer crescer e o desejo que quer multiplicar. Já temos todas as regras necessárias para aprender a gerir esses impulsos de modo generoso – porque desejo e egoísmo nada tem a ver com mesquinharia, com a negação.
Fala-se muito em “aqui e agora” e sempre me soa muito abstrato, quando, na verdade, o aqui e agora é o corpo. Por isso acho tão sabia a meditação vipassana, aquela que conduz a atenção para as sensações do corpo. Isso me impressiona muito. Porque materialmente é só o que há: uma longa sucessão de sensações no corpo, um longo e sucessivo presente, que é sempre onde estamos, no presente, que é o corpo, então pode ser como um longo instante, um presente “eterno”: o corpo.
Acho lindo que a promessa de Cristo é da eternidade do corpo, um espirito que sente, entendo eu. Li que a supresa do Cristianismo na Antiguidade era essa: a novidade era o corpo eternizado. Conhecia-se e especulava-se sobre a alma, enquanto o corpo era só o veículo transitório, o imperfeito, o conspurcado. Ao se fazer carne, deus diviniza o corpo, a matéria – e a redime. Eu digo que, em termos búdicos, Cristo diz: “Eu anuncio o Cessar da Roda”. “Eu anuncio a última e derradeira encarnação.”
(Todos ensinam e buscam a indiferença amorosa que permite estar sem querer ter, sem aversões ou cobiças, auto-sustentável. mas será que Cristo também? Ou o que ele prega é o exato oposto, o máximo envolvimento, o amor incondicional -mas tão incondicional que intima o amado a ser o que é?)
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