As palavras

As palavras estão e não estão no mundo. Pensamos com palavras, elas nomeiam coisas existentes no mundo, mas elas mesmas não existem fora de nosso universo mental e cultural. Elas são o que em informática chamamos de “interface”, intermeditários, pontes entre elementos ou regiões que de outro modo não se comunicariam.

O que são as palavras exatamente? São designações genéricas, categorias atribuídas a seres singulares e existentes. Dizemos “cadeira”, “amor”, “passear”, “vermelho”, “bonito” e cada uma dessas palavras, apesar de pertencerem a categorias distintas (substantivo, adjetivo, verbo), nomeiam algo que todos nós sabemos imediatamente o que é. No entanto, a palavra não dá conta da dimensão singular própria do objeto nomeado e nem tampouco da relação subjetiva que o usuário da palavra mantém com o objeto nomeado.

A palavra “cadeira” abarca uma infinidade de tipos de cadeiras reais ou imagináveis. Ela nos remete a uma forma e sobretudo a uma função. A palavra “amor” é ainda mais complexa porque remete a um sentimento que tem diversos modos – amor materno, paterno, filial, sexual, fraternal, etc. – e intensidades absolutamente imensuráveis. O adjetivo “bonito” está carregado de uma ambiguidade semelhante, além de profundamente conectado ao sentimento do amor. Não a toa se diz “Quem ama o feio, bonito lhe parece”. O verbo “passear” talvez pareça mais fácil de compartilhar, mas de todas as palavras “vermelho” ou qualquer cor é que escapa inclusive a qualquer definição: não se pode dizer do vermelho senão que é vermelho.

Então é mais ou menos evidente que as palavras são o fundamento da comunicação e do registro, mas parecem perder ‘objetividade” e se tornar mais ambíguas quanto mais pessoal e subjetiva se torna a intenção. Imprescindível e frustrante, a palavra diz quase tudo, menos o essencial, o que de fato importa.

Objetivamente, as palavras servem para formar descrições, definições e juízos. Em síntese, pensamos com palavras. No entanto, o próprio pensamento engendra um artifício para alcançar o inacessível: a analogia.

Pela analogia, a palavra se lança a uma espécie de segundo grau da comunicação: partindo da objetividade sedimentada em descrições, descrições e juízos, torna-se capaz de expressar a subjetividade. As associações analógicas atam elementos aparentemente díspares que, por sua singularidade e supresa, parecem, por outro lado, nos revelar camadas até então invísiveis das coisas. É pela analogia que a palavra salta do terreno mundano da comunicação e do registro para a dimensão inefável da arte. Toda metáfora nos insinua uma hipótese maravilhosa e assutadora: tudo é um. Todas as coisas estão ligadas minuciosamente umas as outras por uma rede de sentido. A verdade então, longe de ser relativa, é inesgotável.

Sobre a coesão

Muito se fala nos manuais de redação em “coesão” e mais exatamente em “coesão textual”. Geralmente, a idéia de coesão vem associada à idéia de coerência, numa relação de equivalência.

Neste artigo, arriscarei outra abordagem. Em primeiro lugar, subordino a coesão ao objetivo primeiro de todo texto: a clareza. Minha idéia pode ser resumida assim: “Para alcançar clareza é preciso produzir coesão.”

Nesse sentido, é primordial fixar como regra que cada frase, cada parágrafo e o texto como um todo deve se desenvolver segundo o critério da coesão. Para explicar como se produz a coesão em um texto, tomei emprestado da filosofia três termos que aqui serão empregados como princípios geradores de coesão: correspondência, coerência e consistência. Vale frisar que esses termos têm emprego bem diverso na filosofia, ainda que mantenham aqui alguma proximidade com seu sentido original.

Esses princípios guardam íntima relação entre si, numa ordem crescente de profundidade, digamos assim. Grosso modo, a correspondência diz respeito às palavras; a coerência, às frases e a consistência ao parágrafo e ao texto como um todo.

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Coesão significa unidade entre partes. Ou seja, refere-se a uma qualidade só atribuível a formas complexas, constituídas por diversos elementos relacionados entre si. Quanto mais perfeita for a relação entre esses elementos, quanto mais perfeito for seu encaixe, digamos assim, maior será a impressão de unidade. Uma bola de futebol, por exemplo, é evidentemente constituída de partes, mas costuradas de tal modo que ela nos parece perfeitamente redonda e sem falhas. Uma frase, um parágrafo, um texto também são formas complexas constituídos por partes. A frase é composta de palavras. O parágrafo, por frases. O texto, por parágrafos. Portanto, para que um texto nos pareça coeso é preciso que as palavras das frases, as frases dos parágrafos e os parágrafos do texto mantenham entre si uma subordinação aos princípios de correspondência, coerência e consistência que caracterizam a coesão textual.

O princípio da correspondência pode ser resumido de um modo simples: “A cada palavra um objeto. A cada frase um fato”. Isso significa que, para cada elemento da idéia/quadro que queremos descrever, há uma palavra correspondente. Na construção de um texto, lidamos todo o tempo com a escolha das palavras mais precisas e adequadas. Podemos tomar por regra que, mesmo quando existem sinônimos, isto é, palavras de sentido equivalente, sempre há uma mais adequada à idéia ou objeto que queremos expressar ou indicar.

É preciso escolher não só os substantivos e verbos mais precisos, mas também decidir sobre a oportunidade de se usar adjetivos. Uma regra simples é só usar um adjetivo se ele de fato contribuir para a descrição do objeto ou do fato a que será relacionado. Adjetivos associados a qualidades sensíveis – peso, gosto, cor, textura, etc. – têm um sentido mais objetivo, mais facilmente aferível, do que aqueles associados a qualidades morais – aquelas qualidades que podem facilmente se reduzir ao ambíguo dualismo bem e mal. Nesse caso, o adjetivo introduz uma opinião que exige justificativa ou argumento e expõe o autor a controvérsias – desnecessárias em se tratando de um vestibular, por exemplo.

É evidente também que o princípio da correspondência é o que está mais imediatamente associado à clareza e à concisão, na medida em que quanto mais exata a correspondência entre palavra e objeto maior clareza e concisão.

O princípio da coerência diz respeito à sucessão das frases. É necessário que exista uma relação de verdade  e sentido entre as frases. Essa relação é estabelecida principalmente pelas conjunções e locuções conjuntivas.

Um bom encadeamento de idéias e argumentos se dá numa escala que parte do geral para o particular, do simples para o complexo, do menor para o maior – ou vice-versa, conforme o caso. O que importa é guardar essa idéia de relação e proporção, de associação e unidade, de identidade ou oposição,  entre as frases.

A coerência é como que uma “costura” que se associa ao “ritmo semântico” do texto, à sua estrutura básica (que é assunto de outro artigo).

O princípio da consistência é mais sutil porque diz respeito à solidez argumentativa do parágrafo e do texto como um todo. É o princípio da consistência que nos permite avaliar o quanto um texto, em aparência coerente e preciso (no sentido da correspondência), é mais ou menos verdadeiro e informativo ou mera peça retórica. Grosso modo, o princípio da consistência se relaciona á lógica interna do texto e sua aplicação exige, além de atenção, cultura, informação e algum conhecimento de lógica. Já na Grécia Antiga, os chamados sofistas desenvolviam técnicas retóricas para contornar inconsistências argumentativas. Arthur Schopenhauer escreveu “Como vencer um debate sem precisar ter razão”, onde expões 38 desses estratagemas “clássicos”. Vale a pena ler o livro, mas ele foge ao âmbito deste artigo.

Um texto, um parágrafo ou um trecho pode, portanto, ser coerente e preciso, mas inconsistente – intencionalmente, no caso dos retóricos, ou não intencionalmente, por ignorância ou inabilidade do autor. Generalização indevida, anacronismo, causalidade “fraca”, argumentação ad hominen, são algumas das causas de inconsistência mais comuns e evidentes.

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Vamos agora trabalhar alguns exemplos. O objetivo é refletir sobre os trechos seguintes e comentá-las segundo os princípios da correspondência, coerência e consistência.

- Desde o início dos tempos a violência é assunto dos seres humanos e assim continuará sendo por muito tempo.

Sob o ponto de vista da correspondência, a palavra “assunto” está mal empregada. Há uma aparente coerência, na medida em que parece afirmar que a violência é inata nos homens, o que é uma hipótese defensável, mas a repetição da palavra tempo em expressões com sentido oposto a torna inconsistente (se o homem é violento “desde o início dos tempos”, somos induzidos a pensar que isso continuará não “por muito tempo”, mas para sempre, porque seria uma condição inata). E se na continuação o autor não apresentar sólidos argumentos para fundamentar sua hipótese, certamente esse trecho se revelará inconsistente pela generalização indevida.

- As tartarugas azuis, com a maioria dos cetáceos, vivem cerca de 300 anos.

A frase parece coerente e consistente, mas a imprecisão (não-correspondência) do adjetivo “azuis” a torna falsa, pois não existem tartarugas azuis. Outro erro de correspondência: as tartarugas não são cetáceos, mas quelônios. Essa imprecisão (não-correspondência) também produz inconsistência

- No Rio de Janeiro, segundo as estatísticas, os índices de criminalidade caem em média 1% nos dias de jogo do Flamengo.

A frase é coerente e precisa, mas (quase) obviamente inconsistente, porque traz implícita a generalização “todo flamenguista é criminoso”, que mesmo atenuada para “quase todo flamenguista é criminoso” permanece inconsistente, da mesma forma que “quase todo criminoso é flamenguista”. A inconsistência nesses dois casos de “generalização atenuada” é simples de demonstrar: se a torcida rubro-negra é a maior de todas, é óbvio que deve haver mais flamenguistas em todas as classes sociais e categorias profissionais. Logo apesar de até poder ser verdade que “a maioria dos criminosos é flamenguista” nenhuma relação consistente pode ser derivada entre criminalidade e “flamenguismo”.

- A burguesia romana apoiava Julio César e financiou suas campanhas.

A frase peca por um anacronismo comum que é o de aplicar categorias próprias de uma teoria de análise da história desenvolvida no século 19 em civilizações que lhe são anteriores.

As palavras-chave

O ponto de partida de uma boa redação ou de qualquer texto é um roteiro prévio que estruture o desenvolvimento do tema em argumentos. Nas primeiras aulas de um curso de redação a elaboração de um bom roteiro a partir da proposta temática é mais importante do que a redação em si. Por isso, nunca é demais insistir nesse ponto, fazendo da elaboração do roteiro – do “plano de vôo” como também gosto de chamar – ele próprio um texto que possa ser debatido depois.

O primeiro passo de um roteiro é a identificação das palavras-chave da proposta. Usarei como exemplo o tema que um aluno trouxe de sua escola. Eis o tema: “A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo?”

Quais as palavras-chave? A maneira mais simples de chegar a elas é por eliminação. Não é o método mais sutil ou elegante, mas é o mais simples, certamente. De cara, vamos cortar artigos, pronomes, preposições e deixar só os substantivos e adjetivos. O que resta? “violência sociedade brasileira mudar regras jogo”. Vamos operar mais uma filtragem, cortando agora os adjetivos e os substantivos que nos pareçam menos importantes: “violência sociedade mudar regras”. Agora já fica bem claro que o núcleo temático se concentra em duas palavras-chave: “violência regras”.

Uma rápida observação: localizar as palavras-chave não significa de maneira nenhuma esquecer todo resto. Este é um esforço de hierarquização, de ordenação das palavras em ordem crescente de importância. É como se fizéssemos uma operação de reengenharia: desmontamos a frase e depois a remontamos de novo.

Retornando: identificamos as palavras-chave do tema: violência e regras. Hora de refletir sobre elas. A primeira coisa que me ocorre pensar é que “regra” é sinônimo de… lei! Então agora temos “violência” e “lei”. Soa melhor, não?

E qual o tipo de relação que existe entre violência e lei? Há dois tipos básicos de relação entre idéias e palavras: identidade e oposição. Neste caso, partindo dessa premissa, é evidente que a relação entre violência e lei é uma relação de oposição. Podemos até criar uma equação, uma “equação semântica”: “Quanto menos lei, mais violência”. E, alternativamente: “Quanto mais violência, menos lei”.

Quando penso em violência, a associação mais imediata que me ocorre é com a idéia de… força! Uma força física mesmo que se aplica como argumento sobre algo ou alguém que não tem condições de reagir em pé de igualdade. Em resumo, quando penso em violência penso no que chamamos de “lei do mais forte”.

Por outro lado, quando penso lei qual a idéia que imediatamente me ocorre? A idéia de…. igualdade! “Todos são iguais perante a lei” é o princípio que rege todas as constituições e códigos de conduta.

Por que chegamos a essa conclusão tão rapidamente, num raciocínio quase intuitivo, que não precisou recorrer a provas empíricas ou argumentos complexos? Por que essas idéias nos saltam aos olhos? Porque as palavras já carregam em si o seu sentido. Elas são como que “resumos de idéias”. Mas isso é assunto para outro texto…

Então é possível dizer que, onde há violência, a lei não está sendo cumprida ou não é suficiente. Qual a palavra que comumente usamos para qualificar o descumprimento da lei? Acertou quem disse “impunidade”.

Finalmente, podemos dizer que a afirmação “Quanto menos lei, mais violência” e tudo mais que falamos rapidamente a respeito dela vale em qualquer tempo e lugar. Ou seja: trata-se de uma afirmação universal.

Como em qualquer texto é sempre mais recomendável partir do geral, do universal, para o particular, temos aqui então um bom ponto de partida para a redação: uma reflexão sobre a relação entre violência e lei. Esse será nosso primeiro bloco.

Mas, como dissemos antes e vale a pena repetir, localizar as palavras-chave não significa perder de vista todo o resto. Daquelas palavras que selecionamos lá em cima – “violência sociedade mudar regras” – restam “sociedade” e “mudar”. Bem, a sociedade a que se refere a proposta temática é a “sociedade brasileira”.

Então, nosso segundo bloco tratará da violência na sociedade brasileira. Mais exatamente, aplicaremos as considerações gerais do primeiro bloco à realidade específica do Brasil.

Aqui, vale uma nova digressão (e retornarei em outros textos a essa questão): há ditado que diz: “Sapateiro, não vá além das suas chinelas”. Ele é essencialmente uma recomendação de prudência. Minha recomendação a todo aquele que faz uma prova de redação é: seja honesto, fale de si, da sua experiência, em vez de se embrenhar pela história do Brasil ou da humanidade. Não é preciso voltar ao Descobrimento do Brasil para falar da violência na sociedade brasileira quando, desde o nascimento, se convive diariamente com manchetes de jornal e fatos cotidianos que ilustram essa violência.

Então, a menos que se tenha um sólido conhecimento da História, será muito mais seguro tomar como argumento ou prova a experiência pessoal, os fatos e histórias vivenciados e sobre os quais se pode falar com segurança ou honesta ambiguidade, em vez de se tentar em uma ou duas linhas sintetizar toda a História do Brasil sob um ponto de vista determinado – no caso, a violência. E quando falo “experiência pessoal” não me refiro exclusivamente ao que nos aconteceu, mas tudo que lemos ou sabemos por ouvir de pessoas próximas.

Enfim, em poucas palavras: seja você mesmo. É um lugar-comum, eu sei, mas exatamente porque quase sempre nos esquecemos disso – e não só quando escrevemos redações. Sobretudo porque “ser você mesmo” é admitir não se saber muito bem o que se é. Portanto, “ser você mesmo” é aceitar que nunca – ou só depois de muito tempo – saberemos o que somos. Mas não será por isso que fingiremos ser outro, tentando afetar um conhecimento que não se tem. Voltaremos a isso em outros textos, mas, resumindo: evite palavras rebuscadas ou cujo significado não conheça com certeza. E evite também argumentações complexas demais, “sociológicas” demais, que recuem demais no tempo e conduzam a conclusões pretensamente gerais.

Finalmente, restou-nos a última palavra: mudar. No primeiro bloco, apresentamos o tema em sua forma geral. No segundo bloco, o desenvolvemos, em sua aplicação específica. Agora, no terceiro bloco é a hora da conclusão.

Seguimos aqui um esquema bem básico de roteirização que desenvolveremos depois em outros textos: apresentação, desenvolvimento e conclusão. E também nos orientaremos pelo princípio geral, de que falamos há pouco, de partir do geral para o particular.

Escolhemos – pois se trata de uma escolha, o que significa dizer que havia outros caminhos possíveis – refletir sobre o que seria preciso mudar na sociedade para diminuir a violência. Nesse caso, trata-se de uma opinião, uma lista de sugestões que não deve se pretender definitiva nem única, mas deve necessariamente ser uma consequência da exposição do primeiro bloco e do desenvolvimento do segundo, onde o redator expôs sua vivência do tema.

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Dito tudo isto, convido você que chegou até aqui a escrever e me enviar um texto sobre o tema. Prometo corrigi-lo e comentá-lo tão logo o receba, sem julgar sua opinião e vivências, mas simplesmente me atendo à coesão do texto e sua qualidade argumentativa.