Sobre a coesão

Muito se fala nos manuais de redação em “coesão” e mais exatamente em “coesão textual”. Geralmente, a idéia de coesão vem associada à idéia de coerência, numa relação de equivalência.

Neste artigo, arriscarei outra abordagem. Em primeiro lugar, subordino a coesão ao objetivo primeiro de todo texto: a clareza. Minha idéia pode ser resumida assim: “Para alcançar clareza é preciso produzir coesão.”

Nesse sentido, é primordial fixar como regra que cada frase, cada parágrafo e o texto como um todo deve se desenvolver segundo o critério da coesão. Para explicar como se produz a coesão em um texto, tomei emprestado da filosofia três termos que aqui serão empregados como princípios geradores de coesão: correspondência, coerência e consistência. Vale frisar que esses termos têm emprego bem diverso na filosofia, ainda que mantenham aqui alguma proximidade com seu sentido original.

Esses princípios guardam íntima relação entre si, numa ordem crescente de profundidade, digamos assim. Grosso modo, a correspondência diz respeito às palavras; a coerência, às frases e a consistência ao parágrafo e ao texto como um todo.

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Coesão significa unidade entre partes. Ou seja, refere-se a uma qualidade só atribuível a formas complexas, constituídas por diversos elementos relacionados entre si. Quanto mais perfeita for a relação entre esses elementos, quanto mais perfeito for seu encaixe, digamos assim, maior será a impressão de unidade. Uma bola de futebol, por exemplo, é evidentemente constituída de partes, mas costuradas de tal modo que ela nos parece perfeitamente redonda e sem falhas. Uma frase, um parágrafo, um texto também são formas complexas constituídos por partes. A frase é composta de palavras. O parágrafo, por frases. O texto, por parágrafos. Portanto, para que um texto nos pareça coeso é preciso que as palavras das frases, as frases dos parágrafos e os parágrafos do texto mantenham entre si uma subordinação aos princípios de correspondência, coerência e consistência que caracterizam a coesão textual.

O princípio da correspondência pode ser resumido de um modo simples: “A cada palavra um objeto. A cada frase um fato”. Isso significa que, para cada elemento da idéia/quadro que queremos descrever, há uma palavra correspondente. Na construção de um texto, lidamos todo o tempo com a escolha das palavras mais precisas e adequadas. Podemos tomar por regra que, mesmo quando existem sinônimos, isto é, palavras de sentido equivalente, sempre há uma mais adequada à idéia ou objeto que queremos expressar ou indicar.

É preciso escolher não só os substantivos e verbos mais precisos, mas também decidir sobre a oportunidade de se usar adjetivos. Uma regra simples é só usar um adjetivo se ele de fato contribuir para a descrição do objeto ou do fato a que será relacionado. Adjetivos associados a qualidades sensíveis – peso, gosto, cor, textura, etc. – têm um sentido mais objetivo, mais facilmente aferível, do que aqueles associados a qualidades morais – aquelas qualidades que podem facilmente se reduzir ao ambíguo dualismo bem e mal. Nesse caso, o adjetivo introduz uma opinião que exige justificativa ou argumento e expõe o autor a controvérsias – desnecessárias em se tratando de um vestibular, por exemplo.

É evidente também que o princípio da correspondência é o que está mais imediatamente associado à clareza e à concisão, na medida em que quanto mais exata a correspondência entre palavra e objeto maior clareza e concisão.

O princípio da coerência diz respeito à sucessão das frases. É necessário que exista uma relação de verdade  e sentido entre as frases. Essa relação é estabelecida principalmente pelas conjunções e locuções conjuntivas.

Um bom encadeamento de idéias e argumentos se dá numa escala que parte do geral para o particular, do simples para o complexo, do menor para o maior – ou vice-versa, conforme o caso. O que importa é guardar essa idéia de relação e proporção, de associação e unidade, de identidade ou oposição,  entre as frases.

A coerência é como que uma “costura” que se associa ao “ritmo semântico” do texto, à sua estrutura básica (que é assunto de outro artigo).

O princípio da consistência é mais sutil porque diz respeito à solidez argumentativa do parágrafo e do texto como um todo. É o princípio da consistência que nos permite avaliar o quanto um texto, em aparência coerente e preciso (no sentido da correspondência), é mais ou menos verdadeiro e informativo ou mera peça retórica. Grosso modo, o princípio da consistência se relaciona á lógica interna do texto e sua aplicação exige, além de atenção, cultura, informação e algum conhecimento de lógica. Já na Grécia Antiga, os chamados sofistas desenvolviam técnicas retóricas para contornar inconsistências argumentativas. Arthur Schopenhauer escreveu “Como vencer um debate sem precisar ter razão”, onde expões 38 desses estratagemas “clássicos”. Vale a pena ler o livro, mas ele foge ao âmbito deste artigo.

Um texto, um parágrafo ou um trecho pode, portanto, ser coerente e preciso, mas inconsistente – intencionalmente, no caso dos retóricos, ou não intencionalmente, por ignorância ou inabilidade do autor. Generalização indevida, anacronismo, causalidade “fraca”, argumentação ad hominen, são algumas das causas de inconsistência mais comuns e evidentes.

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Vamos agora trabalhar alguns exemplos. O objetivo é refletir sobre os trechos seguintes e comentá-las segundo os princípios da correspondência, coerência e consistência.

- Desde o início dos tempos a violência é assunto dos seres humanos e assim continuará sendo por muito tempo.

Sob o ponto de vista da correspondência, a palavra “assunto” está mal empregada. Há uma aparente coerência, na medida em que parece afirmar que a violência é inata nos homens, o que é uma hipótese defensável, mas a repetição da palavra tempo em expressões com sentido oposto a torna inconsistente (se o homem é violento “desde o início dos tempos”, somos induzidos a pensar que isso continuará não “por muito tempo”, mas para sempre, porque seria uma condição inata). E se na continuação o autor não apresentar sólidos argumentos para fundamentar sua hipótese, certamente esse trecho se revelará inconsistente pela generalização indevida.

- As tartarugas azuis, com a maioria dos cetáceos, vivem cerca de 300 anos.

A frase parece coerente e consistente, mas a imprecisão (não-correspondência) do adjetivo “azuis” a torna falsa, pois não existem tartarugas azuis. Outro erro de correspondência: as tartarugas não são cetáceos, mas quelônios. Essa imprecisão (não-correspondência) também produz inconsistência

- No Rio de Janeiro, segundo as estatísticas, os índices de criminalidade caem em média 1% nos dias de jogo do Flamengo.

A frase é coerente e precisa, mas (quase) obviamente inconsistente, porque traz implícita a generalização “todo flamenguista é criminoso”, que mesmo atenuada para “quase todo flamenguista é criminoso” permanece inconsistente, da mesma forma que “quase todo criminoso é flamenguista”. A inconsistência nesses dois casos de “generalização atenuada” é simples de demonstrar: se a torcida rubro-negra é a maior de todas, é óbvio que deve haver mais flamenguistas em todas as classes sociais e categorias profissionais. Logo apesar de até poder ser verdade que “a maioria dos criminosos é flamenguista” nenhuma relação consistente pode ser derivada entre criminalidade e “flamenguismo”.

- A burguesia romana apoiava Julio César e financiou suas campanhas.

A frase peca por um anacronismo comum que é o de aplicar categorias próprias de uma teoria de análise da história desenvolvida no século 19 em civilizações que lhe são anteriores.

Vírgulas: gramática e estilo

Repare o uso das vírgulas nesta frase:

“Tímido e inseguro, em alguns momentos, mostrava-se um líder decisivo em outros.”

Repare a sutileza… A frase soa mal quando lida e nos produz uma certa confusão. Mas, aparentemente, o sentido não se altera. Ficamos sabendo que, dependendo das circunstâncias, o comportamento do general Patton (é ele o personagem) pode oscilar de um extremo a outro.

Mas a primeira vírgula nos induz a pensar que “em algum momentos” se refere à frase seguinte: “mostrava-se um líder decisivo.

De fato, se você fizer aí o ponto final, o sentido será esse.

No entanto, a frase prossegue e finaliza com “em outros”. Logo, somos levados a concluir que “em alguns momentos” se referia a “Tímido e inseguro” e não a “mostrava-se um líder decisivo”, como chegamos a pensar.

E o que nos induziu a isso? A vírgula. Portanto, essa vírgula não devia estar aí.

Lembre-se da regra: “a ordem direta não demanda vírgula”. É essa regra, veja só, que justifica não haver vírgula entre “decisivo” e “em outros”. Ou seja: não há coerência. A mesma regra é ignorada num momento e aplicada no momento seguinte.

Resultado: eu, ao menos, perdi tempo relendo a frase para conferir se o sentido era aquele mesmo.

Conclusão: melhor seria não usar a vírgula.

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Dito isto, vamos complicar.

Se a nossa intenção fosse enfatizar a alternância entre polos emocionais opostos, talvez quiséssemos reforçar as expressões de tempo colocando-as entre vírgulas.

” Tímido e inseguro, em alguns momentos, mostrava-se um líder decisivo em outros.”

Ou mesmo:

” Tímido e inseguro, em alguns momentos, mostrava-se um líder decisivo, em outros.”

Repare que essas vírgulas, desnecessárias gramaticalmente, querem marcar a necessidade de uma inflexão de voz que enfatizasse a bipolaridade.

Nesse caso, teríamos então de buscar uma solução estilística para resolver a ambiguidade produzida no texto como está.

O que você sugere?

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Eu sugiro simplesmente trocar de lugar “em alguns momentos”, passando-o para o começo da frase.

“Em alguns momentos, tímido e inseguro, mostrava-se um líder decisivo em outros.”

Falta de revisão

Estou lendo um livro muito bom, mas constantemente maltratado pela falta de uma revisão semântica que tornasse mais clara e concisa a tradução.

Por exemplo, leia atentamente os trechos seguintes e procure soluções para melhorar o texto.
Depois, compare com as alternativas que proponho, mais abaixo.

“É Ele que nos anuncia a verdadeira imagem divina e que continua a nos libertar das projeções que constantemente nos fazemos de Deus e que a Este ligamos.”

Ainda que os valores do bem, do belo e do verdadeiro, bem como a verdadeira humanidade, sejam realizados em outros lugares também, (…)”

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Repare a quantidade de “que”: quatro! Quando bastaria um.E um deles, o primeiro, a rigor deveria ser substituído por “quem”, posi se refere a pessoa e não a coisa.

E há ainda o demonstrativo “este”, em vez do pronome pessoal.

“Ele nos anuncia a verdadeira imagem divina e continua a nos libertar das projeções que constantemente nos fazemos de Deus e a Ele ligamos.”

Imagino que o tradutor tenha usado o “este” em lugar do “ele” para que não se confundisse o Pai e o Filho. Não acredito que chegue a ser um erro, vou pesquisar, mas soa muito mal.

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No segundo trecho, repare a quantidade de “bem” que aparece na frase, produzindo inclusive uma confusão semântica: “bem como”, no caso, é uma locução conjuntiva ou uma definição de Bem?A alternativa correta, acredito, é a primeira. Mas a segunda também parece possível.

A solução é simplesmente cortar.

Por uma questão de gosto, substituí  “ainda que” por “mesmo que”.

“Mesmo que os valores do bem, do belo e do verdadeiro, e da verdadeira humanidade, sejam realizados em outros lugares, (…)”.