O ponto de partida de uma boa redação ou de qualquer texto é um roteiro prévio que estruture o desenvolvimento do tema em argumentos. Nas primeiras aulas de um curso de redação a elaboração de um bom roteiro a partir da proposta temática é mais importante do que a redação em si. Por isso, nunca é demais insistir nesse ponto, fazendo da elaboração do roteiro – do “plano de vôo” como também gosto de chamar – ele próprio um texto que possa ser debatido depois.
O primeiro passo de um roteiro é a identificação das palavras-chave da proposta. Usarei como exemplo o tema que um aluno trouxe de sua escola. Eis o tema: “A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo?”
Quais as palavras-chave? A maneira mais simples de chegar a elas é por eliminação. Não é o método mais sutil ou elegante, mas é o mais simples, certamente. De cara, vamos cortar artigos, pronomes, preposições e deixar só os substantivos e adjetivos. O que resta? “violência sociedade brasileira mudar regras jogo”. Vamos operar mais uma filtragem, cortando agora os adjetivos e os substantivos que nos pareçam menos importantes: “violência sociedade mudar regras”. Agora já fica bem claro que o núcleo temático se concentra em duas palavras-chave: “violência regras”.
Uma rápida observação: localizar as palavras-chave não significa de maneira nenhuma esquecer todo resto. Este é um esforço de hierarquização, de ordenação das palavras em ordem crescente de importância. É como se fizéssemos uma operação de reengenharia: desmontamos a frase e depois a remontamos de novo.
Retornando: identificamos as palavras-chave do tema: violência e regras. Hora de refletir sobre elas. A primeira coisa que me ocorre pensar é que “regra” é sinônimo de… lei! Então agora temos “violência” e “lei”. Soa melhor, não?
E qual o tipo de relação que existe entre violência e lei? Há dois tipos básicos de relação entre idéias e palavras: identidade e oposição. Neste caso, partindo dessa premissa, é evidente que a relação entre violência e lei é uma relação de oposição. Podemos até criar uma equação, uma “equação semântica”: “Quanto menos lei, mais violência”. E, alternativamente: “Quanto mais violência, menos lei”.
Quando penso em violência, a associação mais imediata que me ocorre é com a idéia de… força! Uma força física mesmo que se aplica como argumento sobre algo ou alguém que não tem condições de reagir em pé de igualdade. Em resumo, quando penso em violência penso no que chamamos de “lei do mais forte”.
Por outro lado, quando penso lei qual a idéia que imediatamente me ocorre? A idéia de…. igualdade! “Todos são iguais perante a lei” é o princípio que rege todas as constituições e códigos de conduta.
Por que chegamos a essa conclusão tão rapidamente, num raciocínio quase intuitivo, que não precisou recorrer a provas empíricas ou argumentos complexos? Por que essas idéias nos saltam aos olhos? Porque as palavras já carregam em si o seu sentido. Elas são como que “resumos de idéias”. Mas isso é assunto para outro texto…
Então é possível dizer que, onde há violência, a lei não está sendo cumprida ou não é suficiente. Qual a palavra que comumente usamos para qualificar o descumprimento da lei? Acertou quem disse “impunidade”.
Finalmente, podemos dizer que a afirmação “Quanto menos lei, mais violência” e tudo mais que falamos rapidamente a respeito dela vale em qualquer tempo e lugar. Ou seja: trata-se de uma afirmação universal.
Como em qualquer texto é sempre mais recomendável partir do geral, do universal, para o particular, temos aqui então um bom ponto de partida para a redação: uma reflexão sobre a relação entre violência e lei. Esse será nosso primeiro bloco.
Mas, como dissemos antes e vale a pena repetir, localizar as palavras-chave não significa perder de vista todo o resto. Daquelas palavras que selecionamos lá em cima – “violência sociedade mudar regras” – restam “sociedade” e “mudar”. Bem, a sociedade a que se refere a proposta temática é a “sociedade brasileira”.
Então, nosso segundo bloco tratará da violência na sociedade brasileira. Mais exatamente, aplicaremos as considerações gerais do primeiro bloco à realidade específica do Brasil.
Aqui, vale uma nova digressão (e retornarei em outros textos a essa questão): há ditado que diz: “Sapateiro, não vá além das suas chinelas”. Ele é essencialmente uma recomendação de prudência. Minha recomendação a todo aquele que faz uma prova de redação é: seja honesto, fale de si, da sua experiência, em vez de se embrenhar pela história do Brasil ou da humanidade. Não é preciso voltar ao Descobrimento do Brasil para falar da violência na sociedade brasileira quando, desde o nascimento, se convive diariamente com manchetes de jornal e fatos cotidianos que ilustram essa violência.
Então, a menos que se tenha um sólido conhecimento da História, será muito mais seguro tomar como argumento ou prova a experiência pessoal, os fatos e histórias vivenciados e sobre os quais se pode falar com segurança ou honesta ambiguidade, em vez de se tentar em uma ou duas linhas sintetizar toda a História do Brasil sob um ponto de vista determinado – no caso, a violência. E quando falo “experiência pessoal” não me refiro exclusivamente ao que nos aconteceu, mas tudo que lemos ou sabemos por ouvir de pessoas próximas.
Enfim, em poucas palavras: seja você mesmo. É um lugar-comum, eu sei, mas exatamente porque quase sempre nos esquecemos disso – e não só quando escrevemos redações. Sobretudo porque “ser você mesmo” é admitir não se saber muito bem o que se é. Portanto, “ser você mesmo” é aceitar que nunca – ou só depois de muito tempo – saberemos o que somos. Mas não será por isso que fingiremos ser outro, tentando afetar um conhecimento que não se tem. Voltaremos a isso em outros textos, mas, resumindo: evite palavras rebuscadas ou cujo significado não conheça com certeza. E evite também argumentações complexas demais, “sociológicas” demais, que recuem demais no tempo e conduzam a conclusões pretensamente gerais.
Finalmente, restou-nos a última palavra: mudar. No primeiro bloco, apresentamos o tema em sua forma geral. No segundo bloco, o desenvolvemos, em sua aplicação específica. Agora, no terceiro bloco é a hora da conclusão.
Seguimos aqui um esquema bem básico de roteirização que desenvolveremos depois em outros textos: apresentação, desenvolvimento e conclusão. E também nos orientaremos pelo princípio geral, de que falamos há pouco, de partir do geral para o particular.
Escolhemos – pois se trata de uma escolha, o que significa dizer que havia outros caminhos possíveis – refletir sobre o que seria preciso mudar na sociedade para diminuir a violência. Nesse caso, trata-se de uma opinião, uma lista de sugestões que não deve se pretender definitiva nem única, mas deve necessariamente ser uma consequência da exposição do primeiro bloco e do desenvolvimento do segundo, onde o redator expôs sua vivência do tema.
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Dito tudo isto, convido você que chegou até aqui a escrever e me enviar um texto sobre o tema. Prometo corrigi-lo e comentá-lo tão logo o receba, sem julgar sua opinião e vivências, mas simplesmente me atendo à coesão do texto e sua qualidade argumentativa.