Mar de Dentro

“Sempre com os pés fincados no chão, bandeiras hasteadas, cabelos ao vento – e o que vai no mar de dentro? Sempre pronta, sempre muito, sempre, pra sempre fincada no chão – e o que vai no mar de dentro? Avesso de mim, caminho contrário, contramão do que faço, pra onde vai meu mar de dentro?”.

São cinco e pouco da tarde. Sandra está na cozinha ampla e bem equipada de seu apartamento no Flamengo. Sandra é atriz e tem orgulho de seus dotes de cozinheira, herança da mãe e da avó que ela gostaria de passar para a filha. O pai da menina a espera na saída da escola e a levará para a casa dele, onde ela passará o fim de semana. Sandra está sozinha. É sexta-feira e ela dispensou mais cedo a empregada. O ensaio de hoje foi desmarcado para a manhã de sábado, o que lhe dará mais tempo para decorar as falas da peça e ensaiar um pouco mais as músicas que terá de cantar.

Sandra quer escrever uma carta para Frederico. Os dois não se vêem há quase quatro meses, tempo suficiente para tornar irrisórias todas as razões que tiveram para se separar. Sandra sentia saudade. Uma saudade ainda mais profunda, pois não havia nela traço de arrependimento.

Sentada na mesa da cozinha, era já a terceira vez que começava a carta, sempre com sua letra bem talhada, que escorria firme pelo papel branco e sem pauta que sua filha usava para desenhar. Como das outras vezes, depois de escrever umas três ou quatro linhas, Sandra parou e releu as palavras que mais uma vez lhe soaram não exatamente falsas, mas alheias. Repetiu o gesto de amassar a carta. Juntou as outras bolinhas de papel que estavam sobre a mesa, levantou-se e atirou-as todas no lixo. Não havia fúria ou resignação na atitude: ela simplesmente tivera outra idéia. Foi até à sala e apanhou o gravador que Federico deixara em sua casa. Um gravador pequeno, desses que os jornalistas usam para trabalhar e que ela passara a usar para registrar idéias ou ouvir sua própria voz, quando ensaiava sozinha suas falas.

Voltou para a cozinha, colocou o gravador sobre a mesa, já com a fita no ponto. Mas não ligou… Ficou de pé, olhando aquele pequeno objeto negro, tão estranho à cozinha, tão fora de lugar. Lembrou-se de Frederico, do modo como às vezes ele gesticulava, o braço estendido para frente, os dedos muito abertos, como se quisesse arrancar do fundo do peito dela a palavra oculta e mais genuína… O gravador lembrava a mão espalmada de Frederico…
Por fim, ligou o gravador e começou a juntar na mesa os equipamentos e ingredientes necessários para fazer um bolo… Passou-se um tempo antes que ela dissesse “Oi… ” e outro tanto até continuar:
“Eu quis te dar um pouco do meu silêncio, um silêncio que tem sido isso de ir juntando coisas assim tão díspares feito manteiga, ovo, leite, farinha, fogo – para fazer um bolo…

Não vou te falar da minha saudade… Posso ficar sem te ver. Mas às vezes, como agora, sinto falta do teu silêncio ouvindo o meu silêncio… Do teu silêncio me ouvindo.. E eu precisava te contar uma coisa que aconteceu e me encheu de alegria: eu perdi o medo do mar…

Lembra que eu tinha medo de nadar no mar? Não tenho mais medo do mar. Queria te contar porque acho que só você sabe o que isso significa para mim… Acho que só você saberia entender o que tem sido pra mim ser eu e o mar na solidão dessas manhãs de sol do inverno do Rio…

Bem cedinho quase não tem ninguém… O mar é incrivelmente limpo e parece mais denso de manhã. Ele é quase sempre manso, mas é denso como são os gatos até quando repousam…. E eu vou entrando pé ante pé, solene. Vou fazendo umas preces e então mergulho e já saio abraçando o mar em cada braçada lenta, em cada batida de perna… É como uma dança a que me entrego comovida, mas compassada, no ritmo muito íntimo do mar comigo…

(A fala de Sandra é lenta, entrecortada de suspiros e pausas em que pesa e prova as palavras, como se escolhesse frutas no mercado, com esse mesmo calor que agora sente, intenso e manso dentro do peito e que às vezes também lhe dá no palco – no palco, no amor, no mercado – e é sempre o signo de que que a alma lhe parece mais perto, justo à flor da pele, quente sobre a carne, ela toda atenta e concentrada no ato de dar voz ao que lhe vem do mundo)
Foi tão bonito a primeira vez! Eu sozinha indo cautelosa, os pés perdendo aos poucos o chão na areia fofa, o mar me lambendo feito um cão entre as minhas pernas; o sol morninho feito um abraço; e a pedra lá, enorme, velando por mim… Eu fui… Foi incrível…Eu sentia que o mar me acolhia, que eu o penetrava…

Que eu o penetrava do mesmo modo que você me penetrava e ele me acolhia como eu te acolhia… Era assim… Eu me sentia forte, de uma força em forma de calma que me dizia que eu podia, que até morrer eu podia, porque Deus cuida das almas valentes… Porque pra mim também naquela hora era um pouco como um gesto de suicida querendo libertar-se… Eu queria matar o medo do mar, matar aquela que tinha medo, nem que eu me arriscasse a morrer também…
E foi tão bom descobrir isso: que eu posso. Que o mar imenso não é meu inimigo. Que sou eu que escolho se ele será fera ou será abrigo…

E agora é como se eu visse o novo onde antes eu via o óbvio: não é mais a Praia do Flamengo, o Pão de Açucar, o Aeroporto – mas o Mar, a Pedra, o Avião, quando venho pela areia caminhando, depois de nadar a praia inteira…
E como é bom poder te dizer isso, como é bom descobrir de novo, te dizendo… Falar pra você, pro teu silêncio…
É bom descobrir essas coisas, mas acho que tem certas coisas que só descobrimos sozinhos – quando estamos sozinhos…
A gente não sabe o que é morrer. A gente não sabe o que a dor significa. Ou o amor… A gente não sabe nada… E nem quer aprender… Eu quero. Agora eu sei que quero… O mar me ensinou… A tua ausência me ensinou… Talvez mais até do que todos esses anos juntos… Agora eu posso até te perdoar… Só não sei se quero – ainda – te perdoar de todo… Tenho medo que perdoando eu te esqueça… (A palavra perdão lhe pesou no peito. Não sabia continuar. Mas não desligou o gravador. Encarou o silêncio como encarara o mar e pode ver que o silêncio, como o mar, tem muitas faces).

Também não quero o teu perdão… Saiba que naquela noite, depois de você me dizer que pelo menos a tua foda eu vou azedar, naquela noite eu transei feito uma louca… Me fode, eu dizia. E ele obedecia. Vocês sempre obedecem, mesmo quando se trata de mandar. Me fode e era como se eu dissesse “Festeja que eu não sou tua mãe, seu filho da puta – vem que eu te quero assim, bruto, forte, animal, anônimo…”

Sandra desliga o gravador! Sentiu-se chocada com sua dureza, com a vontade súbita que tinha de ofender, de humilhar Frederico… “Eu era só tua e você parecia não me querer…”, ela disse baixinho, para o gravador desligado. Sentiu que se não ligasse imediatamente o gravador, jamais o faria de novo.

É difícil entender uma mulher, não é? A ambiguidade das mulheres, você dizia… Você entendia…? Mulher menstrua. É estéril, fertil, mãe, puta… E quem explica? Os homens tentam, a gente vive. Você entendia? Eu achava que sim, às vezes… Outras vezes, não… Outras vezes, você era vulgar como quase todos os homens são… fútil, cotidiano e tributável como todos…

Calou-se novamente. Toda a doçura do início cristalizara-se numa camada dura que lhe envolvia todo o coração: “Maçã do amor…”, ela pensou sentindo todo o peso do seu amor. Folheou seu diário, que todo tempo permanecera sobre a mesa (mas nem sequer reparou nas linhas que servem de epígrafe a esta história…). Enfim, continuou:
Eu até poderia te dizer agora: “Eu te amo” – mas seria fácil demais. Só uma coisa eu não posso negar mais, uma coisa que eu descobri também: que o amor é carnal.
Que por mais que eu foda, ninguém me fode como você…

Ai, não vou te mandar essa fita, não posso… Porque você viria correndo – e eu não quero. Não ainda… E quando esse ainda passar, talvez seja nunca mais.

Sandra desliga novamente o gravador. Mas as lágrimas que vinham não cessam de repente – ao contrário, o click quase coincide com um soluço de pranto doído que lhe escapa involuntário da garganta. Ela levanta-se – decidida a parar com toda essa bobagem… Quebra um ovo, separa a clara. Depois outro, e mais outro… Junta as gemas ao açucar e à manteiga na vasilha grande, e começa a bater o bolo “na mão”, como sua mãe, como sua avó – fortalecida pela memória delas…
Aos poucos, vai juntando a farinha e o leite, sempre batendo com movimentos vigorosos a massa que vai se tornando cada vez mais homogênea, atenta à intuição que indicará o “ponto” em que será necessário interromper esta etapa para bater as claras em neve… É o momento que mais a encanta! Ver aquela pequena porção de líquido amarelado e viscoso ir crescendo, crescendo até adquirir a consistência de uma nuvem (como lhe diziam a mãe e a avó, quando a encarregavam dessa tarefa… “Claras em nuvem…”).

Bateu as claras, mas antes de juntá-las à massa do bolo para finalizá-la, ela resolve ouvir uma música. Vai até à sala, pega o cd e volta. Coloca o pequeno disco no aparelho que tem na prateleira da cozinha. Sabe exatamente o que quer ouvir Ella Fitzgerald cantando, mas antes de apertar o botão de play, hesita uns segundos, como se estivesse na iminência de uma confissão… Enfim, toca o botão e volta-se rápido, como se fugisse do gesto, mas já tomada pela voz que canta:

oh will you never let me be
oh will you never set me free
the ties that bound us
are still around us
there’ s no escape that I can see
and still those little things remain
that bring me happiness or pain

a cigarette that bears a lipsticks traces
an airline ticket to romantic places
and still my heart has wings
these foolish things
remind me of you

a tinkling piano in the next apartment
those stumbling words that told you what my heart meant
a fairgrounds painted swings
these foolish things
remind me of you

you came
you saw
you conquered me
when you did that to me
I knew somehow that this had to be

the winds of March that make my heart a dancer
a telephone that rings but who’ s to answer
oh how the ghost of you clings
these foolish things
remind me of you

gardenia perfume lingering on a pillow
wild strawberries only 7 francs a kilo
and still my heart has wings
these foolish things
remind me of you

I know
that this
was bound to be
these things have haunted me
for you’ ve entirely enchanted me

the sigh of midnight trains in empty stations
silk stockings thrown aside and sin-vitations
oh how the ghost of you clings
these foolish things
remind me of you

the smile of Garbo and the scent of roses
the waiters whistling as the last bar closes
the song that Crosby sings
these foolish things
remind me of you

how strange
how sweet
to find you still
these things are dear to me
that seem to bring you so near to me

the scent of smoking leaves the wail of steamers
two lovers on the street who walk like dreamers
oh how the ghost of you clings
these foolish things
remind me of you
just you…

São exatos sete minutos e 35 segundos em que ela se move reverente e precisa em seu silêncio de gestos delicados e certos, acabando de bater o bolo e começando a untar de manteiga a forma, os dedos derretendo com seu calor a manteiga que ela faz deslizar no metal frio e que lhe dá a exata impressão da voz de Ella soletrando cada fonema de cada palavra como se saboreasse minúcias para não esquecer… E é com a mão esquerda limpa que num insight de felicidade decide gravar na fita a música, subitamente esquecida de tudo que dissera antes e que quase a fizera desistir de continuar (mais tarde, se enfim ouvir a fita antes de mandá-la, Sandra talvez volte a sentir a mesma pontada de pavor e dúvida, mas também é muito provável que ela, tomada de toda a impetuosa solenidade que anda orientando seus gestos desde que descobriu não ter mais medo do mar, simplesmente coloque a fita num envelope e a envie para Frederico, sem ouvi-la de novo…).

Ligou o gravador e tocou outra vez a música, tempo suficiente para que ela derramasse a massa na forma e a levasse ao forno, previamente aquecido. Sentou-se enfim, e deixou-se ficar ouvindo muito quieta… Como ele estaria vivendo a ausência dela? Arranjara outra? E ela, arranjara?

“Dói descobrir que você longe não dói. Que não é você longe que dói. Dói é eu me sentindo crescer sozinha. Longe pra mim é não ter comigo algo que só possuo com você… Porque estar com você, meu amor, é como se ligassem uma chave geral e mil luzinhas se acendessem, de repente, quase ao mesmo tempo…”, ela pensou, sorrindo… Até que uma sombra de amargura veio lhe velar o riso: “Mas é como se eu preferisse o parque vazio, para poder vagar sozinha entre os brinquedos feito sonâmbula…”.
E assim ficou, divagando entre extremos enquanto no ar crescia o cheiro do bolo assando e no céu crescia a lua e os sinos da igreja batiam as seis horas… Nem reparou que a música já era outra e que o gravador continuara ligado… Levantou-se e foi abaixar o som… Trouxe o gravador para mesa e tornou a sentar-se…

Olha, meu amor… Não sei mais o que dizer…

Apesar, meu amor, de ter feito de tudo pra me livrar de você e ter feito de tudo pra não me livrar de você, de ter ido embora e voltado mil vezes, a verdade é que eu queria que você fosse, e que você ficasse, que eu me desembaraçasse desses sentimentos ou que eles me enredassem de vez até que eu não pudesse dizer mais “eu não sei”. Porque a verdade é que “Eu não sei”. Esse “não sei” que é o insondável dentro de mim, um lodo fundo onde adormeço o amor e que às vezes vem feito lava de vulcão, tesão de nojo, raiva de amor, puro pecado, instante, nada – mais um e daí?..Mas o tempo todo lateja dentro de mim o que eu não sei… Talvez um dia eu pare de querer saber… talvez o amor seja essa renúncia, essa entrega ao desconhecido que dorme dentro de mim…

Eu preciso dessa solidão pra poder garimpar meus sentimentos e sob essa luz clara do sol estender meu olhar atento e amoroso, para devolver ao rio o que é do rio, e separar para mim o que de verdade brilha…
Chega… Não queria dizer mais nada… Agora era a massa no forno, era o fogo dando forma ao que ela juntara com a força dos braços…

Às vezes isso me assusta – que haja criação em cada gesto nosso, mesmo o mais simples… E isso também me enche de esperança… Saber que eu posso, que eu sei como se aprende a adivinhar um desenho onde o que se vê é um caos de estrelas dispersas… E é isso, é isso que eu espero…Espero o dia em que eu me olhe no espelho… não, no espelho, não. Eu quero me olhar na minha vida, me olhar na minha vida e me ver inteira – e então, a despeito do que for, eu vou poder dizer que valeu a pena…
Sentiu de novo as lágrimas vindo como sempre em todas as despedidas. Lembra, meu amor, ‘o que tem força, fica’…

Ia desligar, mas deixou a fita rolando e aumentou o som para que Frederico ouvisse e tudo terminasse em alegria e promessa:

You do something to me.
Something that simply mystifies me.
Tell me, why should it be
You have the pow’r to hypnotize me.
Let me live ‘neath your spell.
Do do that vodoo that you do so well.

For you do something to me
That nobody else can do.
Let me live ‘neath your spell.
Do do that vodoo that you do so well
For you do something to me
That nobody else can do.
That nobody else can do.