o escafandrista e a bailarina

Além de O Escafandrista e a Bailarina, escrevi também Hitler e Buñuel.

As duas peças – ou texto teatrais, como prefiro chamá-los para ressaltar uma autonomia literária que pretende prescindir da encenação e se sustentar também como leitura – estão impregnadas do espírito surrealista de Esperando Godot, O Rinoceronte, O Balcão, O Imperador da Assíria – peças que li de uma coleção da Abril dedicada ao teatro e que me marcaram muito. O teatro sempre me atraiu mais do que o cinema, certamente por conta da minha inusitada experiência como figurante no balé da Ucrânia. Uma timidez imprevista cortou essa via e é talvez a principal razão de eu tentar obstinadamente escrever. A literatura é a mais solitária e independente das artes. Na sua forma mais simples basta papel, lápis e silêncio…

* * *

“O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina.
Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”.
Antonio Maria

Imagine um palco.

Imagine agora que você está sentado na platéia e, por um motivo qualquer e desconhecido, você está só – e isso o tranqüiliza mais do que oprime, porque o vazio o acolhe e o que você verá será tão secreto quanto um sonho e não lhe exigirá opinião nenhuma. Imagine então que estes pensamentos o acalmam e você se entrega inteiro a ver simplesmente, no silêncio, o cenário.

À esquerda, ao fundo, duas escadas em espiral sobem entrelaçadas.
No lado oposto, uma tela de cinema corta, oblíqua, o palco.
Em primeiro plano, à esquerda, uma cama de casal – branca, hospitalar, de ferro batido. No centro, uma escrivaninha e sua cadeira. Há ainda uma bergère alta, um cabideiro de roupas, livros, papéis, a máquina de escrever e tudo mais que você imagine necessário para alguém que viva de escrever. Fora do palco, no ângulo oposto à tela, um projetor de cinema que atravessará com sua luz o céu da cama. Uma pequena rampa acompanha a trajetória da luz até à tela.
Agora tente fixar o cenário em sua mente; tome-o para si como se fosse seu, pois trata-se apenas de um quarto. Mais um quarto… Um quarto de comprimido, um quarto de hora, um quarto de amor, um quarto de história. Um quarto…

E então as luzes se apagam e você mergulha na escuridão e no silêncio. Mas antes que se exaspere, o palco se ilumina com a luz do projetor que sobrevoa a cama e expõe na tela o corpo nu de uma mulher que dança para os olhos de uma câmera atenta, minuciosa, apaixonada.

Na cama, dois corpos estão inteiramente cobertos por lençóis – lençóis de seda antigos, de um branco aperolado pelo tempo.
Ouve-se o som de uma caixinha de música.
Um dos corpos se ergue, talvez despertado pela luz e pela música. É um homem, e ele olha a tela com encanto. Vê a luz e quer tocá-la. Ao fazê-lo, seus dedos se projetam sobre a tela e quase tomam a imagem da mulher que dança. Ele deixa-se ficar assim, acariciando a imagem com a sombra imensa de seus dedos.

Uma voz ou um coro de vozes lhe sussurra ao olvido:
“Ela é a luz, você não vê?”.

Mas, alheio, ele não ouve.
Então, ele se levanta e caminha pela rampa em direção à imagem. Ele está nu e a sombra de seu corpo quase toma a tela. À medida que avança, a sombra diminui: “Quanto mais perto, mais longe?”, ele pensa, perplexo.
Ainda assim ele continua e quando cessa o espaço e ele e sua sombra se encontram – a carne já grudada à imagem que o inunda, o corpo nu tomado de tatuagens que se movem – ora sombra, ora flagrante – na pele que se esfrega na tela lisa e exata: fria – ele se exaspera, pois era outra a substância que esperava, era vida o que as mãos buscavam – e não solidão e sonho.
Enfim, quase em desespero, ele súbito se volta. Mas de imediato a luz toma-lhe de assalto os olhos num só golpe: “Cego!”, ele grita e cobre os olhos com o braço, num gesto inútil.

Imediatamente, a luz se apaga e na escuridão, ouve-se o despertador que toca de repente, do modo insistente, estridente, com que tocam os despertadores e você acorda num susto de trincados dentes: é o outro corpo que desperta, atônito e alerta.
Ele traz o cenho sobre os olhos concentrado em lembrar o sonho – que ainda assim se desvanece no ar feito um perfume – e com assombro acaricia a cama como se a outra metade lhe faltasse e vagamente estranhasse não encontrá-la…
Então, finalmente, Ele se levanta. Veste apenas uma calça de pijama branca listrada de azul. Espreguiça-se. Caminha até o limiar dos bastidores e pára. Um outro homem o encara, anacrônico Baudelaire, Zé Pelintra da Lapa, dândi malandro no branco do tropical inglês. Os dois se olham com interesse, mas apenas Ele, o do pijama, faz os gestos característicos de alguém que se prepara no espelho de manhã.

Imóvel, o Outro declama:
Ele – sempre elE
Sob a máscara do espelho.
Rever – dia-a-dia, reveR
Esse estranho essE,
Feito de sonho,
Que só meus olhos não vêem…”

O dândi volta-se e diz, depois de uma pausa teatral:
“Os versos são d’Ele e Esse sou eu…
Mas Eu sou Ele e Ele sou Eu.
Só que eu, vivo solto no tempo e ele, confinado no espaço…
É dessa confusão que falam os versos…
Mas na verdade somos um.
Mesmo que só às vezes a gente coincida,
Ou quase sempre se interrogue com estranheza…”

O do pijama encerrou a mímica mecânica de todo dia e caminha pela casa, roendo um pão, beliscando um biscoito, enquanto lê uns papéis que pegou na escrivaninha. Os dois, Ele e o Outro, se cruzam, mas não se esbarram, pois não se vêem.

Então o Outro fala:
– Nunca antes estivemos tão distantes… Mágoa de amor, ele diz. Ressentimento, ele pensa. Mas, no fundo, é aquela dor, a genuína e incomunicável dor, sem causa nem ofício, e que encontrou n’Ela objeto e pretexto. E assim, a dor se adia na ilusão de que só a vingança a aliviaria. E do adiar-se na vingança vive a dor, feito uma azia, mal-estar que se atribui à boêmia…
Dessa tolice também são feitos versos. E é desses que ele espera mais sucesso. O sucesso que ele imagina a melhor vingança: tornar-se conhecido, reconhecido – “só pra mostrar a ela…”.
É… Como em qualquer samba-canção, poema de cordel, tango de Gardel, Bolero de Ravel…”.

Neste momento, entram em cena as Fantasias.
Lassas e marciais, sumárias na nudez, expressas feito clichês. Elas o cercam e seduzem, vestindo-o de chapéu-coco, bengala e charuto, enquanto outras o adulam com papéis e contratos que ele rejeita com gestos de desdém. E eis que Ela surge. Vem vestida de nuvem, quase nua, ela vem, sob o vestido esvoaçante de cinema e seda.
Ela corre para os braços d’Ele, mas esbarra no imóvel desprezo que a aguarda e nele escorre indefesa e só não se desfaz no chão porque, num golpe de mão, Ele enlaça-lhe a cintura e a ergue de volta num abraço que é já o primeiro passo de uma dança, valsa clássica que se dissolve num tango um tanto erótico, um tanto ingênuo.
Mas quando chega a hora do beijo, Ele a larga e Ela cai no vazio inesperado de outros braços que a arrastam para fora. E Ele impassível a vê ser levada pelas Fantasias que o servem agora como fazem os tiranos quando consentem.
A luz volta ao normal.

O Outro retoma sua fala:
– Seria ridículo, se não fosse tão humano… Seria mais humano, se não fosse tão pequeno… Mas preste atenção, leitor, apesar de tudo, é o Amor que o move. O Amor – e todos os sentimentos contraditórios que dele emanam e nele se embaraçam…

O dândi dá de ombros, num gesto que é puro seu, e vai sentar-se na bergère para assistir o do pijama já envolvido em seu trabalho diário de escrever.

(Ele bebe? Não sei, mas o álcool talvez justificasse a pompa com que fala sozinho… Ele é, de qualquer modo, um delirante, e ainda que o reconheçamos personagem e dele exijamos essa ficção chamada realismo, não custa reconhecer que na intimidade todos somos loucos ou tramamos em silêncio sê-lo. Esse aí fala demais sozinho – até por força da profissão: o ofício de escrever favorece o solipsismo e não há escrita que não seja mais ou menos metafísica.
Um simples bilhete que perdura, e que, de perdido, te salta súbito da carteira, pode ser a chave para errâncias por um tempo que te volta vivo, à flor da pele, em pleno sábado de sol crepuscular nas areias em frente à praia, enquanto o vento te afaga com o frescor do mar – e outras moças, alertas ou absortas, passeiam suas pernas em shorts e saias até também para que te distraias…
Mas eu dizia que o do pijama fala demais – e ainda mais, se está sozinho. E mesmo se escreve, ele fala ainda em sua máquina – e haveria música no ritmo das teclas com que ele escreve os versos que sussurra… E enquanto escreve, o ar vai se enchendo de fumaça, a luz vai caindo, e o que vai ficando é o som das teclas gravando o silêncio com suas letras, arrancando do nada seus poemas…)

Ele se vira para você e fala:
– Escrever uma peça para tv baseado num conto de Machado de Assis. Eis do que se trata. A história é ótima: um maestro de subúrbio quer compor uma música em memória à esposa morta ainda nova. O projeto era mais ambicioso, mas se reduziu com os anos a uma música, uma única música, que ele vai dedilhando no piano ao longo da vida, sempre inacabada. Até que um dia, a negra lavadeira do vizinho a assovia – pronta, inteira! “Era o que eu queria”, ele diz, mas o tom é mais de inveja do que de surpresa. Meses depois, o maestro morre.
“O homem não reconhece o dado”, seria essa a filosofia?
Quanto a mim, já me bastaria saber contar essa história. Ou qualquer outra.
Mas aí, eu sento aqui e, desta máquina de costurar sonhos, o que me saem são poemas, vaidosamente entristecidos.

Ele declamará, fingindo ironia no tom dramático:
– Duas vezes decaído, primeiro como anjo,
Depois como demônio,
Ele já não diz mais: “Eu me recuso”,
Mas apenas: “Eu não mereço”.
“O que pode haver para além das trevas?”
Ele se interroga.
“A origem do fogo?”
“O céu de novo?”
(Pois, apesar de tudo, ele ainda ousa…)”.

Ele acaba de ler, faz uma bolinha de papel e a atira para o Outro.

– Não acho ruim…, diz o dândi.
– Pois é, eu preferia saber contar histórias grandiosas, tramas cheias de meandros, e não apenas fazer frases que se alongam às vezes só pelo prazer de se esticar, só pelo gozo de tentar fazer a voz do leitor perder o fôlego – mais desafio de soprano do que literatura… E pior: no final, tudo quase sempre me soa tão dramático e solene que destoa…
– Você queria A Obra!? Pois se contente com o livrinho – inacabado e inexato como a vida.
– Não vende…
– E daí?
– Essa pergunta só podia vir da alma… “E daí?”, você diz… Quando eu era pequeno dizer “E daí?” era uma afronta.
– Pois então: enfrente…

Ele vira-se para você e diz:
– Devo alertá-lo de que se trata do diálogo de um bêbado com sua alma. Friso o bêbado apenas para marcar o caráter alegórico do diálogo, que talvez, em condições normais, se daria no banheiro ou num transe desses que a gente tem quando está no trânsito, entre a casa e o escritório. Nesse sentido, trata-se de um diálogo realista – no sentido que pode acontecer a qualquer um a partir de um certo grau de solidão, de esquecimento ou de uísque, acessíveis todos a qualquer cidadão que se disponha a tanto, seja pelo amor profundo à verdade, seja pelo gozo irreprimível da experiência de estar um pouco louco. Obviamente um médico classificaria um tal diálogo como a expressão de um delírio. Que seja, então! Mas repito, friso, destaco, assinalo: acessível a qualquer um. E tendo feito esta ressalva, retorno ao diálogo com a minha alma…

A luz se apaga e o projetor se acende.
Lá está o homem nu, de olhos cobertos pelo braço.
Ele fala – feito estátua grega falaria se falasse:
– Com meus dedos de sombra, pensei acariciar o sonho.
E, com a avidez do gozo, quis enlaçá-lo.
Ilusão sobre ilusão,
Teu resultado é a escuridão
Que agora me consome.
Cego (sem ego?) – o que serei:
Édipo ou Prometeu,
Errante ou acorrentado?
Sou luz? Sou pedra?
Falta-me vida
Ou será que tudo se passa aqui,
Dentro,
No escuro dos olhos, sob a luminosidade dos sonhos?

Uma voz feminina responde em off:
– Por que a dor, se antes nunca te havias visto?
Não tomes isto por escuro,
Nem ergas um muro onde não há nada.
Fui eu quem te cerrou os olhos,
Para que o Mundo coubesse em tuas mãos,
E o tempo te aparecesse infinito.

O projetor se apaga.
Ele está no centro do palco, bêbado.
– Beber… Sonhar… Talvez dormir…
Enfim, que diferença faz, beber ou não beber, se Deus não existir? E mesmo que ele exista – ou não exista – seja como for e até por isso mesmo – a dor será sempre isto: perversa ilusão, gozo inverso de sentidos exaustos do comum…
Falsa dor – e, no entanto, mais genuína do que o amor, porque incomunicável… Mas, falsa. Falsa sensação que substitui o vazio pela falta – a irremediável nostalgia líquida do útero – que só na morte encontrará termo.
Mas – e se nem na morte? Esse o temor que me agarra à vida: o temor de tornar eterno não o sofrimento, mas a falta…
Beber… Sonhar… Talvez dormir… Morrer e talvez acordar…

Ele volta para a máquina, certo de ser Hamlet.
Senta-se, de costas para a platéia, que é você, caro leitor, voyeur quase involuntário desse lamento de baleia.

(O que sucede é que ele perdeu o seu amor e não há solidão ressentida que não tenha um tom patético. Ele perdeu um grande amor e a quer de novo, mas sabe que a perderá de novo se não se tornar outro – se não começar de novo, do ovo, do zero, Ivo viu a vulva, bê-á-bá do amor. Ou melhor: talvez ele nem saiba nada, apenas sinta a dor como todo mundo. Só que por acaso ele é escritor… É só isso, e toda esta introdução foi para pedir muita paciência para o monólogo que vem a seguir, e que quer certamente mais comover do que instruir.)

– Queria te poder falar… Queria te dizer, mas não saberia – como sempre, eu mergulharia num fluxo incessante de palavras que construiriam justificativas que iriam se decompondo depois em acusações, quando, no fundo, tudo que eu gostaria de dizer, mas não direi, seria simplesmente: perdão.
Mas eu não diria – porque te ver ou ouvir tua voz me leva de volta ao vasto deserto onde o desejo se mistura com a dúvida e isso me torna violento em vez de terno, e isso me devasta e me consome em silêncios que são de pedra ao invés de seda; e então eu te comeria, voraz feito fera que um dia devora o tratador – com o mesmo vigor redobrado pelo rancor de saber que só a jaula permanece, que só estas grades me pertencem – e que por mais que eu te foda, seja eu fêmea, seja eu fera, nunca te saberia sonegar o prazer que está em ti, em ti que te sabes dar – e não em mim, que só sei mentir…
E fingir e recontar-me – tigre de papel e letras, escravo deste tear onde me recrio a selva que não vi, para esquecer o exíguo espaço do cativeiro em que nasci… Só conheço a jaula, mas sonho – sonho conquistar o mundo, quando o mundo que vi é cativo destes olhos de escravo… Derramei sobre o mundo minha miséria: fosse paris, nova iorque, atenas – fosse onde fosse, era sempre eu e sempre lá, a jaula… E hoje se me recordo, não sei sequer se sou este que pensa ou se sou o que sonha… Não distingo… Onde estive, enfim – se nunca saí de mim? Em ti – mas logo em ti!? Talvez tu sejas outra coisa: meu mais genuíno enigma. Mão estendida entre as grades, raio de luz que me atravessava a cela… E como te odiei por isso – por me lembrares que eu era um homem!
Não, eu não saberia te dizer – nem perdão, nem eu te amo. Porque é tarde já.
Porque eu quero sempre que seja tarde. Porque eu quero sempre que o que reste seja isto: a vastidão do sonho em que me engendro sombrias selvas – mas, sozinho – sempre.
Porque prefiro a punheta ao amor. Ou o simulacro das noites únicas: “Never more” – crocita o corvo que vive em mim como um segundo corpo.
Não – nosso diálogo seria exatamente isto: eu te ludibriando com palavras, te enganando com sonoridades que eu mesmo creio tão sinceras, pra te ver brilhar esses olhos verdes de tão meus e te fazer esquecer que baby, te amo, nem sei se te amo…
Não, eu não saberia te dizer… Prefiro te invocar de novo – Evoé, Eva. Mais uma vez te materializar com minha voz, te fazer da mesma matéria de que são feitos os sonhos, para te trazer quase ao alcance da minha boca e te dizer… Não.
Te invocar – e mais uma vez travar com tua imagem a irresoluta batalha das explicações, justificativas, promessas, juras, seduções e recusas que antes só querem dizer “perdão, tesão…”. O perdão que eu vivia te dando quando te imaginava puta em meus ciúmes, em minha inveja de ti tão livre quanto é a vida longe da jaula…
“Os culpados perdoam. Os inocentes, se vingam” – Ouvi isso num filme de Bresson – mas como suportar o peso de tua inocência se o gozo imaginário da humilhação me persegue ainda – e até quando?
Imaginar que de perdão em perdão, tu te tornarias minha, só minha – que tu te anularias em face da óbvia gratidão. Mas tu percebeste cedo minhas mãos de ferro sob as luvas de pelica… Tu viste a face da fraqueza sob o disfarce da bondade. E nem por isso foste embora…
Era outra coisa que te prendia a mim – era alguma coisa de bom… Eu não saberia dizer o quê – e tive medo…

(E antes que te enfades ainda mais, caro leitor, eu te imploro um pouco mais de paciência – e talvez só nesse sentido a leitura deste livro possa ser didática… Paciência – pois ele começa a escrever enquanto a luz vai lentamente caindo para simular a passagem das horas até à escuridão.)

– É possível escrever no escuro… Eu gosto… Sei onde estão as teclas, mesmo quando me faltam palavras… E os vizinhos não podem reclamar… Tecnicamente eu estou dormindo… Escrever no escuro ou de olhos fechados… Escrever no escuro e de olhos fechados… Escuridão sobre escuridão onde eu sempre espero encontrar minha alma… E então, de súbito, se me abstraio do barulho medonho desta máquina, é como se fôssemos uma coisa só, usina de sonhos que avançam num fluxo líquido e avassalador sem o conflito das letras ferindo o branco da página, sem a insegurança do sentido, essa prisão – só a espontaneidade mecânica da alma-máquina recortando delicadamente o silêncio até que o tempo e o espaço sejam abolidos e então finalmente enfim possa ser de novo Ela – tão fresca quanto no primeiro dia. Evoé, Eva invocada pelo verbo, não divino, mas viril. E aí tu vens: toda luz e voz tornada carne… Tu vens e eu sou feliz… Entre nuvens de chuva e trovões, vinda do ventre da Natureza… Tu vens…

Ouve-se o som de uma tempestade de verão.
Trovões ressoam no azul dos relâmpagos.
E então… Ela chega! Finalmente, de fato, Ela chega.
Ela vem: com a capa de chuva e o chapéu de Humphrey Bogart, sem as calcinhas de Sharon Stone, Ela vem.
Ela entra, já despindo a capa respingando chuva, deixando ver o contraste da pele muito branca contra o vestido negro, atirando o chapéu e soltando os cabelos úmidos, os longos cabelos luminosos – e a boca de lábios em polpa de vivíssimo vermelho vem balbuciando palavras como se conversasse com os peixes.
Ela entra, ingenuína – com seu jeito de não se sabe se sonâmbula ou insone… Ela entra, caminhando num passo que segue sobre a linha inexata que separa a vulgaridade da inocência – ela vem, puta velha cheia de graças de menina, feminina, e avança, vinda do fundo, acendendo as luzes…

– Você!?
E Ele tem vontade de pedir “Vem, me aperta, que eu mal acredito… Vem, que eu sou só alegria…” Mas, como sempre, ele se sente oprimido por uma vergonha que se expressa em pompa de palavras poucas e anacrônicas – sonetos duvidosos onde a vida exigiria um rock and roll…
– Como foi que você entrou?
– Eu ainda tenho as chaves…
– …
– Mais de um ano faz…
– Passa depressa…
– Passa?
– Sei lá… Às vezes, parece sonho, de tão longe… Outras, parece ontem…
– Comigo também é assim…
– Mas como é que você chega assim, sem avisar..?
– É que eu nem pensava em vir… Na verdade, eu estava em São Paulo, tomei um avião e vim… Mas fiquei com medo de avisar e você dizer não… Aí eu vummm, vim voando… Sem pensar…
– Na velocidade da luz…
– Você ainda sonha comigo?
– Acordado ou dormindo?
– Os dois… Porque tem vezes que eu tenho a certeza que você está pensando a mesma coisa que eu naquele mesmo instante, do outro lado do mundo. Você também sente isso, não sente?
– Sei lá…
– Fala… Foi pra ouvir que eu vim…
– Verdade ou falsidade… É esse o jogo? Pois é, quando eu digo que não sei, eu quero dizer que sim, que sinto; e que não, não creio… Que o falso e o verdadeiro se misturam toda vez que penso em você… Que às vezes eu ainda acordo e acaricio a cama pensando que você está ali, logo ao lado, e por segundos muito longos meus dedos sentem teu corpo no vazio…
– Você ainda sonha…

Ele gira novamente a cadeira, se voltando para a máquina e se pondo de costas para Ela.
Ela se aproxima por detrás da cadeira. Ele pega o espelho que tem sobre a mesa. Olha para ela através do espelho.

– Fantasmas não aparecem nos espelhos… Ela diz para os olhos dele no espelho.
– Eu quero ver meus olhos te olhando… Eu quero ver o que meus olhos vêem quando vêem os teus olhos… Eu quero ver para que nenhuma lágrima corra, nem minha voz estremeça… Eu quero ver – com olhos duros e exatos como duas lâminas capazes…
– Isso você não pode ver… Disso você só pode dizer que é ou não é… Mas ver, você não pode… E se você pensa que vê, pode ter certeza que se engana…

“Ela é a luz, você não vê.”
É o dândi quem diz, aparecendo do nada.
E continua:
– Quantas inflexões é possível dar a essa frase? Várias – de alerta, de interrogação, de lamento. Mas a ênfase deve ser sempre esta: a de que algo sempre te escapará sempre, dos olhos e das palavras, mas sempre estará lá, sensível no fundo de tudo que é motivo de êxtase ou de dor, de tudo que for, flor arrancada do caos. Do caos, única forma concebível de Deus, que jamais se poderia pensar submetido à ordem, mas que, a despeito disso, é um músico que dança, e por isso exala, da polifonia plena, um ritmo feito de tonalidades e pausas que se alternam quando temos ouvidos mais que olhos…

– Chega! Ela diz. – Não vale a pena a gente se perder em literaturas… Somos Os Amantes que se reencontram e temos pouco tempo…

(O silêncio e os gestos que se seguirão são a concessão que Ele faz ao realismo, tempo que Ele se dá para tentar engendrar o andamento da trama supostamente secreta com que quer encobrir a vida e supõe mantê-la sob controle, enquadrada numa seqüência que aparente um sentido para isso que permanece imóvel e, no entanto, pulsa. Ou assim Ele sente, enquanto prepara outro uísque e pensa simplesmente em como comer essa mulher, amada e filha da puta, enrolado num drama mais de Otelo do que Romeu.)

Ela passa a mão no rosto dele.
– Saudade de você…
– Eu posso imaginar.

Ele pega um cartão sobre a mesa e o lê:
– “Por que recorri novamente à escritura? Não é preciso, querido, fazer pergunta tão evidente. Porque, na verdade, nada tenho para te dizer; entretanto, tuas mãos queridas receberão este papel”.
– Isso é Goethe… Ela diz, orgulhosa.
– E isto é você: “Nada tenho pra te dizer, a não ser que esse nada é pra você que eu digo. Tenho tantas saudades de falar com você pelo menos pelo telefone… I love you…”.

Ele vira o cartão:
– E esta é a Vênus de Boticelli…

Ela avança sobre ele, querendo pegar o cartão.
– Calma…
– Você ainda sente raiva.

Ele se limita a beber junto com o uísque as palavras que nem saberia dizer, como beberia qualquer bebida que lhe preenchesse o tempo que parece não passar… E se serve de mais bebida.
– O que você está escrevendo?
– Uma adaptação para a TV das fantasias de um idiota que se imaginava genial… Alguém que não se contenta com a felicidade de estar vivo…
– Você faz questão de parecer amargo…
– Quando você vai embora?
– Amanhã… Isso é ridículo, sabia?
– Amanhã?
– É, amanhã. Vou para Tóquio…
– Tóquio…
– A gente não tem muito tempo…

Ela encosta-se na escrivaninha… Ele olha suas pernas que se oferecem.

(Eu sempre tive a fantasia de tocar tua boceta com as teclas da máquina… As teclas não estalando mais no papel, mas lambendo a rubra umidade dos teus lábios no mesmo ritmo descompassado das noites mais inspiradas: ora veloz, ora lento – às vezes unhas de mandarim, às vezes pétalas de jasmim… Anchieta eu seria escrevendo com os dedos nas areias que sois e seria o mar a minha língua te lambendo os versos depois… E você seria a solidão das praias e o silêncio das fotos….)

Ela se ajoelha na mesa, a máquina entre as pernas, as pernas abertas sobre a máquina, e da máquina sobem labaredas, letras de fogo para dentro de ti, esperma de fogo e logos – e tu, sacerdotisa, deliras em quase gozo…

(Mas, se de fato a fantasia é imprimir em tuas carnes, tatuar em teu útero um poema, é preciso confessar que, se tentasse, as teclas se amontoariam uma a uma, acavalando-se – amortecidas pela maciez úmida dos lábios – e o sonho se desfaria nos limites que o mundo impõe à existência: a tecla é feita para rebater contra a superfície dura do cilindro em que o papel se enrola e voltar na mesma velocidade para o espaço que lhe cabe – não para estancar em pleno vôo, esguia estátua de prata admirada com a suavidade que lhe suga, em súbita carícia, toda a seiva de ser metal.
E as teclas que a seguissem – pois todas convergem para o mesmo ponto e devem à velocidade com que se alternam a eficiência de seu trabalho – as outras imediatamente iriam se amontoando, numa reação em cadeia que encrenca a engrenagem toda – e o que era ritmo se esboroa em máquina emperrada…)

E seria então, leitor, que o anão invadiria a cena.

(O anão é, por definição, uma figura macrocéfala, de tronco e membros curtos. Mas é também uma expressão: “Ah, não!”, que, quando eu era pequeno, era rebatida com a resposta: “Ah, não! é um homem pequeno.”
E assim o anão associou-se em minha mente à negação e à recusa.
A recusa: Não creio. Não quero.
Poderíamos falar horas sobre a recusa e seus efeitos: a inveja, o ciúmes, o rancor, a autopiedade. Mas fiquemos com a figura do anão.)

O anão veste um pijama igual ao d’Ele e se esgueira pelo palco tentando ver o que faz o casal.
Ela continua ajoelhada sobre a mesa, e ele fez muito bem em tornar a fantasia tácita metáfora e entregar sua boca à outra boca que se abre à sua frente, deixando viajar a língua em volúpias que são também poemas, coreografias de colibri beijando flor…
E o que pensa o anão?
Para sabê-lo é preciso esperar que ele sacie seu olhar infamante, que não descobre, mas destrói – seu olhar de não.
Enfim, ele conclui:
– Todas as mulheres são putas. O que Ela quer é pica. Basta uma pica grande e dura, para fazer revirar esses olhos feito dois peixinhos aflitos e famintos…

É então que intervém essa outra voz, a voz do dândi:
– E por que não, “ah, não”? O nome disso é tesão. Todas as mulheres são putas até serem rainhas para alguém… E ainda bem que há putas enquanto a rainha não vem…

O anão, enxotado pelo dândi, sai correndo de cena, balançando seu pauzão enorme e gritando que todas as mulheres são putas, só a mãe dele é que não.
E os dois?
Ah, ela já gozara e agora jaz desfalecida sobre os ombros dele sem peso algum: é como se fossem um – flor de carne que ao sol repousa.
– Sabia que eu já sei quase falar japonês?
– Sabia que eu escrevi uns hai-kais?
– Sabia que foder em japonês é fúcsia?
– Eu pensava que fosse fuque-fuque…

E aí, os dois saltam finalmente para a cama e o diálogo desanda para esse humor do amor que perdoa tudo, entregue ao sim que abraça a recusa como se fosse irmã e amansa seu rancor, um sim que não é cegueira, mas compaixão, pois não há amor que não seja também esquecimento.
E eles seguem falando essas bobagens que se dizem Os Amantes – pois também não há amor que não seja um pouco rude, um pouco tolo… Até que tomam a cena os outros sons do amor e suas poucas falas, que se escritas parecem obscenas, mas se sussurradas soam como carícias ao ouvido.
São obscenas as falas e são ingênuas e delas não se fará registro.
Mas, esgotados os sons e o silêncio satisfeito que se segue, a conversa se reinicia mansa e confessa…
– Eu escrevi pra você uma história…
– ?
– “O Escafandrista e a Bailarina”…
– !
– … :
– Lê pra mim…

Ele levanta-se, pega uns papéis e vai sentar-se na bergère. Ela o segue e se ajeita entre as pernas dele.

(E eu quero essa cena bem fixada em tua memória, leitor, espectador involuntário, amigo – se, afinal, já chegaste até aqui. Eu quero bem gravado em tuas retinas essa imagem, da Escuta debruçada sobre a Fala, imagem que resume o que é o Homem.)

Então, uma luz se acende e se ouvem uns poucos e espaçados passos, pesados e lentos…
Um escafandrista (feito esses de aquário) entra no palco. E você talvez ouça o som de borbulhas que marca sua respiração no escuro silêncio do fundo do mar.

– Venho de um profundo mergulho na alma humana…
O Escafandrista dirá com gravidade retumbante e certa pompa.

– E lá no fundo, tudo que encontrei foi lama.
Lama e escuridão.
Há navios que são como catedrais imensas.
E tesouros.
Riquíssimos tesouros.
Mas irresgatáveis.
Perdidos para sempre na lama e na escuridão…
Ninguém nunca antes lá estivera – tão fundo – tão baixo…
Salvou-me esta couraça, falso corpo feito para não sentir,
Que agora se confunde com a minha carne…

Ouve-se uma valsa.
Entra no palco a Bailarina (feito essas de caixinha de música).
Ela diz:
– Não fique triste, escafandrista.
A alma é lama quando o corpo é porco.
Mas sensual é também o porco em sua entrega à lama.
Símbolo máximo do apaziguamento.
O êxtase da exaustão,
Vazio exato onde nada falta,
Se prestares atenção.
Vem, despe essa couraça,
E dança a tua dança.
Só alcança a luz
Aquele que fracassa,
E deixa de ser de si
Caçador e caça.

O Escafandrista responde:
– Tenho os pés de chumbo da couraça que carrego…

A Bailarina retruca:
– Dança, para que ela se desfaça.
O corpo para a alma
Deve sê-la, e não cela.
Só quando a alma ganha corpo,
O corpo ganha calma.

O Escafandrista insiste:
– Eu não sei dançar…
Me acostumei à lama, alma encantada de si mesma.
E sentiria falta da indiferença que a couraça me confere.
Tua luz me fere, Bailarina, e quase chega a ser amor
A inveja que sinto da leveza dos teus passos.

Paralisado nesse impasse que lhe pesa tanto quanto a couraça que carrega, o Escafandrista talvez medite sobre o peso das coisas, calculando seu próximo passo – e assim ficará, imóvel, até que a cena se esfume como se afundasse…

– Eu me sinto comovida… Você escreve com palavras no papel o que eu leio nas nuvens que o vento esculpe no céu…
– E de vez em quando, as tuas orelhas ficam quentes de mim pensando em você..

Enfim, leitor, o que ela intui e ele custa a crer é que o amor se tece na ausência: o amor é o que fazemos de sua falta.
Por isso, talvez valesse que o dândi sussurrasse ao ouvido dele: “Vai, fala agora dessa dor que não se sabe dizer. Vai, faz dançar as Fantasias numa coreografia de mostrar o que palavras não podem contar…”.
E então, como um possesso, Ele se dirigiria às sombras e gritaria:
– “Falai, Fantasias. Falai!
De quem sois?
De mim?
De nós dois?
De nenhum de nós?
Como, enfim, o ciúme se faz?
E o prazer – de onde se extrai?
Afinal, quem quer o quê e o que é querer?
Falai, Fantasias, falai: o que não se sabe dizer quer mostrar-se.”.

As luzes se apagam. Escuridão e silêncio.
Música.

Acende-se uma luz que ilumina Ele brincando no chão com um carrinho. Do alto das escadas entrelaçadas, descem um Homem e uma Mulher. Ela se aproxima do Menino, afaga sua cabeça, e põe-se a trabalhar num tear.
O homem, também de pijama, senta-se na bergère e abre um jornal.
A mulher tece, o homem lê, o menino brinca.
Mas imagine que a música vá muito lentamente degenerando em atonalidade e dissonância. Os movimentos da mulher vão se tornando vãos, desconexos, dolorosos.
Giram as Fantasias pelo palco. Então a mulher leva as mãos à cabeça e cai. As fantasias a tomam nos braços e jogam com ela como se boneco fosse, ante o olhar atônito do menino.
Finalmente, ela é levada numa maca por homens mascarados e vestidos de açougueiros. O menino cobre os olhos para não ver. Para chorar. Para não chorar.
Aparentemente, o homem não viu a cena. Ele continua lendo por detrás do jornal. O menino gesticula uma súplica de cinema mudo, mas o homem permanece imóvel. O menino se atira sobre o jornal. Mas, por detrás do jornal não há ninguém! Ninguém: apenas braços e pernas inscritos no ar, suspensos. As luzes se apagam num corte bruto.

Escuridão.
Longa escuridão que quer ser o símbolo da solidão mais intensa.
As luzes se acendem e eis de novo o menino brincando sozinho no centro do palco.
A Mãe desponta do fundo como uma aparição. Vem como santa ou iemanjá, nossa senhora da glória e das chagas, encarnação da Mãe Ressuscitada. A primeira reação é fugir. Mas ele corre, corre, corre e não sai do lugar!
A mãe retoma seu tear. E o pai continua lá, lendo o jornal que já não há.
Tudo parece ter voltado ao normal.
Enfim, ele engatinha até à mãe e toma a ponta do fio do novelo do tear e puxando o leva para cama e brincando passa o fio entre as grades da cama e o amarra depois no tornozelo. E assim adormece.
Ele dorme e então, da semi-escuridão surge flutuando no ar como um balão, O Mundo! O Mundo, no outra ponta do fio – onde devia estar o tear!

Ele acorda e admirado toma para si o Mundo que flutua no ar ao alcance das mãos – e o atira para o alto e para os lados e para cima, numa dança cuja graça é entrecortada de quedas porque nem sempre é suficiente o fio. Dança, enfim, mais de pequeno tirano do que de Grande Ditador. Mas, ainda assim, uma dança feliz, de quem tem o mundo nos mãos como se fosse seu…

Até que de repente – toca o despertador! E ele surpreso, se agarra ao seu mundo e corre.
Mas quando salta da cama, o mundo nos braços furtivos, o fio não basta: as duas pontas não podem correr juntas na mesma direção. E, no tranco que se segue, o mundo escapa-lhe das mãos e voa de volta para se entalar entre as grades da cama. E Ele, mais leve e veloz, se estatela no chão. Segue-se um tempo de silêncio imóvel – mas, passado o susto, Ele experimenta puxar o fio bem devagarzinho – e o fio vem! Até que ele se arrisca a um puxão mais forte! E estranhamente ganha linha! – e assim, descobre que, mesmo atado, é como se fosse livre – porque sempre dá linha! Ele pode mover-se, mas o Mundo continua lá, entalado entre as grades da cama.

“Então posso ir?”, Ele pensa – e vai saindo, devagar, como se não cresse. Mas, quanto mais avança, mais esquece o fio que o prende – e vai, levado pelas Fantasias que de novo o cercam e amparam…
E Ele vai: louco, embriagado, fabuloso e melancólico, intenso e notável – demais até. Muito demais de mais, ainda que outras vezes, demais de menos – fora outras, de pouco quase mesquinho.
Mas, Ele vai.

E é nesse “como se fosse livre”, que Ele começa a partir sua partida interminável.

O fio parece infinito: “Quando acabará?” – ele mal se pergunta, enquanto avança. “Acabará um dia”, ele decide, para não ter mais de perguntar.
E lá se foi, feito pipa largada no vento.
Lá se foi: para além do mundo, a rua. E aí a música deve ser um jazz bem mundano – festa bêbada de muitos dias e anos… E Fantasias, às vezes tórridas, às vezes frias.
E junto ele leva sua mala de anagramas.
Que vai se enchendo e se tornando mais e mais pesada. E maior. Até que, à beira da rampa que leva à tela, a mala é já um baú que se empurra para cima a muito custo.
E quando se pensa o topo próximo, a rampa é uma gangorra e deslizas morro abaixo, puxado pelo peso do baú que supunhas ter levado tão alto.

(E já no chão, do outro lado, pensas, “quem sabe, se tentar ir puxando a mala em vez de empurrá-la, talvez assim chegaria a um ponto de apoio no topo e de lá puxarias a mala…”. E voltas então, pela nova rampa que se inaugurara à tua frente, do outro lado – e, de novo, o desastre. E de novo. E de novo. De um lado para o outro. De um lado para o outro. E assim Ele ficará, escorregando pra lá e pra cá, se não interrompermos a cena – ou ela continuará, feito pesadelo que retorna – multiplicado no horror, por já se saber o que virá sem nada se poder fazer.)

De modo que façamos o seguinte: o dândi irá pegar o nosso Sísifo, sentá-lo em seu baú e acalentá-lo como um anjo o faria. Quando ele adormece em seu ombro, o dândi o carrega no colo até à cama. Lá o põe para dormir e desata o fio de seu tornozelo. E antes de partir, ele também corta a outra ponta do fio – e o Mundo pôde enfim subir aos céus e virar estrela…

Cai a luz.

Silêncio e escuridão.
Ele continua dormindo.
A luz do projetor se acende.
Ela desce nua lá da tela, e deita-se ao lado dele, velando o seu sono.
Ele acorda.
– Eu tenho de ir… Ela diz.
– Ainda é cedo…
– Está amanhecendo…
– Não… A esta hora, mal se sabe se o que virá é a noite ou o dia…
– Fica… Quem sabe o sol não se alucina e salta de volta para a China?
– Não… Até o sol tem sua sina…
– Mas podemos iludir o sol com um movimento de cortina…
– Bobo… Se você quer, eu fico…
– Não, vai… O que tem força fica. Não é tempo que elimina.
– Eu vou. Tenho de ir… Não triste, mas calma porque é outra luz que agora nos ilumina…

E assim acabaria a história: numa despedida sem dor.

Pois, pela primeira vez, o Escafandrista soubera descer e enfrentar a dor incomunicável que jaz lá no fundo, guardiã mesquinha de nossos tesouros. E, desta vez, a venceu. E sua única arma foi o afeto – de seu corpo e de seu silêncio. E ao subir de volta, já não era mais um fantasma reclamando luto, nem um menino chorando a perda, mas um homem em face da solidão.

(E enquanto você vai saindo do teatro, te acompanha o solo magistral de Dizzie Guillespie tocando Stormy Weather no dia 22 de fevereiro de 1953, em Paris…)

 

FIM

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