Veranico

Começaram os melhores dias do ano para quem é carioca: os dias de veranico, calmos e cálidos, que começam agora pelo fim de março e se estendem até meados de maio.

Uma garça brança cruza o céu azul-azul, imaculado de nuvens. Súbita e silenciosa, ela passa rápida como um piscar de olho cúmplice a confirmar minha impressão. A Criação se impõe ao mundo dos homens se temos um corpo que genuinamente sinta o desenrolar da eternidade, esse aparente paradoxo.

A política, a violência, o insegurança, as decepções pessoais, mesmo a nódoa de tristeza que parece inseparável do amor, da fé e da esperança – nada disso é capaz de sobrepujar essa percepção da presença do Criador e de suas hostes em tudo ao redor: não há o que temer. Mas como explicar isso aos que não crêem – ou não crêem o bastante – ou pensam ter motivos para não crer – ou crêem mas não se crêem entre os eleitos? Eleitos somos todos os que crêem, esse outro aparente paradoxo.

O mistério do corpo

Será maior o anjo do que esta rosa,
tão única quanto as incontáveis rosas sucedidas
desde o primeiro dia da Criação?
Será menor a inteligência que desta rosa abstrai a visão da rosa eterna
do que aquela que apenas essa ideal e imutável rosa vê?
Será melhor estar desde sempre à eternidade confiado
sem do tempo conhecer as delícias e agruras,
ou terá sido por inveja deste corpo – perecível porta do eterno –
que o inferno foi criado?

Consolações

Saber que o corpo não é só a carne me anima e consola. O mundo tenta a alma com ameaças e promessas que à carne estiolam, e quase cinde o que em mim é eternidade. Salva-me a cruz, o dogma, o mistério. Creio. E espero. A luz é tanta que, se não for puro, o olho cega. Mas se é puro, o olho humildemente fecha-se em face do que só pode ver o corpo inteiro. E vislumbra o Céu, que, breve, se anuncia aos seus, os que esperam.

Oração

Tão quieto está o mundo, que me confundo com as horas e assim passo o começo da manhã convosco, imerso no silêncio e na escuridão dos olhos em repouso. Rezo, quase sem palavras, pois nada peço, senão a conversão daqueles que mais amo, porque quero tê-los no céu conosco. E agradeço, por achardes que mereço o muito que me dais. Um só coração somos agora, e quase nunca lá fora estou tão vivo: sou só um corpo que ora como se dormisse, e me sinto imenso em Vós disperso.

Flores na janela

A vizinha ganhou flores… Ou será “o vizinho comprou flores”? Na verdade, um vasinho de flores – que daqui me parecem aquelas que eu erradamente chamo de begônias. Digo que se for vizinha ganhou e se for vizinho comprou porque sou um sujeito antigo. Hoje já vivemos num tempo em que há esse lado bom de também as mulheres surpreenderem os homens com flores.

Mas deixemos assim e sigamos adiante…

Moro de fundos e minhas janelas dão para os apartamentos de fundos da rua do outro quarteirão. Na verdade, nunca vejo nem esse, nem os outros vizinhos desse prédio. São uns apartamentos de quarto e sala conjugados, até grandes para o padrão moderno. Em todos, há uma só janela onde o sol bate quase toda a manhã – talvez por isso, e por uma busca insensata de privacidade, todos os apartamentos vivem fechados atrás de grossas cortinas que raramente são abertas.

Então como sei que o vizinho ou a vizinha comprou ou ganhou flores? Porque ele ou ela teve a delicadeza de abrir metade da cortina e deixar as flores tomando sol. Provavelmente já saiu para trabalhar. Hoje é dia de semana e já são quase nove da manhã. Além disso, a janela está fechada, prudência comum de quem vai passar o dia fora. Mas as florizinhas estão lá, meio espremidas entre a cortina e o vidro, tomando sol, satisfeitíssimas, presumo.

É a primeira vez que me dou conta de que há um ser humano atrás daquelas cortinas. Nunca o vi. Mas já nutro por ele um carinho fraterno, discreto, como se já fizesse parte das minhas orações.