Morrer rejuvenesce

No princípio, era um perfume.

Quando a luz, o calor e os ruídos que vinham da rua iam já vencendo o corpo que apenas queria dormir, relutando na precária escuridão que as pálpebras cerradas produziam, era o perfume que ainda o acalentava com a promessa de um outro corpo úmido e próximo onde ancorar de novo o sono… Braços e pernas se alongaram à procura, mas tudo que encontrei foi o vazio mais frio dos lençóis…

Era o que faltava para que eu abrisse os olhos e desse consciência à dor. Imóvel, fiz um travelling pelo quarto. Nada. Só o perfume persistia, vago e insinuante como um sonho. Esperei – quieto, alerta… Não conseguia lembrar quem seria ou poderia ser e nem sequer sabia se seria de fato alguém ou alguma forma de delírio… Também não me dei ao trabalho de tentar descobrir… A cabeça doía e o corpo parecia duro, pesado, ermo. Eu precisava de um banho…

Escoltado pelas paredes, cheguei até ao banheiro. Enfiei as mãos, a cara, a boca na água fria da torneira sentindo um profundo alívio em mim inteiro. Deve ser assim com as plantas quando chove no verão… Foi só depois, quando de novo me aprumei, que percebi, suspensa no ar, a boca úmida e vermelha, quase à altura da minha.

Era um beijo de batom impresso no espelho.
Um pouco abaixo do beijo ela escrevera: “Älska”. Ela existia mesmo – mas quem seria? Eu não lembrava… Ri. Senti vontade de beijar aquela boca…

Entrei no chuveiro. Adoro água fria. Sempre gostei. “Älska”… Não conseguia lembrar o rosto dela… OK, eu sofro de amnésia alcoólica. Isto é, eu costumo esquecer as coisas quando bebo demais. E eu sempre bebi demais. Mas, até onde me lembro, era a primeira vez que esquecia alguém com quem passara a noite transando…

“Passara à noite” me soou como uma concessão à minha precária auto-estima… Eu a conhecera ontem, certamente, mas… A impressão de intensidade que restara justamente exigia o tributo ao menos da lembrança. O que ficara não era o vazio exato onde nada falta, mas uma sensação semelhante à memória incerta de um sonho. Enfim, algo fora vivido intensamente e estava lá, pulsando, mas eu não via senão pálidos indícios, traços… Isso dói, como se uma parte de você começasse a ganhar uma incômoda autonomia.

“Älska”… O A adornado pelo trema parecendo uma auréola… Ela devia ser um anjo…

Fui para cozinha. Passei ciscando com os olhos em busca de algum sinal. Nada. Água com gás. San Pellegrino. Um santo peregrino, eu ri… Em quantas cidades eu já havia morado? Peguei uma maçã. De São Joaquim. Pequenas e suculentas maçãs… O mel de lá é delicioso. Comi uma colher. Mais água…

Ressacas são Capitus caprichosas.

“Bread, butter and champagne”. Que dia é hoje?” Let’s get lost”… Eu tinha champanhe na geladeira. Eu sempre tenho. É a capital do meu país, eu gosto de dizer… Uma garrafa de champanhe gelada sempre pronta. Mas eu tinha de ir ao jornal. Tinha de assinar a rescisão e apanhar o cheque.

Fiquei ouvindo Chet Baker…

Quando voltei ao quarto, já me sentia bem. Era mais de meio-dia. Foda-se, pensei… De pé, me vestindo, em frente ao espelho do armário, foi que reparei no fio de cabelo louro rebrilhando sobre o branco amarrotado dos lencóis… Tomei-o delicadamente entre os dedos e brinquei com ele, fazendo-o emitir reflexos dourados contra o sol… Toda ela estava ali, clonável, ensinava a genética… Enfim, o soltei e deixei que lentamente voluteasse no ar até cair de novo sobre a cama…

No princípio, ela era só isso: um nome, um perfume e um fio de cabelo louro…

* * *

Saí.

Eu gosto de dirigir. Mas prefiro beber. Por isso, só ando de táxi. Às vezes, alugo um carro e dou uns passeios. Mas há tempo não fazia isso. O jornal ocupara um espaço na minha vida – ou melhor: minha vida se esvaziara de tal modo que o trabalho acabara ganhando uma importância que nunca antes tivera. A bebida não era novidade. Eu sempre bebi muito. O problema é que essa mistura – álcool e trabalho – me tornara de uma franqueza implacável, amarga, obsessiva, suicida. A inconveniência passara a me divertir – e isso é perigoso. Um pouco por isso acabei na rua.

No jornal, depois do departamento pessoal, passei na redação.

Paulo me levou para um café na cantina.

– Vai fazer o quê?.

– Não sei. Escrever um livro… Rimos.

– E a história da puta? Você já leu?.

Paulo também gostava de ler os jornais populares, aqueles que só publicam crimes, sempre com fotos e manchetes enormes. Como eu, Paulo colecionava cadáveres.

– Desta vez o Solimar se superou….

Solimar Dias era a estrela desse time de repórteres, o mais canalha de todos, dono de histórias memoráveis, que já faziam parte do folclore do jornalismo carioca.

– O que foi que ele inventou desta vez?.

– “Perereca sufoca puta”.

– “A vaca foi pro brejo”, eu disse, quase sem pensar. Paulo riu.

– Na madrugada de ontem, uma prostituta morreu no quarto de um hotel cinco estrelas. Segundo a Gazeta, durante o ato sexual, engasgada com a prótese dentária que inadvertidamente engolira enquanto “arfava em êxtase”….

– Quem mais deu?

– Ninguém… Só a Gazeta e, assim mesmo, em uma coluna, no canto da página. Acho que Solimar não resistiu às possibilidades do título.

– É verdade?

Era. A notícia obviamente vazara. Ninguém segura uma história dessas… Mas uma intensa troca de telefonemas deve ter ocorrido durante a madrugada e toda a manhã de ontem, pois a ordem de não publicar veio de cima. É fácil de entender… O Palace pertence a uma família tradicional e é um dos cartões postais do Rio. E a puta morrera, sim, claro – mas de overdose de cocaína, sufocada pela própria língua.

“A morte de alguém, ainda mais nestas circunstâncias, seria uma propaganda negativa tanto para o hotel e a cidade, como para o país inteiro”, etc…. “E, afinal, que importância tem uma puta?” – eu podia imaginar os diálogos… O poder é solidário quando se trata de manter as fronteiras fechadas. A possibilidade do escândalo é a moeda de troca: o silêncio é do interesse de todos – mas, como tudo, tem um preço. Esse silêncio do Olimpo ressoa em boatos que alimentam a mitologia da ralé: ouvimos falar de tragédias e conspirações que nunca chegaram ou chegarão aos jornais, que nunca serão, portanto, história – e é nesse terreno movediço que se forja a apatia ou a impotência de todos. “Não há nada que se possa fazer”, concluímos – ou constatamos.

Solimar, macunaímico, dera visibilidade ao caso, ainda que distorcendo-o. Bem ou mal, estavam lá os elementos mínimos para uma investigação. Isto se quisermos “salvar” Solimar. Caso contrário, pode-se simplesmente classificá-lo de canalha manipulador dos fatos, sem nenhum compromisso com a verdade e orientado exclusivamente pela idéia de vender mais. Teríamos então de admitir que o jornal dele não difere dos outros senão pelo estilo…

Fiquei com aquilo na cabeça.

Decidi ir a pé do jornal até ao IML. Era perto e eu gostava daquelas ruas. Elas me lembravam a infância. A mim, tudo que é velho lembra a infância, mesmo que não faça parte dela. Fui descendo. Parei para comer um bolinho de bacalhau. Dois. Não resisti e pedi um chope. Tive de me segurar para não pedir outro. A puta – eu queria ver a puta…

Fui descendo. Essas ruas me lembravam meu pai… Era isso. Eu tinha sete anos quando ele sumiu. Simplesmente sumiu. Ele era jornalista e militante de esquerda. Um dia, uns policiais invadiram nossa casa e o levaram. E foi só. Nunca mais. Nem corpo, nada. Eu lembro vagamente e nem sei se lembro de fato ou se apenas imagino, de tanto ouvir a história contada milhares de vezes. Sei que, pouco depois, eu e minha mãe partimos, primeiro para a Argentina, depois Chile – de onde saímos também corridos para os EUA, depois Suécia, Alemanha e finalmente a França, Paris. Minha mãe casou e ficou por lá. Eu voltei, doze anos depois, sozinho. Trabalhei em todos os jornais do Rio e de São Paulo, e em quase todas as capitais dos estados… “Conheci muito seu pai” – me diziam antes de me empregar. “Pois eu não conheci…” , eu pensava – mas nunca disse. Achava uma ironia triste demais. “Never complain, never explain” – era minha máxima, extraída não sei se de Wittgenstein ou Clint Eastwood… Não importa…

Mas por conta do meu nome, dessa herança que me foi imposta como uma espécie de destino trágico, corri o Brasil, de jornal em jornal. Nunca me preocupei em me mostrar merecedor desse tipo de consideração, tentando ser ou parecer melhor ou semelhante a um pai que mal aprendera a amar e que eu conhecia muito mais como um personagem histórico do que propriamente como alguém próximo a mim. Ao contrário, até – diversas vezes abusara deliberadamente dela. Simplesmente me irritava, pois eu sabia que eles me usavam ou tentavam usar para aliviar suas consciências, manchadas pela certeza íntima que todos tinham de ter sobrevivido apenas por conta de sua covardia. Eles admiravam meu pai, mas souberam tirar o cu da reta. Toda essa consideração também não durou mais do que uns quatro, cinco anos. Depois todos simplesmente esqueceram – eram tempos novos, etc. Minha competência, no entanto, se firmara – junto com a má fama.

“Como é o cadáver de uma sufocada?”

“Quanto tempo fica um corpo na geladeira antes de ser enterrado como indigente? Quantas pessoas morrem violentamente no Rio por dia? Quantas não são sequer identificadas e acabam enterradas assim mesmo? Como será esse enterro sem testemunhas, sem choro, nem flores? Enterro de alguém que morre sem identidade, não deixando nada de si, nem sequer um nome numa lápide?”

Essas perguntas iam martelando minha cabeça enquanto eu caminhava, descendo a Frei Caneca, já quase na altura do Campo de Santana. Entrei no parque cercado de grades. Andei a esmo pelas alamedas, fazendo hora de olho no relógio da Central. Ia recompondo a história, armando as perguntas que faria… Em frente, o prédio vermelho do Corpo de Bombeiros parecia saído de um conto de fadas.

Na saída, lembro que um guarda me encarou. Firmei meus olhos contra os dele, refletindo de volta, em ódio, o desprezo que ele colocara neles. Essa desproporção o embaraçou, pois ele desviou o olhar – e eu segui. Não gosto que me encarem. Não gosto que tentem me intimidar. “Você aceita fácil uma provocação…”, pensei – lembrando o que eu ouvira uma vez de uma mulher que me amara.

Desci, ziguezagueando por ruas inteiras de sobrados velhos, tudo muito cinza e sem árvores… Twylight Zone… Vai-e-vem de office-boys, vendedores, travestis de rostos deformados feito máscara de cera derretida, putas decadentes e baratas, velhas matronas com suas bundas enormes que me lembraram as cotias do Campo de Santana…

Finalmente alcancei a Mem de Sá, estuário de todas aquelas ruas perdidas no tempo e cheguei ao Instituto Médico Legal.

Se existe vida após a morte certamente é no IML.

Gente pobre espalhava-se na entrada e arredores, os olhos perdidos, a expressão atônita atravessada pela dor, à mercê dos papa-defuntos que rondavam, avaliando suas presas, com uma conversa pronta em que se misturavam promessas de um serviço rápido e barato e ofertas extras de flores e caixões, na esperança de arrancar alguns trocados a mais por conta de “uma última homenagem”…

Subi as escadas de mármore encardido. Policiais cruzaram comigo, a mesma expressão arrogante e desconfiada – inconfundível.

Eu conhecia um perito, Robespierre de Azevedo – ele era conhecido do Paulo e nos servira como consultor informal quando da morte supeita de um ministro do governo anterior.

Dei sorte de encontrá-lo. Ele custou um pouco a me reconhecer e, enquanto vasculhava a memória, me examinou com o que imaginei ser um olhar de perito.

Eu queria ver a puta.

– Você já esteve em uma morgue antes?

A expressão morgue parecia tirada de um conto de Poe. Não, eu nunca visitara um necrotério. Nunca fizera Polícia na minha vida. Mesmo agora, quando me tornara, quase por acaso, Editor de Cidade e desenvolvera uma doentia atração pelos cadáveres anônimos desta cidade, eu nunca de fato vira um cadáver – ao menos não nestas condições.

– Não importa. É igualzinho no cinema…

Robespierre riu.

– Você sabia que a palavra necrotério é um neologismo?

Eu não sabia.

– Pois é… Foi uma invenção do Visconde de Taunay, com a intenção de substituir justamente o galicismo “morgue” – em um tempo em que os galicismos pareciam incomodar mais do que a escravidão…

Ele abriu a geladeira e puxou para fora o corpo nu e descoberto da mulher. Uma longa cicatriz mal costurada corria do peito até o ventre: ela fora eviscerada para que a causa mortis pudesse ser determinada com precisão. E, no que era da competência do IML, tudo fora feito de forma clara: o laudo apontava sem rodeios a morte por overdose, a despeito do silêncio dos jornais e da matéria fantasiosa de Solimar… Não era, no entanto, uma prova do caráter incorruptível da instituição: simplesmente tudo se resolvera “no andar de cima”, sem que fosse necessário recorrer à falsificação de um laudo, por exemplo.

Fazia dois dias que ela morrera e estava ali, na geladeira. O corpo perdera a cor, o viço e se desidratara, tornando-se menor. Mas mesmo assim, ainda era possível enxergar a beleza – a curva dos ombros e dos seios ainda traduzia o porte que em vida devia ter sido reto, arrogante e cheio de si, confiante na beleza que o rosto estampava: o nariz fino, os lábios sensuais, os olhos grandes – “Eram azuis…”, Robespierre comentara, interrompendo o gesto esboçado de abri-los com os dedos…

Não sei se é assim com todos os homens, mas a beleza sempre suscita em mim uma espécie de nostalgia – quase sempre em face de uma mulher bonita eu tenho a impressão de já conhecê-la… Eu olhava aquela mulher e seu rosto não me parecia estranho…

“Ela era loura….”, Robespierre disse, estilhaçando o silêncio hipnótico a que eu me entregara, perdido na contemplação daquele rosto impossivelmente familiar… “Os cabelos eram pintados de preto…”

– Ela não parece uma puta…”, foi tudo que consegui dizer.

– É verdade… Ao menos não uma puta daquelas que a gente espera encontrar nas imediações do Palace Hotel… 1,74, 63 kilos, pele bem tratada, unhas bem feitas… Olhos azuis… E quase não se repara que os cabelos são pintados… Uma puta cara, pelo menos…

– Ela era loura?

– Era…

Robespierre empurrou de volta a gaveta e o corpo foi retornando aos poucos à escuridão gelada que o conservava.

Peguei um táxi e fui até à Delegacia de Turistas. Eu conhecia a delegada, Dr. Beth Esteves. Dito assim, não parece nada. Olhando, trata-se de uma morena belíssima, a pele de bronze, os cabelos muito negros, dentes alvíssimos, alta, grande – em uma palavra: gostosa. Advogada, falava inglês, francês e espanhol fluentes – e alemão de má vontade.

Beth me passou informalmente tudo que sabia e constava do registro de ocorrência: nomes, horários, datas.

– É um caso estranho… Mandei investigar, mas não levo a menor fé que dê em alguma coisa… Qualquer novidade, eu te aviso… O depoimento do alemão que estava com ela também não ajuda em nada…

– Por que você acha estranho..?

– Porque, a despeito de toda a história montada, a morta não parece uma puta…

– Tive a mesma impressão… Mas, e daí?

– Pois é – e daí? Não sei… Mas desconfio que se há alguma trama por trás teremos muita dificuldade em descobrir algo… O silêncio dos jornais foi, no mínimo, constrangedor…

– É verdade…

– E a ordem que tenho é de arquivar o caso….

* * *

Desci à pé pelo calçadão. Passei em frente ao hotel, sua fachada clássica e imponente dominava quase um quarteirão inteiro… Eu estava morando no Posto 6 há quase três anos. Eu gostava de estar perto do mar. Gostava do cheiro do mar – especialmente em dias, como naquela sexta-feira, em que a chuva se anuncia, súbita.. O céu estava nublado e, com o vento, ia se adensando mais e mais, prenúncio de tempestade – tão comum nesta época do ano. Resolvi tomar uma água de coco no quiosque próximo à colônia de pescadores. Aqueles barquinhos coloridos, sem vela, sem motor, que eu sempre imaginava movidos apenas pela força dos braços de uns homens tostados de sol, a pele gretada de rugas, me comoviam, largados na areia, à sombra das poucas amendoeiras que ainda restavam na orla carioca. Acho que é o anacronismo deles que me comove, a resistência deles ao tempo. Para eles, homens e barcos, o mundo, o nosso mundo, poderia acabar amanhã que tudo mais permaneceria na mesma… Talvez eu mesmo tenha me sentido assim a vida toda – como algo fora do lugar, sempre estrangeiro em toda a parte.

Mas naquele dia eu não pensava nisso. Pensava na puta morta no hotel de uma overdose de cocaína. No depoimento que prestara à polícia, dizia a matéria de Solimar, o alemão que ocupava o quarto contou que ela pedira para usar o banheiro – e certamente teria sido nesse momento que se drogara. Disse ainda que a encontrara na Avenida Atlântica, perto do hotel, não sabia precisar bem onde. E só. O alemão, segundo Beth, partira hoje de manhã de volta para seu país e agora só poderia ser ouvido por carta precatória.

Enfim, a polícia, os jornais, o mundo todo dera o caso por encerrado – dois dias e ninguém sequer aparecera para reclamar o corpo. E que corpo! Ri. A necrofilia não estava entre as minhas taras, mas não pude evitar o comentário íntimo. A morte é sempre triste, mas a morte de uma mulher bonita é ainda mais triste. É como se um pouco do meu desejo morresse junto, sei lá… Talvez fosse por isso que, naquele momento, eu insistia, contra todas as aparências, em acreditar que havia algo de estranho ali – que não era simplesmente a morte por overdose de uma puta em um hotel de luxo o que estava sendo encoberto.

Decidi que naquela noite eu passaria no hotel.

Fiquei olhando o mar até anoitecer, sentindo o vento no meu rosto, o cheiro forte da maresia. Lembrei de Älska… Como podia tê-la esquecido e ainda assim senti-la tão próxima? Breve eu descobriria por quê.

* * *

Voltei para casa, tomei banho e fiquei fazendo hora – ainda era cedo para sair e uma preguiça me invadira o corpo. Fui fumar um cigarro na janela da sala.

“So what?” O trumpete de Miles lançava no ar a pergunta, a única de fato relevante – sim: “E daí?” Qual, afinal, o sentido disto tudo? Olhando daqui, do oitavo andar deste prédio defronte a outros tantos prédios igualmente imóveis em sua condição de coisa morta, janelas empilhadas sobre janelas, iguais e vazias, pulsando juntas em um ritmo hipnótico a mesma luz colorida das telas de TV sintonizadas todas em um único canal onde a esta hora se desenrola a trama de umas vidas fictícias e previsíveis e, por isso mesmo, tranquilizadoras, pois tudo como sempre acabará com a premiação do bem e a punição do mal, com tudo finalmente no lugar devido e esperado, para que enfim aqueles que assistem possam continuar acreditando, para que a eles também não ocorra perguntar “E daí?” – É nesta hora que eu entendo o suicídio como uma forma de lucidez encurralada, eu entendo o suicídio como a tentativa extrema de um salto para a vida…

E quando digo isso, não sinto em mim o menor traço de melancolia ou autopiedade. Horas antes, eu vira o corpo de uma mulher bonita abandonado em uma das muitas gavetas frigoríficas do necrotério – rígido e pálido, morto: há quanto tempo aquela mulher brincava com a morte, aumentando um pouco mais a cada vez a dose que injetava nas veias como uma fórmula de evasão, de esquecimento da vida que acabara por tornar-se a sua e que, em algum momento, lhe parecera como a melhor saída, a mais eficaz, a que a conduziria, por uma espécie de secreto e milagroso atalho, a uma condição nova e distinta daquela a que desde sempre parecera condenada? Todos, um dia, sentimos brilhar nos lábios o sorriso triunfante de Édipo ao cruzar os portais de Tebas, aclamado rei pela multidão: todos, um dia, acreditamos ter finalmente, de algum modo, escapado à íntima miséria que nos consome ao preço do seu silêncio – “Dá-me todo dia um tanto da tua alma que eu me manterei calado”, nos sussurra o verme que confundimos com o Destino… E é exatamente no dia em que pensamos vencê-lo que selamos nossa derrota definitiva…

Quantas noites tenho passado nesta janela apenas vendo irem se apagando as luzes uma a uma até que só reste a minha e mais uma ou outra acesa, meus companheiros de insônia, amantes da vida noturna, nós, os que só têm olhos para a noite, os afilhados da lua… ? Pois é nessa hora que, em geral, escrevo – quando me calha de escrever – o livro, O Livro – que eu dissera a Paulo que escreveria quando ele me perguntou o que faria agora que estou desempregado, finalmente livre do cotidiano massacrante e, ao mesmo tempo, superficial do jornalismo diário. Por quanto tempo? Enquanto o dinheiro der. E, até lá, quem sabe, estará pronto O Livro – o nome que eu dou ao meu desvio milagroso, passagem secreta para o novo mundo… Eu ria – o uísque duplo que eu mecanicamente me servira enquanto pensava essas coisas começava a fazer efeito… Por que eu saíra do jornal – ou melhor: por que fora mandado embora? História chata…

Desde que passara a editor de Cidade – desta cidade onde diariamente uma média de 20 corpos dão entrada no Instituto Médico Legal por morte violenta – eu me tornara um colecionador de cadáveres. Pouco a pouco, a morte passara a ocupar mais e mais as páginas da editoria, o que vinha me valendo sucessivas e reiteradas advertências. Até que em uma reunião de pauta, o editor-chefe repetiu em um tom mais ríspido a reprovação costumeira ao número de matérias policiais, sob o argumento de que “o Nosso Leitor não gosta disso”. Ressentimentos encontraram enfim um pretexto e a discussão resvalou para o bate-boca. Eu respondi que “O Leitor é uma entidade que não existe” – e que não pode moralmente ser levado sequer em conta quando se faz jornal. O repórter narra fatos. Se o leitor não gosta da realidade, problema dele. Eu era o editor – meu papel é dizer quais fatos são notícia. O incomum é notícia. O inesperado é notícia. O indigno é notícia.

Ao fim da discussão, eu estava demitido. Não fiz nenhum esforço conciliatório: eu queria mesmo sair. Enfim, naquela sexta-feira todo o processo se encerrara: eu estava fora. Dera finalmente o salto – e isso merecia uma comemoração, pensei. Merecia algo mais que uísque…

Eu queria ir ao Palace.

No Palace funciona um dos melhores restaurantes do Rio, o Pascale, filial brasileira do famoso restaurante parisiense. A cozinha obviamente é excelente, mas o lugar em si é, ao menos para mim, o mais bonito da cidade – talvez do Brasil. Ambiente amplo, todo em art deco, pé direito altíssimo, com enormes vidraças de frente para a piscina, que à noite torna-se de um azul intenso por conta da iluminação do fundo. Apesar de exuberante, não há excessos e sua elegância é natural, exata, espontânea – de um luxo que não é opressivo, mas acolhedor. A atmosfera é de sonho e eu, todas as vezes que vou lá, fico esperando que Grace Kelly entre no salão à procura de Cary Grant.

Quem eu convidaria para jantar?

Podia chamar um amigo… Ri. Todos os meus amigos eram ou pais de família ou alcoólatras lutando para manter a dignidade no vício. Para uns e outros os preços do Pascale pareceriam um despedício insensato de dinheiro: os pais pensando nos presentes de fim de ano, os bêbados em quantas doses equivaleriam a um prato – mesmo se eu pagasse…

Além disso, queria a companhia de uma mulher…

Leka, claro! Leka Ninin – minha moleca, filha incestuosa, deliciosa e livre. Ela ficaria bem no Pascale, ela também exuberante em sua juventude e – em contraste com o Pascale – exótica, inesperada. Manequim e não mero modelo, ícone meu de elegância erótica, seu exotismo é o que o exotismo tem de ser: um modo de manter os outros a distância, ao invés da oferta fácil dos modelitos prontos, na moda, yin… Ela sim, por demais exata, linda. Única: ela – Leka, Leka Ninin. Peguei o telefone e liguei.

Ela veio em um longo de tecido leve e caimento imaculado, os braços nus, as costas à mostra, mas algo que lhe permitia a ousadia de umas sandálias de deusa grega – lá está ela, olímpica, vênus esculpida na pedra pérola de um mármore perfeitíssimo. Lá está ela. Pára e hesita um instante entre o bar e o salão, ereta, os olhos passeando de soslaio até me ver no balcão e explodir num sorriso e vir naquele modo dela de andar que a tem levado a todas as partes do mundo – gente se junta para vê-la, gente lhe paga para isso: para andar – desfilando suas criações. Eis, enfim, o que ela é: uma forma de excelência – a encarnação de um conceito…

Eu fizera reserva para a mesa que fica exatamente ao lado da segunda janela com vista para a piscina – a minha predileta… Enquanto caminhávamos em direção à mesa, conduzidos pelo mâitre, eu sussurrava ao ouvido de Leka obscenidades, distraindo-a dos olhares inevitáveis à sua passagem… Homens e mulheres, júbilo, supresa e mal-estar, tesão e inveja, tudo ia se misturando no ar à passagem dela…

– Quando eu te matar, vou escrever na tua lápide: “… e tu pisavas em astros, distraída…”

– Lindo… Orestes Barbosa fez para minha avó… Mas por que me matar…?

– Uma fórmula extrema de vencer a morte no que ela tem de involuntária e injusta… Te matar enquanto você é, de algum modo, imortal…

– Deixa de besteira! O que a gente vai beber?

– Só champanhe…

* * *

O barato do tesão é que ele excita a inteligência. É a droga mais eficaz, combinando brilho e embriaguez. Borbulhante: era assim que eu me sentia e sentia Leka quando eu a tinha ao alcance das mãos. E dos olhos. Eu tinha visto as fotos que ela fizera para a Vogue francesa e discorria sobre cada uma. Era um ensaio algo intimista, onde o negro, o vermelho e o branco predominavam em jogos de sombra, luz e movimento. O fotógrafo captara, para meu ciúme, o que em Leka havia de fogo e terra ao mesmo tempo: densa e flexível, Leka hai-kai, Leka lava: vulcânica – os olhos dela faiscavam da vaidade ao se ouvir assim descrita, por minha voz que se tornava terna, modulada com o sentido mesmo de envolvê-la, Leka, em minha língua. Eu me sentia mais e mais barroco…

– … melhor até que o fotógrafo.

– Então deixa eu pedir uma coisa…

– Pede…

– Anda pra mim…

Leka sorriu e levantou-se.

– Em volta da piscina…

Ela foi e eu, logo atrás, de modo a olhá-la com todos os olhos, vê-la, filmá-la na memória, e por um momento ela pareceu andar sobre as águas… Era isso: Leka andava sobre as águas.

– Vamos passar a noite aqui?

O convite me pegou de surpresa. Eu não pensara nisso. E era perfeito! Eu poderia ir ao quarto 308..!

Abracei Leka. Mergulhei meu rosto em seu pescoço, as pálpebras lhe roçando a orelha, o nariz respirando junto ao lóbulo, a boca descendo úmida pelo pescoço esculpido por Modigliani, as mãos aninhando os cabelos mais perto, aconchegados. Eu sentia tudo: sentia o coração dela pulsar, primeiro no peito, depois no púbis, a impressão de ouvir o corpo por dentro a produzir seus sumos, o sangue a umedecer a pele que a língua toca…

E escrevendo agora me ocorre que eu nunca pensei em casar com Leka. Nunca nos declaramos sequer namorados. Nunca falamos a respeito. Nada. Saíamos às vezes há mais de quatro anos… Manso e intenso ao mesmo tempo: Leka nunca me fez sofrer. E mais – o melhor: a gente fodia bem… Combinava. Se entendia…

Ela viajava muito. Acredito que por conta disso ela tivesse seus casos – mas, eu sentia, era para mim que ela voltava. Comigo ao menos acontecia assim. Eu trabalhava muito. Tinha outras namoradas, mas era ela, Leka, que velava meu coração em seus mais ermos silêncios.

– Uma noite no Palace é um belo título para um conto…

– Ou um romance policial…

– Você não vai me matar, vai?

– De amor…

Leka queria um apartamento alto, de frente para o mar – ficamos no 714. Ela abriu as janelas e apagou as luzes. A iluminação da rua e do próprio hotel definiam com suavidade o contorno das coisas e, àquela hora, podia-se ouvir o rumor do mar. Leka me levou até a janela. Aconchegou-se silenciosa em meus braços, como só os gatos sabem fazer. “The shore is kissed by sea and misty so tenderly..”, eu cantei em seu ouvido…

* * *

“Nossa noite inesquecível”… Dito assim, parece promoção de motel – aquelas do tipo “escreva uma frase e ganhe…”. Pois eu não teria palavras… Nos amamos sem fúria nessa noite, afundados na cama magnífica, latifúndio de nuvens.

Leka dormia agora – rindo, um sorriso riscado nos lábios, na expressão feliz do rosto. Eu acordado, calculava: tinha chegado mais longe do que eu próprio imaginara ao convidar Leka para jantar no Pascale. Eu tinha a remota esperança de ouvir alguma coisa, conversar com alguém, enfim… – mas agora estava “dentro” do hotel – aceso e lúcido quando o mundo inteiro descansava.

Tomei uma chuveirada rápida. Vesti-me. Leka apenas se espalhara um pouco mais. “Uma noite no Palace” – teria sido esse também o sonho da morta?

Quando eu morei em Florianópolis, fiquei amigo de Chaves, o chaveiro – um beberrão como eu. Aprendi a abrir portas. Qualquer porta. Pratiquei. Uma das razões imediatas é que eu vivo batendo a porta com a chave por dentro… Enfim, ser a chave de todas as portas pode ser uma pretensão metafísica, mas é bom saber que, a princípio, as portas estarão sempre abertas pra você – mesmo a contragosto.

Certamente isso tem a ver com as constantes mudanças, o estado de alerta permanente que, de um certo momento em diante, tomara minha vida, a despeito da minha vontade. Ter um ás na manga, um sortilégio qualquer, uma mágica, uma surpresa, uma saída… Uma saída. Até hoje, quando entro em algum lugar a primeira coisa que faço é procurar a janela e ver até que ponto ela pode ser uma alternativa de fuga.

Desci pelas escadas até o terceiro andar.

Parei. Como saberia se o quarto estava ocupado? Ou eu arriscava entrar com 50% de chances de arranjar um problema, ou checava na portaria do hotel se a chave correspondente ao apartamento estava no claviculário. Era mais sensato. Mas o que eu diria na portaria? Concluí que a cortesia exige que não se cobre coerência de um hóspede: não diria nada.

Na portaria, depois de um longo silêncio observando o claviculário, pedi uma San Pellegrino.

A chave estava lá. O 308 estava vazio.

Enquanto bebericava a água lá fora, vaguei observando a fachada do hotel, calculando aquele que seria o nosso quarto – a janela aberta, ali… “Eu não demoro, meu amor” – pensei – ou devo ter pensado…

Tomei o elevador. Saltei no terceiro. Só quando já estava no corredor e ouvi o ruído do elevador partindo de volta é que me dei conta de que deveria ter saltado no sete e voltado pelas escadas. Porra!

Cheguei ao 308. Tinha de agir rápido. Meu medo era que alguém lá embaixo tivesse acompanhado a trajetória do elevador e, sabendo que eu estava hospedado no sétimo, viesse checar o que eu fazia no terceiro.

Eu trouxera uma gazua, lembrança de Floripa.. Um, dois, três… O elevador está subindo ou é mera impressão minha? Quatro, cinco, seis… Eu movia a gazua com delicadeza, delicadeza exige concentração. Sete, oito, nove… Minhas mãos começaram a suar…. Dez, onze… O elevador estava subindo… Doze: as portas se abriram talvez juntas: a do quarto a do elevador.

Entrei. Ouvi passos no corredor e instintivamente me afastei da porta, esgueirando-me pelas paredes. Dei em outra porta. E se o outro quarto estiver ocupado?

Eu tinha de arriscar… No escuro, comecei a tentar abrir a outra porta, que daria para o quarto ao lado… A escuridão, ao contrário do que se podia imaginar, facilitava o trabalho, aumentando minha concentração, pois os olhos de nada nos servem em certos casos, eles apenas nos distraem – meus olhos agora estavam na ponta de meus dedos e no fundo de meus ouvidos…

Abri a porta com facilidade e passei para o outro quarto. Meus olhos já estavam mais ou menos acostumados com a escuridão. Ouvi quando o empregado do hotel mexeu na maçaneta do outro quarto. “Ele vai encontrar a outra porta aberta”, pensei – alarmado. Minha estratégia seria a dos desenhos animados: eu estaria sempre uma porta adiante dele, quando ele abrisse uma eu abriria a outra e entraria de novo no quarto ao lado. E assim ficaríamos, feito Tom e Jerry…

Mas no instante seguinte me dei conta que as portas não abrem por fora, a menos que se tenha a chave. Ele teria alguma chave-mestra? Provavelmente não… Uma chave-mestra capaz de abrir todos os quartos, se existisse, não teria cópias e estaria certamente muito bem guardada, sob a responsabilidade de um gerente ou algo assim…

Fiquei mais tranquilo. Larguei os olhos para que se apaziguassem na escuridão …

O quarto ao lado – ele não fora ainda mencionado…

Dois cenários, o palco e os bastidores… Back stage… trabalho de bastidor, cena armada… Profissional o trabalho… Na escuridão, o quadro ia se construindo dian

te dos meus olhos. Era quase como um sonho ou como lembrar de um filme, à noite, na cama, insone e imóvel, para que a amada não pressinta a angústia que te acomete certas horas, sem razão e sem remédio…

Esqueci o perigo do empregado a rondar lá fora… Perdi a noção do tempo no que não me pesava senão como um instante – longos segundos que talvez não tenham sequer se constituído em minuto… Sei lá – mas o quadro estava pronto, dado. Ela fora morta aqui, onde eu estava. Depois a acomodaram no 308…

Mas por quê? Por que tamanha sofisticação para assassinar uma puta?

A resposta é óbvia mas não atinei com ela de imediato. No momento seguinte, eu só pensava em sair dali. Passado o júbilo da intuição fui tomado pelo pânico. Minhas mãos começaram a suar, senti o coração pulsar mais forte e o corpo esfriar de repente, minhas forças escorrendo pelas pernas. Um tremor me percorreu de alto a baixo e tive medo de não conseguir andar…

Devagar cheguei até à porta e encostei-me para ouvir os rumores… Fiquei ouvindo… Nada…. “Pois é, está assim desde de manhã….”. A lembrança da piada do maluco que passara o dia ouvindo uma parede me fez perceber que eu já me tranquilizara. Abri a porta lentamente e olhei o corredor. Ninguém. Corri até às escadas e subi. Entrei no quarto, me aconcheguei ao lado de Leka e dormi.

* * *

“Bom dia!”

Não acreditei quando vi Leka, primeiro pelo espelho do quarto, depois de pé, toda pronta para ir à praia: chapéu de palha, óculos escuros, um roupão curtinho do hotel, sandálias havaianas e biquíni. Enquanto eu dormia, ela comprou tudo – a linda. Lá fora esplendia o verão do Rio.

– Comprei um calção pra você.. Um boné… Você vai ficar uma graça…

Tomei uma chuveirada rápida e dei uma geral na aparência. Novo.

– Assim de calção você nem parece jornalista…

– Genética…

Descemos.

No elevador, Astrid Gilberto cantando “Garota de Ipanema” com Stan Getz no sax, João Gilberto no violão e Tom Jobim ao piano… Combinava e é o que melhor ilustra a cena – tanto na aparência quanto pelo que me ia por dentro: Leka cruza o saguão, a naturalidade e elegância dela nas roupas que comprara nas lojas e camelôs ao redor do hotel, “tudo baratinho”, o biquini – e meu calção! – floridos, os óculos de Jackie O., “Você está a cara do Bruce Willis”…

Ah! Leka… A caminho do mar, fotografei você com a minha Roleiflex…

O Rio tem dias esplendorosos. Uma natureza nórdica rejeitaria como impossível esse sol, essas areias que nada têm de desertas em um sábado de manhã, esse mar de Copacabana, mais azul do que tudo. Nós, mulatos até à alma, não. Nós cariocas, não. Nós, e todos esses estrangeiros que se convertem em cariocas, nós amamos a pedra, o mar, o sol – e esse calor de rachar.

“O Rio é a única grande cidade do mundo em que pelo simples morar o sujeito se transforma em cidadão nato. Quero dizer que o sujeito vai para São Paulo e torna-se um pernambucano morando em São Paulo. E assim, Nova Iorque, Buenos Aires, e até Paris…”

– Não, Paris, não. E Nova Iorque também não…

– Nada… Só o Rio…

A coisa ia por aí, enquanto um negro todo de branco nos ajeitava a sombra do guarda-sol… Champanhe pra completar o vídeo clip? Não – Leka acha decadente beber de manhã – até champanhe! Leka quer biscoito Globo, mate Leão e Chicabon…

Contei pra Leka a história da puta, minhas taquicardias noturnas – “Bem que eu senti a tua falta” – “Mentirosa… Sabe que você ri dormindo?” – Contei também minha suspeita.

– Você está escrevendo um roteiro pro Tarantino?

– É óbvio que, se isto não for um roteiro do Tarantino…

– O que é óbvio?

– Que ela não era uma puta…

– Acho que tem aí um “preconceito velado”, como vocês costumam dizer…

– Talvez eu devesse então falar “eu acho que ela não era uma puta barata” – fica mais claro?

– Melhor assim… Sem o manto da bondade… Vou dar um mergulho..

Não tive tempo de retrucar o “A hipocrisia é a deferência que o vício presta à virtude” ou algo assim que aprendera com o Francis – e que eu gostava de repetir sem muito critério.

“O que eu queria dizer, sua perua precoce…”, eu falei, agarrando Leka dentro d’água… “…é que ela não é o que querem que a gente acredite que seja: uma puta. E muito menos barata… No mínimo, cara… Mas mesmo assim, por que o teatro todo?”.

– Para encobrir a identidade dela, claro – seu burro!

E Leka me deu um caldo…

Claro! Claríssimo! Seria por isso então que ela me parecera tão familiar no necrotério..? Eu precisava voltar lá…

No saguão, de volta ao hotel, cruzamos com um homem alto, louro, desses caras que visivelmente não aparentam ter a idade que têm, acompanhado por um pequeno séquito onde se misturavam assessores e seguranças… Ele olhou para Leka com olhos mais de cobiça do que desejo, como se ela fosse algo que ele pudesse comprar… Um colecionador de troféus… Leka o cumprimentou, sem parar… Reparei no anel de ouro que trazia no dedo mínimo da mão direita e que lhe dava um inesperado ar canalha.

– Quem é?

– Você não conhece? Que jornalista é você..? Mas não perde muita coisa… É Jorge Olsen, dono do Palace e de mais uma porção de empresas… Tarado, dizem… Gasta rios de dinheiro com meninas e festas homéricas… Dizem também que mantém um seletíssimo harém de viciadas em heroína…

– Heroína?

– Por que a surpresa, jornalista? Coisa de gente grande… Ou nunca te contaram que já plantam papoulas nos Andes?

– Como você sabe disso tudo?

– O universo das modelos não é nada exemplar…

Liguei para o Paulo e pedi que ele marcasse com o Robespierre no IML às cinco. Paulo não poderia ir, mas conseguiu que Robespierre confirmasse o encontro.

Eu e Leka almoçamos na pérgula do Palace. Eu mal consegui tocar na comida de tão excitado, mas em silêncio, pensando… Eram quatro e quinze quando deixei Leka em casa.

* * *

A tempestade de ontem, que ventos em segredo desfizeram, ia se armando de novo nos céus. É um trabalho lento, que começa com pinceladas esparsas de nuvens que vão se adensando mais e mais até tornarem-se enormes formas compactas que desfilam no ar a inacreditável variedade do cinza.

Vire de cabeça para baixo “O campo de trigais”, de Van Gogh, e o azul é o mar e os trigais um turbilhão de matizes – opala, lazuli, ônix… E os mesmos pássaros estarão lá, gaivotas voando baixo em desespero por terem perdido nos ventos o rumo de casa….

Vai se criando uma tensão que é da própria natureza, mas se soma à incerteza que percorre a espinha de cada um, sobretudo de quem é pobre e mora longe: enchentes, desabamentos, deslizamentos, inundações há mais de cem anos se repetem com a precisão de um relógio. Pode-se dizer que sabemos que todo ano pelo menos uma dúzia há de morrer por conta das chuvas… É uma espécie de loteria macabra que corre no verão entre os pobres…”The loser takes all…”

Há mesmo algo de apocalíptico no súbito escurecer quando a tempestade se instala, definitiva. “Vai chover…” – e começa a anunciação em ventos rodopiando ao retumbar dos trovões. É grandioso e terrível – mero vislumbre do que pode a natureza, a natureza que a cidade supõe ter domado.

Cheguei no IML às cinco em ponto. Subi de dois em dois os degraus e fui a passos largos pelo corredor até chegar na sala de Robespierre.

– Eu tenho uma novidade!, eu disse.

– Eu também…, ele me respondeu, sem nenhum entusiasmo, me atirando um exemplar de A Gazeta. “Esse Solimar é mesmo um filho da puta…”

O CRIME DA ARMA MISTERIOSA

“Na madrugada de hoje o cadáver de um homem veio dar na Prainha, na Barra da Tijuca., com quatro perfurações feitas por arma ainda não identificada pela perícia. O homem – branco, sessenta anos presumíveis – trajava apenas um calção de banho e apresentava quatro estranhas perfurações no abdome. O exame preliminar da perícia feito no local não conseguiu apontar a arma do crime. Aparentemente, não se trata de arma de fogo nem de nenhuma arma branca conhecida. O homem, de aparência bem cuidada, tinha cabelos grisalhos, olhos azuis e nenhuma marca ou sinal peculiar. Até o momento, não há registro de desaparecimento de pessoa com essas características. A polícia trabalha com a hipótese de assalto seguido de homicídio, tendo o corpo depois sido atirado no mar. As investigações já foram iniciadas e os policiais aguardam agora os resultados finais da perícia.”

A manchete se abria no alto e a matéria vinha logo abaixo, ao lado da foto do cadáver deitado na areia sendo lambido pelas ondas. A aparência meio inchada era de um afogado, mas as perfurações eram visíveis.

– Crime da arma misteriosa… , resmungou Robespierre. E completou: “Crime da arma misteriosa é o caralho! Esse cara simplesmente se afogou. As perfurações foram feitas depois!”

– Solimar?

– Provavelmente… Certamente… Aquele filho da puta… Isso é violação de cadáver!

Senti no tom de Robespierre mais do que indignação. Havia tristeza em sua voz: Solimar havia assassinado um morto. À aparente morte acidental, um assassinato se acrescentara. E, para Robespierre, cadáveres eram ainda seres humanos, capazes de se comunicar com quem lhes soubesse interpretar os sinais que o corpo conservava – não apenas das condições mais imediatas de sua morte, mas de uma vida inteira. Para ele, um cadáver era um “livro aberto”, e a alteração ou o acréscimo de linhas apócrifas ao texto equivalia a muito mais do que uma simples falsificação: era uma tentativa de alterar toda a história…

Na verdade, juridicamente tratava-se, sim, de um crime. Como ele dissera “violação de cadáver” – e certamente um advogado saberia somar mais duas ou três acusações à denúncia. Mas nós estávamos no Brasil, onde, se um vivo vale muito pouco, um morto é nada – um objeto apenas, disputado por papa-defuntos, mercadores de órgãos, dissecadores de cadáveres ou necrófilos.

– Vem ver… Robespierre levantou-se e saiu para o corredor caminhando decidido em direção às geladeiras, sem me dar tempo de recuperar o fôlego. Eu me envolvera na sua história a ponto de momentaneamente esquecer a minha – pois, de um modo evidente, as duas histórias se misturavam, cheias de pontos em comum: Solimar, identidades confusas, um assassinato disfarçado em acidente, um acidente transformado em assassinato…

– Olha! Ele abriu a gaveta da geladeira num gesto que pareceria teatral – e só agora, retrospectivamente, me dou conta do quanto os gestos extremos são sempre gestos teatrais, como se, na verdade, aquilo que chamamos “teatral”, desqualificando-o como meramente falso ou fictício, fosse o que mais profundamente nos revela a essência de nossos sentimentos e emoções…

Pude então ver o corpo de um homem que correspondia exatamente à descrição que Solimar fizera na reportagem, mas atentando para o que antes apenas soara como uma figura de retórica: de fato, o sujeito era alguém que não esperaríamos encontrar na geladeira de uma morgue (eu adotara o galicismo), sobretudo vindo de uma praia distante e envolvido numa farsa como a que Solimar montara.

Robespierre ainda não o abrira para examinar-lhe as vísceras e ele então ainda conservava aquela aparência irreal de todo cadáver: sua palidez azulada lhe acrescentava uma perversa aura de pureza…

– Morrer rejuvenesvce…. Foi tudo que eu soube dizer, ainda confuso com a multiplicação de cadáveres que se operara subitamente.

Só então percebi, com surpresa e uma ponta de horror, que lhe faltava o dedo mínimo da mão direita…

– Pois é, o dedo também cortaram depois… Certamente para arrumar algum… No final, tudo que lhe restou foi o calção…, explicou Robespierre com certo pesar.

“Mas e a puta?” – eu perguntei, tentando retomar o assunto que me trouxera até ao IML em uma tarde de sábado do verão carioca…

– Está aqui! – E Robespierre puxou a gaveta ao lado, dispondo lado a lado os corpos nus do coroa e da puta…

– Belo quadro! A voz metálica de Solimar soou atrás de nós. Ele sorria, mordaz, parado a uma distância prudente. Impossível imaginar alguém mais feio: baixo, franzino, a barriga inchada prenunciando a cirrose, os dedos e os dentes amarelados de cigarro, a cara bexiguenta de areia mijada… “Pena que eu vim sem fotógrafo!”. E completou: “Já descobriram a arma do crime?”.

– Filho da puta… – foi tudo que Robespierre conseguiu dizer, enquanto o sangue lhe subia à cabeça.

– Calma, doutor! Pode ter certeza que, se minha santa mãezinha soubesse o que vinha, teria se poupado naquela noite…

Eu dei um passo adiante e me coloquei entre os dois. Desse modo, fiquei bem em frente aos corpos estendidos sobre as frias gavetas de metal, lado a lado – “Como dois amantes…” A morte dera-lhes uma aparência mais jovem e o acaso e a imaginação de Solimar os unira… Tão confuso me parecia tudo que por alguns longos segundos me senti preso àquelas figuras que me invadiam as retinas para se fixarem no fundo da memória. Posso dizer com toda certeza que jamais esquecerei aquela imagem, tão irreal – ou mais ainda, tão absurda – ela me aparecia naquele instante. De alguma maneira esse súbito estado de concentração involuntária e quase hipnótica impregnou o ambiente provocando um silêncio tenso e inesperado.

“Desculpe…”, pensei ter ouvido Solimar murmurar quase para si mesmo, impressão que me arrancou do transe em que eu mergulhara – mas ao preço de jamais poder afirmar se de fato Solimar disse mesmo o que pensei ouvir ou se foram outras as palavras ou se tudo não passou de um recurso da mente para resgatar-se de volta ao presente.

– Robespierre, eu acho que essa mulher foi assassinada…

– Não! Chega! Por hoje já me basta esse babaca nojento com seu crime da arma misteriosa! Tchau! – E escapou apressado pelo corredor.

Seguiu-se um instante de perplexidade muda.

– Não liga, não, bacana… – Solimar me olhava com uma expressão incrivelmente serena – e sincera… “Segunda ele estará aqui de novo: Robespierre é um Caxias… Além disso, se você tem alguma prova ou indício de que a moça foi mesmo assassinada, melhor procurar a polícia…”

Só então percebi – ou realizei, para usar outro estrangeirismo – que Solimar apoiava-se em um guarda-chuva negro, que ia acumulando um poça d’água no chão. “Começou a chover…”, ele disse. “E eu não sou inglês, mas tenho sempre meu guarda-chuva à mão… Sabe, ele pode ser muito útil…”.

A malícia voltava a se insinuar na voz de Solimar. Eu não desgostava dele, isto é, não nutria, como os outros, desprezo por ele, e sim uma divertida indiferença. Mas a ambigüidade de sua fala ia revelando uma insegurança que eu via, bem diante dos meus olhos, o quanto podia tornar-se perversa.

Em silêncio, empurrei de volta as duas gavetas e saí.

Solimar veio atrás de mim, falando o tempo todo:

– Onde você estava ontem à noite, bacana? Provavelmente em alguma festa se atracando com uma dessas gatas com cara de quem acabou de vomitar que neguinho chama de modelo… Eu ontem dei plantão, malandro… E choveu, sabia? Aqui, não – que Deus é bom com os ricos – senão eles não seriam ricos, concorda? Mas lá pros lados de Jacarepaguá… E eu fui pra lá, meu filho, enquanto você estava por aí, na zona Sul, bebericando seus uísques… Fui lá garimpar os meus presuntos… Mas pra sorte da canalha, o demo ontem estava mais empenhado na perdição dos elegantes e esqueceu a cachorrada… Claro, o tráfico e a polícia fizeram a sua parte, mas nada de extraordinário… E aí, de repente, me pinta esse presunto.. Fresquinho, na beiradinha d’água, sozinho.. Um presente… Só que afogado, bacana, não rende matéria. Ainda mais pra Gazeta… Então, quando eu vi o que era, ali mesmo eu já bolei a matéria e ditei pra redação no celular… Depois foi só chamar o rabecão e correr pro abraço, bacana…

– Qual o problema? Está chocado? Violação de cadáver? Você ainda não viu nada, rapaz… Aliás, você viu, sim – que eu sei… Porque teve um tempo que o horror subiu até ao andar onde vocês vivem e levou teu pai… Não fica puto, não, que isso aqui embaixo acontece todo dia… É comum.. Deve ser treino deles pra se a coisa apertar de novo… É só um cadáver, bacana… E o que conta são os vivos, porque são os vivos que compram jornal… E eles querem histórias – e quanto mais sangue, melhor… Esse aí, por exemplo, meu chapa, vai me dar suíte a semana inteira… E te digo mais: essa gente, bacana, vale mais morta do que viva… Pergunta só ao teu amigo Robespierre que ele não me deixa mentir…

Robespierre, sem o jaleco, na porta, acabara de trancar a sala e fez menção de voltar…

– Não precisa – eu disse, segurando-o pelo braço. Eu já fechei as gavetas.

– Vamos então… Eu te dou uma carona.

Saímos os dois, deixando Solimar para trás.

– Bacana!, ele gritou.

Quando olhei para trás ele fez movimentos rápidos e curtos com o guarda-chuva como se fincasse a ponta dele em alguma coisa no chão…

* * *

Chovia. Robespierre morava na Gávea, mas fez questão de me deixar no Posto 6. No caminho, fui lhe explicando a minha hipótese do assassinato no quarto ao lado. Ele achou tudo muito fantasioso, pois não encontrara indícios que demonstrassem que ela teria sido “aplicada” à força, mas ficou de checar novamente todos os detalhes. Decidi que só então eu procuraria a polícia.

Cheguei em casa já deviam ser quase oito da noite. O alerta vermelho da secretária piscava com sua intermitência algo histérica, obsessiva, regular, irritante. Na verdade, minha secretária estava querendo dizer no seu ‘morse’ particular que havia três recados. Apertei uma tecla que deve equivaler ao bico do seio, provavelmente o esquerdo, pois ela começou a falar. Ela falava em inglês e tinha voz de homem. O primeiro recado não era um recado, mas um breve instante de silêncio onde se podia adivinhar um suspiro diluído no burburinho da rua. O segundo uma amiga de jornal me convidando para uma festa. O terceiro era: “Älska… Te liguei mais cedo, você não estava.. .Cheguei agora, pensei que você estivesse acordado, lendo, escrevendo, sei lá… Te ligo depois, amanhã… Deixei um presentinho pra você… Ainda não achou? Embaixo do telefone…” – e desligou…

“Ela tinha uma voz!” festejava a alma absurda enquanto as mãos tratavam de achar o presente que sem esforço encontraram. Não pude deixar de rir: um baseado!

Imagine se destas páginas subitamente emergisse uma voz que seguiria lendo o texto exatamente daqui e, para melhor efeito, a voz ressoaria em teu cérebro, lá dentro, no lugar desta outra, tão íntima tua, que te lê agora estas linhas. Pois foi assim que me senti quando ouvi a voz de Älska. Claro, óbvio, ela tinha uma voz – mas até aqui eu não pensara nela, não vasculhara a memória em busca de um traço remoto dela… E aí, ela me surge de repente, dada. A vertiginosa sucessão dos fatos dos últimos dias, onde Älska se incluía como um elemento a mais, a presença magnífica de Leka – ainda assim, nos breves intervalos de solidão ou silêncio destes dias, eu interrogava o esquecimento em busca de um rosto – mas nunca de uma voz! E agora, por conta dela, o corpo ganhava volume e quase uma forma: eu a via inteira, os cabelos louros à altura dos ombros, a saia curta de couro negro, uma blusa branca aberta em um decote e amarrada na cintura, umas sandálias altas – a imagem desabou sobre meus olhos, exata, nítida. Mas ainda lhe faltava o rosto. Minto – junto me vieram uns olhos intensamente verdes e foi neles que enfim pude ver onde ancorara a urgência que pressentia na vaga lembrança dela: havia nesses olhos um tácito e orgulhoso pedido de ajuda. “O que posso fazer por você, Älska?”, eu pensava, segurando um longo baseado – de maconha?

Älska me sugeria haxixe…. Porque me lembrava minha temporada em Paris, final de adolescência… Älska era uma menina! Sim, não devia ter mais de 25 anos – Vinte? Fechei em 20… Era minha forma de escapar da maturidade – Paulo implicava comigo, certamente invejoso da juventude dessas moças que ocupavam minha solidão com sua jovialidade egoísta que me impunha o distanciamento adequado que o mesmo Paulo diagnosticava como “medo de compromisso” – com o que eu concordava, apenas argumentando que os compromissos eram evitados pela minha total descrença neles e não por medo exatamente – ainda que o sentisse pulsar, surdo, grave, no fundo da alma toda vez que o amor ameaçava instalar-se…

Fazia tempo que eu não fumava um baseado. Minha droga eletiva era o álcool e com o tempo fui renunciando à ousadia – ou melhor, à bravata. A droga substitui a esperança, portanto, cada um devia buscar o remédio que lhe fosse próprio, aquele que lhe produza o ilusório, mas suficiente, conforto. E ponto. Fazia tempo que eu não fumava um…

Lá fora, começava a trovejar. Quando Deus é bom, chove no sábado ou no domingo, quando ao menos os homens estão em sua casa ao lado dos seus. Fui tomar banho.

“Älska…”

… maconha sempre me deu um torpor, uma languidez que misturava tesão e preguiça. Dormi. Acordei com a chuva. Que horas seriam? Mais de meia-noite, eu calculava, sem olhar o relógio… Acendi a outra metade do baseado. Chovia e o som dos carros cortando o espelho d’água no asfalto parecia o som das ondas do mar batendo na praia…

… eu e Maria, na praia, há dez anos quase, e até as sombras na parede eram como as mãos ávidas de uma palmeira… Maria, como pude lembrar dela – por quê? E então era Nova Iorque no outono, o apartamento dela no Leblon, depois nós dois em Ipanema, a gente na cozinha fazendo arroz de polvo, a gente nadando até ao Arpoador e pensando ter chegado na África, a gente, a gente – enquanto a discórdia, as pequenas traições, a estranheza e a mentira iam lentas tecendo a rede onde finalmente aprisionaramos o amor e quando nos demos conta as malas estavam arrumadas e eu morando aqui quando o telefone tocou…

– Älska…? Eu respondi ao silêncio do outro lado…

– Oi… Estava dormindo?

– Sonhando…

– Gostou do presente?

– Bom… Está em casa?

– Sonhando? Eu hoje tive um pesadelo… Sonhei que um cara enorme, um gigante, me punha na palma da mão dele… Você viu King Kong? E era em um castelo ou uma caverna, as coisas se misturavam, se alternando, entende? – e havia muitas outras mulheres ao redor de uma piscina enorme, como em um harém… Tinha um cheiro forte de incenso no ar… Teus sonhos têm cheiro? Mas aí, o gigante me pegava e me punha na palma da mão dele e me soprava no rosto um hálito quente… Depois, ele abaixava minha calcinha com seu dedo enorme… E começava a me tocar até me colocar montada em seu dedo… Minhas pernas apertadas entre os dedos dele, eu montada, me equilibrando no dedo dele, como se cavalgasse um animal feroz e ao mesmo tempo íntimo… No começo eu senti um medo terrível, terror mesmo… Mas, de repente, eu não tinha mais medo e eu sentia que os meus gemidos começavam a ressoar enormes na cabeça dele e então era como se eu também fosse enorme, do tamanho dele ou maior que ele, e era assim que ele me via… E aí, eu comecei a gozar, gozar, trepada naquele dedo, me esfregando nele feito uma louca… e enquanto eu gozava, mínima e enorme, ao mesmo tempo, com força, em cima dele, ele começou a… Você está aí?

Estava. Excitado – de pau duro mesmo. Sei lá o que me deu, acho que foi a maconha – na verdade, era outra coisa…. – mas eu lembro que me encostei na parede, meu pau numa mão, o telefone na outra, a voz dela sussurrante entrecortada de pausas e espantos, aquilo me dando um tesão…

– Hãhã… Foi tudo que disse, que consegui dizer, do outro lado, para confirmar minha presença.

– Preciso desligar…

– Espera…

E fez-se então a espera… Extensa, de silêncio tenso e expectante.

– Pega na tua buceta… Eu disse – e também me surpreendi com a frase, que no entanto me soou doce e adequada, e só então lembrei ou pensei imaginar seus pentelhos louros, a buceta de um rosa delicado, o cheiro do mel, o perfume – de novo…

De um longo suspiro que era já um sim seguiu-se um “eu não posso…” quase triste.

– Pega…

– Isssss…

– Ahh…

Onomatopéias delirantes, fonemas soltos, dissílabos imperativos ditos com doçura – eis o resumo do diálogo… Fui escorrendo pela parede ao som mais e mais intenso dos gemidos e suspiros dela, eu, um lento caramujo declamando ordens, a glande melada na mão, a baba luzindo branca sob a luz de uma lua que ia já furando as nuvens depois da chuva que se fora como viera, súbita e jorrante, eu, e ela grita do outro lado, quase, e eu penso imaginar que ouço seu gozo ecoando lá fora, despertando a lua… E enfim, fez-se de novo o silêncio, sinal do perplexo apaziguamento que nos atara…

– Preciso desligar…

– Espera…

– Eu tenho de ir embora…

– Por quê?

– Grande Otelo é capaz de vir atrás de mim… E eu não quero ir…

– Quem?

Ela riu…

– Grande Otelo… Mas eu não quero ir. Eu sou uma menina muito má, sabe?

– Não… Espera…

– Eu ligo pra você depois…

E desligou.

Deitado no chão olhando a lua e as primeiras estrelas que ressurgiam no céu lavado de chuva, fui recuperando a consciência, digamos assim, incerto da nítida impressão de que a ouvira como que gozando lá fora, longinquamente…

Tirei a cueca enxugando devagar as mãos, a perna, o ventre… “Idéia absurda…” e me debrucei na janela.

Como sempre àquela hora, umas poucos janelas ainda estavam acesas. Eram como velas. Me pareceu ouvir o barulho anacrônico de uma máquina de escrever… Não era a primeira vez. Deveria ser alguém que escrevia à mão e, de tempos em tempos, registrava à máquina a versão definitiva de seu texto. Os intervalos entre cada uma dessas etapas faziam pensar em um poeta – os períodos entre uma sessão de datilografia e outra eram mais ou menos longos, e as sessões, breves – como se o material fosse curto, mas de gestação demorada. Já o processo fazia pensar em alguém mais velho, que não se acostumara aos computadores. Um velho poeta era vizinho meu, concluíra. Essa intimidade me bastava. Nunca me interessei em saber sequer quem fosse – se famoso ou anônimo, original ou vulgar. Bastava-me a regular obstinação com que urdia sua obra…

Em outra janela, uma sombra se moveu. Era onde morava a loura… A loura!

De repente, me deu um estalo. Älska! Ela era a loura! E os gemidos que ouvi eram de fato dela. Isso – exatamente isso! A gente se conhecera assim, os dois vagando doidos pela rua, a caminho de casa! Agora eu lembrava tudo! Só o rosto ainda parecia coberto por um fino véu de incerteza… Eu precisava vê-la!

Me olhei no espelho do banheiro. Eu ia lá! Ela precisava da minha ajuda! Seu beijo ainda estava gravado no espelho. Fiz meus lábios coincidirem com os dela… “A gente é muito parecido…”.

Me vesti correndo. Os fundos do meu prédio davam para os fundos do prédio de Älska, que portanto ficava na rua paralela à minha. Dei a volta no quarteirão. Esquecera a carteira… E se não tiver porteiro? Não tinha, e eu esquecera a carteira com a gazua… Por sorte um crioulo forte estava entrando. Eu dei dois passos e armei um sorriso gentil e agradecido. Ele educadamente segurou a porta me olhando nos olhos quando passei. Agradeci, mas ele não disse uma palavra. Sinalizei para que tomasse a dianteira. O elevador estava no último andar. O cara não quis esperar e arrancou pelas escadas. Melhor, pensei – eu não sabia direito em qual andar ela morava – quinto, sexto? O elevador era velho, lento, de porta pantográfica – seja lá o que isto quer dizer. Quinto – apostei. Saltei no andar, desorientado. Os fundos, ao fundo – claro. Segui e havia duas portas – seria a da… esquerda. Ainda calculava mentalmente a força com que bateria, mas ao tocar na porta, reparei que ela estava aberta. Entrei, apreensivo.
À luz de um pequeno abajur de seda e franjas posto sobre uma mesa no canto da sala, ao lado de um sofá semicoberto por um pano de cetim vermelho bordado com motivos chineses, uma loura alta parecia me aguardar, de pé, vestindo cinta-ligas e meias, uma calcinha minúscula e um baby-doll meramente ornamental – tudo vermelho…

– Você não tocou o interfone… Havia um ligeiro tremor na sua voz, como se ela estivesse surpresa não com a minha presença, mas com a minha chegada.

– Tinha um cara entrando…

– Ah! Ela se tranquilizou, assumindo uma postura mais segura.

– Fica à vontade… Quer beber alguma coisa? Ela disse andando em direção ao que me pareceu um pequeno bar e parando a meio caminho para me olhar por sobre os ombros, dando, dessa forma, um destaque eficaz ao magnífico rabo que exibia.

– Não… E era inédito eu recusar uma bebida nessas circunstâncias…

Porra! Ela não era Älska! Claro! Que maluquice! Por engano eu entrara no apartamento de uma garota de programa que me confundia com o cliente que esperava.

– Você está nervoso… Relaxa… Ela disse, me enlaçando pelo pescoço e quase me beijando – se o interfone não tocasse escrevendo nos olhos dela dois pontos: um de exclamação outro de interrogação.

– É o seu cliente… Desculpe… E fui saindo.

Ela sorriu amistosa, se recompondo.

– Pode subir… Ela disse ao interfone e depois me olhou com um ar lânguido, como se tivéssemos tido uma noite das Arábias. “Volte outro dia…”.

Então era no sexto. Subi pelas escadas. Quando cheguei no andar, o negão que eu encontrara na portaria segurava a porta do elevador para uma loura entrar.

– Älska! – gritei.

Ela olhou para trás e eu pude finalmente vê-la! – e recordar seu rosto, preenchendo enfim a lacuna que faltava… Ela fez menção de voltar, mas o crioulo a impediu, forçando-a a entrar no elevador. Grande Otelo! Eu devia ter me dado conta quando cruzamos na portaria… Ainda tentei abrir a porta, mas o elevador já se trancara… Desci correndo as escadas. No meio do caminho, as luzes se apagaram, me fazendo perder um momento interminável… Quando cheguei eles estavam saindo, mas, ao me adiantar saltando os últimos degraus da escada para o corredor, um sujeito que esperava o elevador – certamente o cliente da garota de programa – abriu bruscamente a porta do elevador, cortando meu caminho – e eu dei com a cara na porta e caí para trás. Era um sujeito magro e alto, muito branco e de olheiras profundas. Ele deixou que a porta se fechasse e se inclinou para me ajudar.

– Desculpe, desculpe… Eu não tive a intenção.. Você se machucou? Desculpe…

Eu me levantei o mais rápido que pude e o empurrei.

– Não foi nada – Eu disse e corri para a porta do prédio. Só tive tempo de ver um carro negro partindo em disparada.

* * *

Desorientado, voltei ao apartamento de Älska. A porta estava fechada, eu estava sem a gazua. Em outro insight súbito, levantei o capacho aos pés da porta. “A gente é muito parecido…”, eu ri – lá estava a chave…

Entrei. Passei a mão pela parede ao lado da porta e achei o interruptor. A mobília escassa e impessoal fazia pensar em um apartamento alugado por temporada. A desordem das roupas largadas ao acaso reforçava o caráter provisório daquele lugar, da própria vida de Älska.

No quarto, a situação era pior e não havia meio de se caminhar sem pisar em alguma coisa. Imaginei o que seria a cozinha… Sobre o criado-mudo havia um livro, talvez o único em toda a casa. Estava com a capa virada para baixo – era uma edição francesa de “Uma estadia no Inferno”, de Rimbaud. Ri. “A gente é muito parecido mesmo…”. Abri com carinho o livro, folheando-o.

“Jadis, si je me souviens bien, ma vie était un festin où s’ouvraient tous les couers, où tous les vins coulaient. Un soir, j’assis la Beauté sur mês genoux. – E je l’ai trouvée amère. – E je l’ai injuriée.”

Ela marcara os versos da abertura com um círculo e o reforçara com asteriscos.

Do livro caiu uma foto. Vista do chão, mostrava um casal sentado em uma varanda aberta para o mar, com barcos ao fundo. A mulher era loura e o homem de cabelos grisalhos… “Ela gosta de coroas…”, pensei com amargura – me sentindo reduzido a uma espécie de tara. Mas não era ela na foto. E eu quase caí, sentindo minhas pernas perdendo as forças, quando reconheci os dois personagens da foto: eram eles, a puta do Palace e o afogado da arma misteriosa!

Meu coração disparou e eu fiquei gelado de repente… Eu olhava e não conseguia acreditar no que via. Mas eram os dois, sim. Só que não fazia sentido. O menor sentido… Deixei o corpo cair sobre a cama e senti vontade de chorar: uma profunda sensação de desamparo me invadira, me oprimindo o peito… Eu não conseguia pensar e lembro que apenas repetia mentalmente como um mantra: “O que significa isso?”, “O que significa isso?”, “O que significa isso?”.

Eu precisava fugir dali. Coloquei a foto no bolso, fechei a porta coloquei a chave de volta embaixo do capacho e nem tive coragem de descer pelo elevador – cautelosamente, fui descendo as escadas devagar, ganhando tempo para me recompor.

Voltei para casa. E agora?

Puxei a foto do bolso. Na minha cabeça atormentada e confusa a imagem da foto se alternava com o imagem fixada em minha memória dos dois cadáveres expostos lado a lado que eu vira no IML havia poucas horas… Aos rostos risonhos da fotografia logo vinha se sobrepor a expressão plácida dos cadáveres numa sucessão tão rápida que beirava o delírio.

A custo consegui me concentrar na fotografia. Ela fora tirada em uma marina, pois havia barcos ao fundo. Mas, comparando os cortes de cabelo e a idade presumida dos personagens e dos cadáveres, ela parecia ter sido tirada há pouco tempo, quem sabe um ano, um ano e meio… Supondo que ela fora batida por Älska, era de se admitir que eles seriam parentes, provavelmente pai e mãe dela… Ela parecia muito com a mulher e lembrava um pouco o homem.. Seu pai e sua mãe… E agora estavam ambos mortos… Sendo assim, ela certamente corria perigo de vida e podia até já estar morta…

Meu Deus! E quem seria afinal Grande Otelo? Teria ele aparecido para protegê-la ou para matá-la? Mas não havia dúvida que ele estava envolvido na trama, isto é, ele não estava ali por acaso – como aquele maldito idiota que me derrubara ao abrir a porta do elevador na minha cara…

O que ela dissera exatamente de Grande Otelo no telefone..? Eu lembrava do nome por motivos óbvios, mas o importante seria lembrar o contexto exato em que ela o mencionara… Merda! Eu tinha quase certeza que ela se referira a ele com carinho ou quase, como quem fala de alguém conhecido que, por um momento, se encontra do lado oposto ao nosso, mas que, nem por isso, deixa de contar com a nossa estima… Ele então a estaria levando para algum lugar… Mas, para onde? De qualquer modo, era claro que ela ainda não sabia do destino dos dois…

* * *

Eu precisava de alguém para pensar comigo… Liguei para Paulo, mas o telefone estava na secretária. Leka! Ela atendeu com voz de sono. Expliquei a história e ela apenas balbuciou “Vem pra cá então…” antes de desligar. Não pensei duas vezes: chamei um táxi e fui. Leka mora na Urca, em um apartamento enorme que a avó lhe deixara. Cheguei e o porteiro já estava instruído para me deixar subir e avisar que a porta estaria aberta. Entrei e fui caminhando até o quarto com a cautela que a penumbra sempre inspira . Não sei por quê, mas entro sempre no quarto alheio no mesmo estado de contrição com que os fiéis entram em suas igrejas… “Senta…”, ela disse, sem abrir os olhos…

Sentei e, sem a menor cerimônia, fiz uma rápida exposição do que encontrara e onde – “Cachorro…” – e comecei a finalmente verbalizar, do modo mais claro e pausado que minha ansiedade permitia, as minhas conjecturas…

Pois, se aqueles eram os pais de Älska, então, de fato, o que ocorrera no hotel fora um assassinato muito bem planejado. Portanto, aquela mulher não era definitivamente uma puta… E o coroa também teria sido assassinado, provavelmente atirado no mar – claro! – de algum barco! Mas quem seriam eles, afinal? Certamente, gente ligada ao crime organizado – barcos, hotéis de luxo, falsas identidades – nada disso se enquadrava no perfil dos criminosos que eram o assunto da Gazeta…

– Deixa eu ver a foto…

Tirei a foto do bolso e a atirei para Leka sem parar de falar… Porque estava cada vez mais claro para mim que Älska corria perigo mesmo e já poderia até estar morta…

– Porra! Leka gritou e se pôs sentada na cama de um salto. “Você sabe quem é este cara?”

– Como assim?

– Jorge Olsen! Jorge Olsen, o dono do Palace! Lembra? Nós o vimos chegando ontem de tarde!

– Não é possível! Esse cara é o afogado que eu vi no IML logo depois…

– Eu tenho certeza! Certeza absoluta…

As coisas estavam piorando… Peguei de novo a foto. Eu podia estar enganado, afinal. Era perfeitamente possível que eu estivesse vendo semelhanças inexistentes entre o rosto meio inchado de um afogado e o sujeito da foto apenas porque ele estava ao lado – disso não havia dúvida! – da puta que não era puta e morrera no hotel do – então – verdadeiro sujeito da foto, mas que assim se tornava o principal suspeito de ser o mandante do assassinato de que ainda não havia senão indícios…

Foi então que reparei no anel!

– Me dá uma lupa!

Leka levantou-se, vestiu um roupão de seda e eu a segui até o escritório. Eu não tinha reparado ainda no anel, meio encoberto pelos dedos entrelaçados dos dois. Mas, se a atenção redobrada pela lembrança já permitira vislumbrá-lo, a lupa confirmou em definitivo sua presença… Ele, exatamente como o morto, também usava um anel no dedo mínimo direito… Não era muito, mas era tudo que eu tinha para ligar os dois…

Mas se nós víramos Jorge Olsen entrando no hotel na tarde de ontem, logo ele não poderia ser o afogado. Ao mesmo tempo, era difícil aceitar como mera coincidência a semelhança entre os dois… Ainda mais que havia a puta morta no Palace que os unia de algum modo… E cuja proximidade com Olsen, explícita na foto, parecia confirmar minha hipótese – e a de Leka – de que ela não era puta e nem morrera acidentalmente no hotel, mas fora assassinada. E aí, Olsen seria o principal suspeito – se, de certa maneira, já não estivesse um pouco morto… É fácil imaginar a confusão em que eu me encontrava…

– Já sei! Leka gritou. Alguém matou Olsen e o substituiu por outro cara…

– Absurdo…

– Você esquece que estamos no Brasil… Vai ver pegaram alguém parecido e o “esculpiram” com plásticas…

– Duvido… As pessoas perceberiam…

Leka caiu numa gargalhada inesperada.

– Está se vendo que você não conhece essa gente… Eles vivem mudando de cara o tempo todo! Pintando, cortando, esticando, acrescentando… É infernal! Você conhece a história do “rei está nu”, não conhece? É a mesma coisa… Jorge é rico demais, poderoso demais e excêntrico o bastante para ninguém perceber que ele mudou de cara… Mesmo se ele virasse crioulo de repente. Entende o que eu quero dizer?

Eu ri, mas era plausível. É meramente lógico que não haja palavras para expressar com precisão o vazio mental daquilo que se convencionou chamar – até por ironia – de “elite” brasileira e da classe média que lhe gira em torno… A hipótese de Leka – digno enredo para uma novela das oito – estava, no entanto, à altura do país.

Assim teríamos um falso Jorge Olsen rodando por aí, enquanto o cadáver do verdadeiro – e de alguém muito próxima a ele a ponto de ser também assassinada – jazia na morgue do IML à espera de ser enterrado como indigente…

Quanto às causas, Leka suspeitava que ele estivesse envolvido em algum esquema “pesado” de tráfico de armas, drogas e lavagem de dinheiro “sujo”.

Claro, tudo soava absurdo e folhetinesco, mas ao menos agora nós tínhamos uma história. Podíamos enfim partir para a ação.

O que fazer?

Eu precisava salvar Älska. Mas onde ela estaria a esta hora? O mais provável é que estivesse na casa de Olsen. Leka sabia que ele morava numa mansão no Alto da Boa Vista, mas era só. Recorri ao óbvio: “Você tem um catálogo de telefones?”. Foi fácil. A família não era grande e só havia um Olsen no Alto da Boa Vista. Combinamos o velho esquema dos seriados de TV: eu iria até lá enquanto Leka ficaria em casa, tentando localizar Paulo que se encarregaria de achar Robespierre e a delegada Beth Esteves para checar nossa hipótese. E, se eu não ligasse de volta em duas horas, ela acionaria a polícia e aí seria o que Deus quisesse…

Pedi um táxi – que não demorou a chegar. No caminho, relaxei: só na porta da mansão decidiria se entraria furtivamente ou se tentaria uma “abordagem direta”… Fiz o trajeto todo tempo calado. Não pensava mais – ao contrário, procurava esvaziar minha mente e não pensar em nada: sabia que eu também poderia estar indo ao encontro da morte, da minha morte. Não a que nos alcança numa cama de hospital ao fim de uma vida inteira, mas a outra, aquela, sempiterna, que é a face quase oculta de cada ato nosso onde nos arriscamos, por fé, amor ou esperança, além dos limites do meramente provável.

Diante do portão de ferro batido da mansão – único intervalo entre os muros altíssimos que se estendiam quase a perder de vista à direita e à esquerda – enquanto pagava ao taxista, pedi que ele olhasse bem para a minha cara e guardasse meu nome e o endereço em que me deixava… “E agora, se manda, cara… E me deseje boa sorte.” E foi o que li no perplexo sorriso que ele me mandou de volta, antes de sumir nas curvas da estrada do Alto.

Era evidente que não haveria meio de penetrar furtivamente. Inexpugnável, o portão apenas concedia a vista da mansão grandiosa e imponente, envolta em luz empalidecida pela distância. Enfim, tocar a campainha do interfone foi uma confissão de resignada impotência. Pensei em responder com palavras ameaçadoras à voz que me argüisse do outro lado, mas tudo que ouvi foi um curto estalo que abriu o portão para a minha entrada. Ainda vacilei um instante antes de aceitar o que me soava agora como um desafio. Entrei – e automaticamente o portão se fechou, barrando qualquer possibilidade de arrependimento. Sem alternativa, caminhei lentamente em direção à mansão.

À medida que me aproximava, fui percebendo que ela era ainda maior do que parecia quando vista de fora. “Tara”, pensei, como quem recorda um pesadelo que ganha vida sob a forma de uma sensação de déjà vu: eu caminhava sob o signo da fatalidade, o coração em disparada, as mãos frias e trêmulas, mas resoluto como se soubesse aonde ir, ouvindo ressoar na noite silenciosa as folhas secas que ia esmagando sob meus pés.

Subi a pequena escadaria e avancei pelas colunas do pórtico até à imensa porta de entrada. Como esperava, a encontrei aberta. Entrei em um grande vestíbulo iluminado e deserto que se abria em várias direções, dando caminho para o que eu supunha serem salas e que, ao fundo, no centro, era dominado por uma enorme escada que a partir de um patamar mais alto se estendia para os dois lados, em forma de ipsilon.

Vacilei indeciso sobre que rumo tomar. Enfim, vi o vulto de uma mulher à esquerda que saindo de uma sala lateral, perdeu-se na penumbra que quase ocultava uma entrada no fundo. Segui-a. Dei em um enorme piscina coberta por um teto envidraçado de pé direito altíssimo sustentado por colunas e ainda pude ver a jovem mergulhar nua nas águas azuis e nadar elegantemente para o outro lado onde outras estavam reunidas em enormes almofadas e espreguiçadeiras… Uma espécie de varanda a meio caminho entre o chão e o teto dominava o ambiente, acessível por duas escadas laterais espiraladas . Em seguida, havia o que presumi ser uma grande sala iluminada. Subi e ninguém parecia se dar conta da minha presença. Eu me sentia como um fantasma inofensivo e essa indiferença era aterradora.

Não havia ninguém na varanda e nem na sala, fechada por enormes vidraças. Entrei. Havia um american bar de um lado e um porta do outro que, presumi, conduziria de volta à área social da mansão. Em frente, havia uma entrada fechada por grossas cortinas de veludo azul. Pensei ouvir o rumor de vozes vindas de lá. Pareciam falar em inglês. Tentei entender o que diziam – eu falo bem inglês – mas na distância não consegui distinguir nada além de uma voz feminina e uma – ou duas? – vozes masculinas… De repente, ouvi um grito e atravessei as cortinas sem pensar!

Senti-me momentaneamente cego, os olhos feridos pelo violento contraste entre a escuridão da sala e intensa luz branca e móvel do fundo. Era um cinema! Uma sala de uns duzentos lugares – vazia. Não! No meio da primeira fila vi a cabeleira grisalha de Olsen – ou do suposto Olsen – que, absorto, não parecia sequer ter notado a minha chegada. Não havia sinal de Älska. Estávamos os dois sozinhos e na tela se sucediam cenas de velhos clássicos em preto e branco intercaladas por outras mais modernas, coloridas… Por instantes, me senti paralisado – não pelo medo, mas pelo pudor infantil de interromper a sessão… Aproximei-me quase reverente.

– Olsen?

Ele me olhou e num gesto cúmplice levou o indicador aos lábios me pedindo silêncio. Ainda imerso em estupor, murmurei: “Onde está Älska?”.

– Ela está te esperando… Sente-se… já está acabando…

As imagens se sucediam na tela: velhos westerns, musicais, suspense, guerra, amor, artes marciais, Ava Gardner, Mel Gibson, Bruce Lee, Marilyn Monroe, Bogart, numa sequência que se alternava, ora vertiginosa, ora se alongando por toda uma cena tornada imortal… Vi Glória Swanson descendo as escadarias na cena final de “Sunset Boulevard”, vi Marlon Brando grudando um chiclete no parapeito da casa de Maria Schneider antes de morrer, vi enormes explosões, beijos, tiros, socos…

– Dizem que é assim que acontece quando um homem está prestes a morrer… Olsen comentou sem tirar os olhos da tela – e, àquela altura, o comentário me soava como um mal presságio.

– E, afinal, meu caro, o que é a vida de um homem senão um montagem desconexa de cenas que não chegam sequer a constituir uma história, mas que talvez acabem, sim, por criar aquilo que os crentes chamam de alma e que, por um preconceito teológico, pensam estar lá no começo, anterior a tudo, mas que estaria então no fim: “eis o que sou”, deve pensar o moribundo – e o que lhe vem não é uma sucessão coerente de fatos, mas um conjunto de intensidades ambíguas e quase simultâneas que se traduziriam melhor em luz do que em palavras…

Você já fumou ópio? Claro que sim, se esteve com Älska o tempo suficiente… É por isso que é tão bom – porque nos aproxima do que um dia será o fim… Uma simulação miraculosa do que é de fato morrer… É do ópio que é feita a heroína… Você sabe por que ela tem esse nome? Porque na Primeira Guerra, quando ainda não havia anestésicos nem pára-quedas, e pela primeira vez se experimentaram técnicas mais letais de assassinato em massa, a heroína era a única fórmula capaz de abreviar a dor dos mutilados… Era como receber a visita da Virgem Maria no leito de morte… Não era Marx quem dizia que o homem não se cria problemas que não possa resolver? Pois, inversamente também se pode dizer que a cada vez que produzimos uma solução, criamos imediatamente a possibilidade de um problema ainda mais intenso… A heroína, quem pode afirmá-lo, enfim, abriu a perspectiva de uma angústia até então impensada ao oferecer, em seu delírio, uma possibilidade de alívio.. Podíamos ir mais longe na dor agora.. E não só do corpo, mas também da alma… Aliás, nestes estados, quem pode dizer onde começa um e acaba o outro?

E, afinal, é o que temos: quanto melhor a droga, maior o vazio… E aí, maior a quantidade de droga necessária para dar conta dele? Não sei… Mas nenhum comerciante precisa de um fundamento metafísico para entrar em um bom negócio… E a droga é um bom negócio… Você dirá: então o vazio é um falso problema? Isso não é um problema nosso, meu caro… Ou melhor, deles – pois eu sou um mero intermediário entre dois mundos. Uma figura mercurial, digamos assim. Um veículo… Eu ofereço a fachada, o álibi, a condição necessária que permite que todo o dinheiro que corre nesse submundo obscuro ganhe de novo a luz… Um comerciante e um financista, enfim, na melhor tradição de minha família. São cinco gerações já, construindo esta cidade e este país… Dor, ilusão e falta – foram sempre os nossos produtos, meu caro…

Ele falava sem tirar os olhos da tela, siderado pelas imagens e por seu próprio discurso. Quando finalmente me encarou – o que nele não era uma forma de consideração, mas uma ênfase – pude ver que seus olhos pareciam flutuar em duas poças vermelhas… Ele estava completamente doidão, mas falava como se fosse o verdadeiro Olsen!

– Quem é você, afinal? E onde está Älska?

– Quem sou eu? melhor seria perguntar quem eu deveria ser a esta hora se o acaso não tivesse conspirado contra mim e transformado o que seria um crime perfeito em uma ópera-bufa… Você quer Älska? Você a terá, meu caro – para sempre…

Olsen – que naquele instante eu ainda não sabia com certeza ser ele mesmo e não um outro – levantou-se exaltado e acenou para a cabine:

– Grande Otelo!

As luzes imediatamente se acenderam, mas a projeção continuou. O negão e Älska surgiram do fundo da sala.

– Ei-la! É sua!

Älska soltou-se de Grande Otelo e correu para mim, refugiando-se em meus braços – certamente o lugar menos seguro àquela altura do campeonato…

– Essa putinha é um dos elementos desse acaso conspiratório que pôs tudo a perder…

– Onde está minha mãe?

Olsen começou a rir.

– Sua mãe? Você se refere ao corpo ou a alma, meu anjo? Porque só a morte parece dar conta dessa questão… Enfim, se você se refere ao corpo, provavelmente ele ainda se encontra no Instituto Médico Legal, de onde deve ser resgatado hoje para enfim retornar ao pó de onde veio.. Se você se refere à alma, isso é ainda hoje motivo de especulação filosófica…

– Você a matou…

– Sim. Mandei matar – numa encenação cara e brilhante que foi uma espécie de última homenagem àquela filha da puta que ameaçou estragar meus planos por sua causa – minha filha…

– Eu não sou… Älska balbuciou, mas não teve tempo de completar.

– É… Minha filha. Minha filha com a puta da sua mãe – que morreu por causa do filho meu que você carrega nessa barriga… Trágica sucessão de enjeitados essa nossa… Erro sobre erro constituindo uma dinastia de desgraçados…

– Por quê? Por quê? – Älska o interrogava, paralisada.

– Eu mesmo não saberia te dizer… Talvez porque nada que venha de nós, minha filha, pode ser simples… Você tinha que contar para a sua mãe, não? Não se contentou em simplesmente guardar silêncio e corrigir o erro com uma pequena cirurgia… Tinha de afrontá-la, de mostrar a ela que finalmente a suplantara, tomando para si o que ela julgava dela… Putinha… Resultado: foi tudo por água abaixo…

“Você não está entendendo nada, não é?” – Olsen olhava para mim sorrindo. E completou, depois de uma longa pausa: “Acho que você tem o direito de saber…”.

– Há dez anos, uma série de negócios mal feitos colocaram-me à beira da falência. Foi quando me aproximei deles… O melhor negócio do mundo: literalmente se transforma merda em ouro… Folhas que uns índios miseráveis plantam e colhem para mascar e mitigar a fome se transformam, por meio de processos químicos extremamente baratos, em cocaína… Mais recentemente, descobriu-se que também as papoulas que produzem ópio e heroína podem ser plantadas lá… Mas isto ainda é quase um segredo… Enfim, eu um aristocrata tropical de quatro gerações tornei-me – com muito gosto – a melhor fachada que eles poderiam encontrar neste país, ideal intermediário entre o produtor e consumidor final. Eu tinha tudo: nome, empresas, um banco, relações e uma disposição enorme para corromper. Porque, de fato, fora sempre esta a especialidade de nossa família… A corrupção é um dos prazeres mais intensos. Corromper e ser corrompido, criar as suas próprias regras e fazê-las o quanto mais absurdas melhor. Arbitrárias, caprichosas. O prazer de ganhar um dinheiro imerecido, de roubar, sem nenhum esforço físico…
Não vou entediá-lo com detalhes. Nem há tempo para isto… Direi apenas que depois de dez anos, como sempre, ousei demais e precisava sumir. Na verdade, sempre alimentei em segredo esse desejo: o de tornar-me outro. Era, por assim dizer, o último limite do concebível. Ao longo dos últimos anos, criei para mim uma outra identidade. Acumulei fortuna lá fora em nome desse outro, pouco a pouco me livrando de tudo que era meu… Tudo isto que você vê nada mais é hoje que dívidas prestes a serem liquidadas… Pouco importa: todo esse dinheiro já está em lugar seguro.

Nisso muito me ajudou a mãe de Älska… Laura foi – como direi? – minha escrava… Escrava, sim. Sempre pronta a atender a todos os meus desejos, mantida por mim à margem da minha vida durante longos 25 anos. A conheci jovem ainda e fiz dela o que quis: uma mulher submissa e dependente, mas extremamente fiel e confiável. Pois ela era muito inteligente… A verdadeira inteligência, meu caro, é uma forma de fraqueza. Por isso é sempre mais fácil corromper os que a possuem, pois neles habita uma melancolia que é uma forma culpada de ceticismo. A submissão a mim tornou-se para ela um modo de vida, uma razão de ser. Errei ao permitir que ela tivesse Älska – porque, confesso, tive medo de perdê-la – abortos eram operações mais complexas naquele tempo… Mas a menina nunca me deu trabalho. Foi criada em colégios internos aqui e no exterior e só a víamos nas férias. Digo: a mãe, pois eu pouco me interessei por ela: eu tinha minha vida de grande empresário, casei-me três vezes nesses anos, tive filhos legítimos – cumpri o que as colunas sociais e a hipocrisia burguesa esperavam de mim. Era parte dos negócios…

Enfim, para encurtar a história, a idéia de matar-me e ressucitar com outro nome, outra vida, começou a ganhar corpo, digamos assim… Não sei de onde me veio isso. Um delírio, talvez, reforçado pelo vício… A verdade é que numa das nossas fazendas havia um débil mental, tido como filho bastardo de meu pai, que era a minha cara… Sempre imaginei que ele era de fato um irmão gêmeo meu que nasceu, mas que teria morrido cedo… Digo isto porque minha mãe se suicidou logo depois da morte desse menino – de desgosto, segundo consta da história da família, pois eu era muito criança para lembrar… Atormentada, suspeito eu hoje, pela separação forçada de um filho que meu pai não podia suportar que fosse imperfeito…

Enfim, quando o descobri, depois da morte de meu pai, vivendo de uma pequena pensão vitalícia que me vi obrigado a pagar por cláusulas de testamento, comecei a tecer essa possibilidade bastante plausível. Sempre interroguei a mulher que se fazia passar por mãe do sujeito, mas dela não consegui nunca uma palavra de explicação. Decidi manter o segredo, e com o tempo a idéia foi crescendo em mim: por que não usar aquele outro corpo – que de certo modo era também eu – meu duplo univitelino, afinal – para cumprir os desígnios da minha vontade de me tornar outro? Obscura vingança contra meu nome e uma vitória sobre o destino que ele acarretava – era o que eu pensava em segredo… Fui então lentamente cultivando aquele outro corpo como se fora eu mesmo até torná-lo uma cópia quase exata de mim… Um dia decidi que ele estava pronto. Eu iria matá-lo fazendo-o passar por mim e me transferiria para Hong Kong… Estava tudo certo. Mandei Laura viajar para lá e acertar os últimos detalhes… Foi quando Älska chegou.

Fazia cinco anos que eu não a via e na idade dela isso faz uma diferença enorme… Como você pôde ver ao chegar aqui, tenho uma natureza pervertida e luxuriosa, com um fraco especial por mulheres jovens… Älska por sua vez herdou a mesma natureza da mãe… Não a iniciei nas drogas e muito menos no sexo, mas digamos que me aproveitei dessa natureza para intensificá-la ao extremo. Ela me lembrava a mãe – e portanto minha juventude – e o tabu do incesto me excitava ainda mais… Também ela urdia suas secretas vinganças contra a mãe, imagino… Não contávamos que ela engravidasse e, sobretudo, que resolvesse fugir de casa deixando uma carta em que contava tudo que ocorrera entre nós… Estávamos às vésperas do plano tramado cuidadosamente. Meu irmão ou meio-irmão – pouco importa – já estava aqui e a velha que cuidava dele, eliminada. Não podíamos voltar atrás nem nos arriscar a adiar o plano. Laura no entanto ameaçou colocar tudo a perder, histericamente tomada pelo rancor, duplamente ferida na sua condição de mulher e de mãe… Não tive então outra alternativa senão matá-la. Não foi difícil. Nós a sonamos com uma droga imperceptível e forjamos a overdose de cocaína naquele monumento nacional que é o Palace. O que pode siginificar a vida de uma puta quando está em jogo o destino do mais famoso hotel do país, não é verdade? O alemão que nos serviu de fachada é obviamente um dos nossos – a esta altura melhor seria dizer, “dos meus”, visto que o plano envolvia a traição a um grupo onde essas coisas são punidas com a morte.

No dia seguinte, demos proseguimento ao plano. A idéia era “matar-me” em minha ilha em Angra, mas o débil mental teve um acesso de pânico quando se viu em alto mar em meio a uma pequena tempestade e num gesto de furioso desespero se atirou ao mar… Literalmente, tudo foi por água abaixo…

Amanhã mesmo iremos resgatar o corpo no IML, pois será uma infelicidade muito grande se descobrirem que as impressões digitais dele são as minhas… Enfim, toda a possibilidade de uma solução pacífica se perdeu. Agora será a guerra. Meus amigos de Hong Kong já se envolveram demais nesta história para, digamos asism, me perderem para meus antigos sócios… Será a guerra. Uma guerra silenciosa e sanguinária… E vocês, meus caros, serão as primeiras vítimas… Älska porque é a culpada disso tudo e uma lembrança incômoda. Você por ter se tornado a testemunha involuntária desta história sórdida e trágica… Eu, que pensava ser a própria encarnação do Mal, da Razão pura e objetiva, fui traído primeiro pela paixão, depois pela loucura… Ironias de um destino desde antes de mim marcado pelo erro e pela tragédia. Que assim seja…

– Grande Otelo! Mate os dois…

O negão, que se postara todo o tempo a uma distância segura de nós, barrando-nos todo a possibilidade de fuga como um anjo negro e previdente, não hesitou: calmamente puxou da pistola que carregava sob o casaco.

– Já era mesmo hora de trocar esse carpete…, disse Olsen olhando para nós… “Não quero perder a cena final”.

Älska se abraçou a mim e eu a estreitei ainda mais, sentindo com tristeza o cheiro e a maciez dos cabelos dela em meu rosto. “Desdêmona”, pensei, “Mais uma vez Iago venceu…”. O negão levantara a arma sem pressa e a apontava para nós. Estranhamente tudo parecia transcorrer de um modo muito natural e espontâneo como uma encenação um tanto improvisada. Súbito, Grande Otelo faz um movimento brusco e preciso – e dispara o gatilho duas vezes em seqüência. Senti o som ressoando em meus ouvidos e instintivamente semicerrei os olhos…

Os tiros estouram a cabeça de Olsen e seus miolos voaram pelos ares. Ele foi jogado para o lado e depois desabou nas pernas, se esparramando no chão.

O negão baixou a pistola lentamente…

– Esse filho da puta merecia mesmo morrer…

Nem tivemos tempo de agradecer. Grande Otelo guardou a pistola e saiu, rápido como os bons profissionais do ramo. Antes de atravessar a cortina parou e olhando para nós disse:

– Te cuida, menina…

E sumiu.

Mal pude suspirar aliviado. Senti alguma coisa pingando em meu sapato e quando olhei ele estava manchado de vermelho. Instintivamente recuei e percebi que o sangue escorria por entre as pernas de Älska… Ela chorava copiosamente e de repente desfaleceu em meus braços. Ela estava abortando! Desesperado, a tomei no colo e corri para fora. Não havia mais ninguém na piscina – todas as meninas tinham sumido. A custo desci com ela pelas escadas, refazendo o caminho de volta para fora da mansão. Quando cheguei na porta, dei de cara com a delegada Beth Esteves e mais um bando de policiais civis e militares.

– Ela precisa de um médico, gritei.

Beth me olhava com um espanto que não pensava poder encontrar nos olhos de um policial – ela é um boa pessoa…

– Tem um morto lá dentro… E saí com Älska em direção ao portão.

– Tem uma ambulância lá fora, ela gritou.

De fato, quando cheguei na estrada, um grupo de paramédicos de uma ambulância do Corpo de Bombeiros recolheu prontamente Älska dos meus braços e a dispôs em uma maca, partindo rapidamente para o hospital. Não fiz sequer menção de ir junto. Apenas me deixei ficar lá parado, os braços caídos, os braços manchadas de sangue…

Vi Leka saltar de seu carro e se aproximar… Seu andar era triste. Ela me pegou pela mão e me levou para o carro – e é tudo que me lembro…

* * *

Quando acordei na cama de Leka ainda era noite… Custei um pouco a me dar conta que já era noite: eu dormira umas doze horas seguidas – ou pelo menos era essa a minha impressão… Leka escurecera o quarto fechando as cortinas, ligara o ar condicionado e me cobrira com uma manta acolchoada de plumas, levíssima e quente. Na verdade, a noção do tempo não me era dada por nenhum indício exterior: era meu corpo quem o dizia, docemente contraído pelas horas presumidas de um sono exausto. Imóvel, fui juntando as lembranças com a indiferença de quem tenta recordar um sonho… Quando enfim reconstituí toda a história e ela adquiriu o peso irremediável de fatos vividos, senti medo de me declarar desperto e me devolver à realidade imprecisa que restava… “Onde estaria Älska?”… “E Grande Otelo – escapara?”… “Olsen estava morto, mas e os outros cadáveres?”…

– Leka!, gritei – ou quis gritar, pois a voz me saíra baixa e lamentosa como a de um menino enfermo que desperta de sua febre… Minha boca estava seca.

Ela certamente não me ouvira, mas pouco depois me espreitou da porta. Chamei de novo “Leka” – e desta vez era a voz de um homem que falava…

– Oi…
Ela sentou-se ao meu lado na cama e me acariciou os cabelos, afetuosa… Dei um longo suspiro e olhei com uns olhos carregados de dúvida…

– Ela perdeu a criança… Mas está bem… Um aborto espontâneo…
Fez uma pausa – e como minhas sobrancelhas permanecessem suspensas me contraindo a testa, continuou, sem deixar de me afagar os cabelos: “Eu a peguei no hospital e trouxe pra cá… A coitadinha não tinha pra onde ir… Está dormindo agora lá no outro quarto.. Os médicos recomendaram repouso e receitaram uns remédios…”

Depois, me olhou com uma expressão de ironia e fingida censura: “Papa-anjo…”

Eu ri…

– Até parece que você é uma velha…

– A polícia está te procurando… Falei com a Beth. Ela sabe que você está aqui, mas combinamos de deixar você dormir…

Ia dizer “muito obrigado” quando me ocorreu algo tão terrível que foi quase com rancor que rosnei “Idiotas!” e corri para o telefone. Leka veio atrás de mim, bufando de raiva! Tão indignada estava que não disse uma palavra. Enquanto ligava para a delegada, peguei na mão dela e beijei, aninhando-a depois em meu rosto:

– Me perdoa?

Ela riu…

– Fui horrível, mas você já vai entender…

Beth atendeu e contei a ela, quase atropelando as palavras, a história dos cadáveres. Era mais do que urgente contatar o IML para impedir… Bem, foi inútil. Umas duas horas depois, Beth nos ligou de volta contando que os cadáveres haviam sido resgatados pelos familiares das vítimas. Se minha história fosse mesmo verdadeira – e eu sabia que era – seria certamente impossível reencontrá-los. De qualquer modo, ela iria requisitar a localização deles, seguida de exumação, etc. Duvido que consigam… Quanto a Olsen… Ele entrou para o grande arquivo nacional das histórias sabidas, mas não contadas. A versão de todos os jornais foi de assalto seguido de homicídio – e eu achei mais prudente manter o silêncio – seria inútil insistir em uma história que todos queriam esquecer – sobretudo a menina que agora dormia no quarto ao lado, prestes a despertar de um pesadelo…