Fiz a revisão semântica da monografia de uma amiga. O texto já passara por um revisor o que, pensei, nos pouparia tempo. Engano meu. À parte os erros de concordância e ortografia que tive de corrigir, ainda padeci com uma das coisas que mais me irritam num texto: o uso aparentemente aleatório das vírgulas.
Ferreira Gullar, nos anos 60, criou a máxima: “A crase não foi feita para humilhar ninguem”. Setenta anos depois, digo eu, parafraseando Gullar: “A vírgula não foi feita para humilhar ninguém”. Mas humilha.
Há setenta anos, penava-se com a crase que tem lá sua complexidade. Hoje, nem mais a vírgula se aprende a usar. Um sinal da decadência do ensino do Português. É humilhante, sim. Ainda mais quando o texto foi lido por alguém que se intitula revisor e cobrou (caro!) pelo trabalho.
É humilhante porque o uso da vírgula é relativamente simples. Como meu uso da vírgula é quase intuitivo, prático, resultado de anos de leitura e escrita diárias (e ainda erro!), fiz uma pesquisa rápida sobre as regras de uso da vírgula.
De cara, encontrei mais que uma regra, um princípio lógico: “uma oração na ordem direta não carece de vírgulas”. Daí, a gente já pode extrair uma conclusão: que um termo fora do seu lugar ideal sempre virá entre vírgulas. Por exemplo, se digo: “Devagarinho bebeu até cair”, se não coloco a vírgula antes do verbo, alguém (um estrangeiro, por exemplo) pode pensar que Devagarinho é o sujeito da oração – e, portanto, o bebum da frase – quando o que eu quero dizer é: “Bebeu devagarinho até cair”.
Logo, é possível criar não uma regra, mas um macete: se o que vem antes de um verbo numa frase não é o sujeito, provavelmente cabe uma vírgula aí.
Outra coisa: uma vírgula é como uma porta: se abrir, feche depois. Por exemplo: “Carlos, que estudou na mesma escola dos meus filhos (,) sempre foi um bom aluno.” Se aquela vírgula entre parenteses não for colocada a frase fica completamente sem nexo.
E aqui começa outra qualidade fundamental da vírgula: ela marca a entonação, cadência da frase – e é a entonação e a cadência que nos comunica o sentido da frase.
Por isso que se diz q a vírgula marca uma pausa. Não é exatamente isso, mas já dá uma ideia do que faz a vírgula. A vírgula marca uma nuance de voz. E é exatamente a nuance e voz que vai produzir sentido. Na verdade, o sentido está no tom com que pronunciamos as palavras, as nuances de voz que acrescentamos às frases, denotando ironia, perplexidade, raiva, ternura, etc. Sem isso a leitura se torna mecânica.
(Passei este texto no corretor do Word. Encontrei alguns erros, um deles crasso! Só não me peçam pra contar… Não digo isso para parecer bacana, mas para enfatizar: escrevam sempre com um dicionário à mão e usem sempre o corretor.)