No dia do Juízo

… e então finalmente se fecharão as tuas chagas,
e já não sangrará teu coração de fogo,
livre da cruz e dos espinhos.
E então finalmente as trevas se converterão
em esquecimento, o genuíno perdão
que devolverá à figueira o que lhe é devido.

Feliz aniversário

Hoje você faria 96 anos.

Sinto saudades de você. Sinto saudades do filho que não fui. Vejo outros senhores de braço dado com suas mães quase centenárias caminhando juntos lentamente e sinto inveja deles.

Distingo em alguns uma expressão de resignada má vontade, tão ocasional quanto humana. Aceitam, não a própria cruz – o que soa muito pesado, e o fardo é leve – mas simplesmente seguem o mandamento. Nada trágico, portanto. Só a lei. Não é tão difícil ser bom… Mas “non serviam!” sempre insinua-se sussurrando argumentos contra o que é singelo…

Lembro de tuas mãos, o toque delicado delas, tão finas agora no fim, como se estivessem mesmo próximas de alcançar seu perfeito acabamento de flor. Mãos de menina – minha mãe, filha minha. Sinto saudades. Sinto saudades do pai que não fui.

A primeira chuva

Chove com a tímida delicadeza de um céu desacostumado a chover depois da longa estiagem de um verão cruel. O úmido silêncio da madrugada me impregna de uma alegria sem esperança, uma espécie de tristeza que não dói porque está enraizada em Deus – vivo e verdadeiro. Somos tão sozinhos os dois que juntos nos bastamos. E assim tudo se torna fácil – apesar de.

Claro, minha solidão não é a do Pai antes da Criação, nem a do Filho no jardim das Oliveiras, mas a solidão do pecador que crê, e assim, nem bem pecador é, e nem crente. Sei que, por indeciso, perco o mundo sem por isso merecer  a eternidade, salvo se Deus vier a derramar sobre mim sua misericórdia.

A lichia

Me perguntam da lichia…

Está parecendo uma cheer leader animadíssima. Pelas mãos de Paloma, ela ganhou vigor e exuberância. As folhas cresceram, verdes e brilhantes. “Pelas mãos da Paloma..” É engraçado reparar como tudo que é vivo contamina de vida o que está ao redor, num diálogo de intensidades e gestos.

A mulher e suas plantas…

Falamos tanto do ser, do Ser e esquecemos que o ser é a vida.

Reduzimos a vida à existência, a um mero epifenômeno de uma essência quase inapreensível, senão de modo fugaz e esquemático. Fazemos da existência a escada para a essência e, quando a atingimos, jogamos fora a escada. E nos agarramos a um fantasma. De que nos servem as essências? Você o demonstra em gestos simples e carinhosos em seu diálogo amoroso com suas plantas. Por suas mãos, Paloma… Parece que estamos destinados ao amor.

Em contraponto, eu aqui, no meu escritório, cercado de máquinas, posso então vislumbrar como essa perda se dá, se deu. Pois, como falar de vida se me falta vida ao redor? Doce ilusão de que eu possa ser “em si” alguma coisa, que eu possa falar da vida “desde fora”. Cercado de máquinas, me mecanizo.

Me salvam os livros, essa estranha forma de vida…

(Ainda que irresistivelmente eu nutra por este meu computador uma espécie de carinho. Porque ele é tantas coisas: minha máquina de escrever, minha caixa de música, meu album de retratos, minha enciclopédia, meu telefone, meu correio… Sim, parece mesmo que estamos condenados ao amor…)

A casa, nova

Uma casa é primeiro a cor das paredes, a disposição dos móveis, os objetos que a distinguem e contam uma história em quadros, fotos, livros. Depois, é a paisagem que divisamos das janelas, os ritmos do céu e do sol atravessando os cômodos com sua luz e suas sombras.

Finalmente, uma casa são seus ruídos, isso que mais lentamente aprendemos: a voz dos vizinhos, o canto dos pássaros, o latido dos cães, o choro dos bebês, a alegria das crianças quando se juntam, o jeito da chuva dedilhar nos telhados e nas poças; o som das coisas que se animam quando o vento entra pela janela, o ligar e desligar dos interruptores, o ronronar dos ventiladores, teus passos indo e vindo – e sei quando estás descalça…

O que há de mais íntimo numa casa são seus ruídos, acho eu, essas singelas imaterialidades que nos chegam sem querer e que acolhemos a despeito da vontade – com indiferença, cumplicidade e, às vezes, até irritação.

Tenho reparado que sinto falta disso que chamamos de ruído mais até do que de música. Claro, nada se compara a Bill Evans, mas vai que Bill Evans é o que no céu chamam de ruído e nem sabemos?

Deo gratias

De um dia para o outro, as duas folhinhas da lichia já são dois longos braços estirados para o céu.

Há nesse gesto – será possível falar assim? – alegria e gratidão, louvor e júbilo.
Dizem das plantas que são a forma mais primitiva de vida.

Sinto o contrário: quando o corpo era o Éden, vivíamos de água e luz em nômade contemplação.

Vida e arte

Com o mesmo cuidado e perseverança com que você pinta um quadro, você foi cultivando as improváveis sementes de lichia que nos sobraram do Natal.

Devagar, mas em magnificos saltos, foi se dando o milagre: do mesmo modo como as linhas vão surgindo sobre o branco da tela, em formas que logo ganham cores, a dura casca da semente se rompeu e dela subiu um delicado fio vegetal que se eleva para o céu com duas folhinhas estiradas, uma para cada lado, como se nos oferecesse um abraço cheio de entusiasmo.

E gratidão? Não sei. Não sei o que te sussurram as plantas quando não estou perto, de manhã, logo cedo, mas a cada vez que você as alimenta, de carinho e água, elas exalam seus olores: manjerição, hortelã, salsa, ou simplesmente exultam, mais brilhosas e firmes, cheirando a verde.

E assim toda a arte que há nos quadros vai transbordando para a vida, minuciosa e quase discreta, porque a nós a quem nós é dado vê-los, a esses quadros cheios de vida, sempre nos faltam palavras para descrever – tanto a eles como ao bem estar que nos provocam. E então sorrimos e nos fica mais fácil o dia.

O que secretamente sustenta o mundo

Você me pede um poema. Você merece um. Há tanta beleza em você.
Uma força obstinada te anima e contrasta com a fragilidade que se oculta no corpo esguio, mas transparece às vezes nos olhos que brilham, brilham até de tristeza, uma tristeza comovente de tão imensa, porque parece acolher a tristeza de cada um.

É como se você desse vida a tudo à tua volta; como se ao teu contato as coisas sem esforço fossem o seu melhor, que é a perfeição possível a toda criatura. As plantas, as flores, os bichos, as moças tristes nos caixas das lojas, mesmo nossos vizinhos: todos parecem alegrar-se de ver você, de agradar você, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Querem estar com você, perguntam por você, esperam por você.

Há uma palavra cujo sentido perdeu-se mas que em latim sempre significou amor. Em você ela vibra com todo o esplendor de coisa viva. (E é assim, por meio desses que a exercem com vigor, que o mundo secretamente se sustenta).