Vírgulas: gramática e estilo

Repare o uso das vírgulas nesta frase:

“Tímido e inseguro, em alguns momentos, mostrava-se um líder decisivo em outros.”

Repare a sutileza… A frase soa mal quando lida e nos produz uma certa confusão. Mas, aparentemente, o sentido não se altera. Ficamos sabendo que, dependendo das circunstâncias, o comportamento do general Patton (é ele o personagem) pode oscilar de um extremo a outro.

Mas a primeira vírgula nos induz a pensar que “em algum momentos” se refere à frase seguinte: “mostrava-se um líder decisivo.

De fato, se você fizer aí o ponto final, o sentido será esse.

No entanto, a frase prossegue e finaliza com “em outros”. Logo, somos levados a concluir que “em alguns momentos” se referia a “Tímido e inseguro” e não a “mostrava-se um líder decisivo”, como chegamos a pensar.

E o que nos induziu a isso? A vírgula. Portanto, essa vírgula não devia estar aí.

Lembre-se da regra: “a ordem direta não demanda vírgula”. É essa regra, veja só, que justifica não haver vírgula entre “decisivo” e “em outros”. Ou seja: não há coerência. A mesma regra é ignorada num momento e aplicada no momento seguinte.

Resultado: eu, ao menos, perdi tempo relendo a frase para conferir se o sentido era aquele mesmo.

Conclusão: melhor seria não usar a vírgula.

* * *

Dito isto, vamos complicar.

Se a nossa intenção fosse enfatizar a alternância entre polos emocionais opostos, talvez quiséssemos reforçar as expressões de tempo colocando-as entre vírgulas.

” Tímido e inseguro, em alguns momentos, mostrava-se um líder decisivo em outros.”

Ou mesmo:

” Tímido e inseguro, em alguns momentos, mostrava-se um líder decisivo, em outros.”

Repare que essas vírgulas, desnecessárias gramaticalmente, querem marcar a necessidade de uma inflexão de voz que enfatizasse a bipolaridade.

Nesse caso, teríamos então de buscar uma solução estilística para resolver a ambiguidade produzida no texto como está.

O que você sugere?

* * *

Eu sugiro simplesmente trocar de lugar “em alguns momentos”, passando-o para o começo da frase.

“Em alguns momentos, tímido e inseguro, mostrava-se um líder decisivo em outros.”

Ter de/ Ter que

Reproduzo abaixo um post de Reinaldo Azevedo que resume de modo cômico o uso do “Ter de”.  Duvido que, depois da leitura do post, alguém ainda venha a usar “Tem que”.  Grifei em negrito o essencial e, no fim, coloquei o link para o post original.

“No post em que anunciei que retardaria um tanto a minha volta, escrevi: “Tive de resolver alguns problemas inesperados. Volto na madrugada de domingo para segunda. Até lá.”. Muito bem.

Há um vagabundo que não sai daqui e se identifica como “Golpista da Oscar Freire”. Para quem não é de São Paulo, informo: a Oscar Freire é considerada a rua mais, digamos, “chique” e cara da cidade. Com isso, o cretino, tentando ser irônico, busca carimbar em meus leitores a pecha de ricos e golpistas. Ignora que ricos e golpistas apóiam o PT. Ele aparece aqui todo dia. Hoje decidi lhe conceder uma graça. Escreve ele sobre o meu post (segue conforme veio):
“Problemas com a gramatica? ‘tive de’ ou ‘tive que’? Nao se apresse, afinal seus servicos sao absolutamente dispensaveis.”

Ele escreveu assim mesmo. Vamos lá. “Gramática” continua com acento, mesmo segundo a nova regra, dado que é uma proparoxítona. Mas ele pode alegar que está com um teclado não habilitado para o português, daí a ausência do til em “não” e “são”, do cedilha em “serviços” e do acento em “dispensáveis”. Mas e o “tive de”?

Eu sempre me encanto quando uma besta ao quadrado como essa decide me corrigir. Quem acha que tanto faz empregar “tive de” e “tive que” pode ser apenas um sabido modernoso, o que não é o caso do Tio Rei, que não é modernoso. Quem acha que “tive de” está errado é SÓ UM ANALFABETO ARROGANTE, porque, de fato, essa é a forma correta. O “de” é uma preposição, que integra uma locução verbal. Eu estou entre aqueles que não aceitam a forma “tive que” porque não aceitam que esse “que” possa ser considerado uma preposição. O “que” só pode ser digerido como conjunção — ligando orações (”A besta de que lhe falei escreveu para o blog) —, pronome indefinido (”Que besta escreveu para o blog?”) ou advérbio: “Que besta escreveu para o blog, hein!”

Para ler o post original, clique aqui

Vírgulas

Fiz a revisão semântica da monografia de uma amiga. O texto já passara por um revisor o que, pensei, nos pouparia tempo. Engano meu. À parte os erros de concordância e ortografia que tive de corrigir, ainda padeci com uma das coisas que mais me irritam num texto: o uso aparentemente aleatório das vírgulas.

Ferreira Gullar, nos anos 60, criou a máxima: “A crase não foi feita para humilhar ninguem”. Setenta anos depois, digo eu, parafraseando Gullar: “A vírgula não foi feita para humilhar ninguém”. Mas humilha.

Há setenta anos, penava-se com a crase que tem lá sua complexidade. Hoje, nem mais a vírgula se aprende a usar. Um sinal da decadência do ensino do Português. É humilhante, sim. Ainda mais quando o texto foi lido por alguém que se intitula revisor e cobrou (caro!) pelo trabalho.

É humilhante porque o uso da vírgula é relativamente simples. Como meu uso da vírgula é quase intuitivo, prático, resultado de anos de leitura e escrita diárias (e ainda erro!), fiz uma pesquisa rápida sobre as regras de uso da vírgula.
De cara, encontrei mais que uma regra, um princípio lógico: “uma oração na ordem direta não carece de vírgulas”. Daí, a gente já pode extrair uma conclusão: que um termo fora do seu lugar ideal sempre virá entre vírgulas. Por exemplo, se digo: “Devagarinho bebeu até cair”, se não coloco a vírgula antes do verbo, alguém (um estrangeiro, por exemplo) pode pensar que Devagarinho é o sujeito da oração – e, portanto, o bebum da frase – quando o que eu quero dizer é: “Bebeu devagarinho até cair”.

Logo, é possível criar não uma regra, mas um macete: se o que vem antes de um verbo numa frase não é o sujeito, provavelmente cabe uma vírgula aí.

Outra coisa: uma vírgula é como uma porta: se abrir, feche depois. Por exemplo: “Carlos, que estudou na mesma escola dos meus filhos (,) sempre foi um bom aluno.” Se aquela vírgula entre parenteses não for colocada a frase fica completamente sem nexo.

E aqui começa outra qualidade fundamental da vírgula: ela marca a entonação, cadência da frase – e é a entonação e a cadência que nos comunica o sentido da frase.

Por isso que se diz q a vírgula marca uma pausa. Não é exatamente isso, mas já dá uma ideia do que faz a vírgula. A vírgula marca uma nuance de voz. E é exatamente a nuance e voz que vai produzir sentido. Na verdade, o sentido está no tom com que pronunciamos as palavras, as nuances de voz que acrescentamos às frases, denotando ironia, perplexidade, raiva, ternura, etc. Sem isso a leitura se torna mecânica.

(Passei este texto no corretor do Word. Encontrei alguns erros, um deles crasso! Só não me peçam pra contar… Não digo isso para parecer bacana, mas para enfatizar: escrevam sempre com um dicionário à mão e usem sempre o corretor.)