Uma redescoberta do espírito mágico

(O Despertar dos Mágicos, Louis Pawels e Jacques Bergier.
Terceira parte, capítulo IV: Uma redescoberta do espírito mágico
UMA REDESCOBERTA AO ESPÍRITO MÁgICO
O olho verde do Vaticano.
– A outra inteligência.
A Fábrica do Bosque Adormecido.
– História da “relavote”.
– É possível que a natureza faça um jogo duplo.
A manivela da supermáquina.
– Novas catedrais, nova giria.
– A última porta.
– A existência como instrumento.
– Coisas novas e razoáveis sobre os símbolos.
– Nem tudo está em tudo.

Para decifrar certos manuscritos encontrados nas margens
do mar Negro foi insuficiente a ciência dos melhores linguístas do
Mundo. Instalou-se uma máquina, um cALcUlador electrónico,
no Vaticano, e deu-se-lhe a estudar um pavoroso garatujado, os restos
de um pergaminho imemorial sobre todos os quais estavam
inscritos em todos os sentidos pedaços de indecifráveis signos. Era
necessário que a máquina fizesse um trabalho que centenas de
cérebros, durante centenas de anos, não poderiam executar: comparar
os traços, refazer todas as séries possíveis de traços semelhantes,

———————– Page 220———————–

escolher entre todas as possibilidades possíveis, extrair uma lei
de similitude entre todos os termos de comparação imagináveis,
depois, tendo esgotado a lista infinita das combinações, elaborar
um alfabeto a partir da única similitude aceitável, recriar uma língua,
restituir, traduzir. A máquina fixou o magma do seu olho
verde, imóvel e frio, começou a estalar e a zumbir, inúmeras ondas
rápidas percorreram o seu cérebro electrónico, e finalmente fez
emergir desse resíduo uma mensagem, libertando a palavra do
velho mundo submerso. Ela traduziu. Sobre esses pergaminhos
poeirentos, restos de letras se reanimaram, se uniram, se refundiram,
e do informe, desse cadáver do verbo saiu uma voz cheia de
promessas. A máquina disse: “E nesse deserto traçaremos uma
estrada em direcção ao vosso Deus”.

*
É sabida a diferença entre a aritmética e as matemáticas.
O pensamento matemático, desde Evariste Galois, descobrir um
mundo que é estranho ao homem, que não corresponde à experiência
humana, ao Universo tal como o conhece a consciência
humana vulgar. A lógica que diz sim ou não é ali substituída
por uma superlógica que funciona por sim e não. Esta superlógica
não é do domínio da razão, mas da intuição. É neste sentido
que se pode dizer que a intuição, quer dizer, uma faculdade
“selvagem”, um poder “insólito” do espírito, “rege actualmente
grandes cantões de matemáticos.”
Como funciona normalmente o cérebro? Funciona como
máquina aritmética binária: sim, não, de acordo, não de acordo,
verdadeiro, falso, gosto, não gosto, bom, mau. Como binário,
o nosso cérebro é invencível. Grandes cALGUladores humanos
conseguiram ultrapassar as máquinas electrónicas.
O que é uma máquina aritmética? É uma máquina que, com
extraordinária rapidez, classifica, aceita e recusa, arruma os diversos
factores por séries. No fim de contas, é uma máquina que
põe ordem no Universo. Imita o funcionamento do nosso cérebro.
O homem classifica. Esta é a sua honra. Todas as ciências são
baseadas num esforço de classificação.

‘ Charles Noel Martin: Les Vfngt Sens de IHomme.

Sim, mas existem, também, actualmente, máquinas electrónicas
que não funcionam apenas aritmeticamente como também
analogicamente. Exemplo: se se deseja estudar todas as condições
de resistência da barragem que se constrói, elabora-se um
plano da barragem. Efectuaram-se todas as observações possíveis
a respeito desse plano. Fornecem à máquina o conjunto dessas
observações. Esta coordena, compara a uma velocidade inumana,
estabelece todas as conexões possíveis entre essas mil observações
de pormenor, e declara: “Se não se reforçar o calço do terceiro
pilar desmoronar-se-á em 1984”.
A máquina analógica fixou, com o seu olho imóvel e infalível,
o conjunto das reacções da barragem, depois previu todos
os aspectos da existência dessa barragem, assimilou essa existência
e deduziu-lhe todas as leis. Ela viu o presente na sua
totalidade, estabelecendo a uma velocidade que contrai o tempo
todas as relações possíveis entre todos os factores particulares,
e pôde ver, simultaneamente, o futuro. No fim de contas, passou
do saber ao conhecimento.
Ora pensamos que o cérebro pode, também ele, em certos
casos, funcionar como uma máquina analógica. Quer dizer que
ele deve poder:
1.o – Reunir todas as observações possíveis a respeito de
um caso;
2.o – Estabelecer a lista das revelações constantes entre os
múltiplos aspectos do caso;
3.o – Transformar-se, por assim dizer, no próprio caso, assimilar-lhe
a essência e descobrir a totalidade do seu destino.

———————– Page 221———————–

Tudo isto, evidentemente, a uma velocidade electrónica, realizando-se
dezenas de milhares de conexões numa espécie de
tempo atomizado. Esta série fabulosa de operações precisas,
matemáticas, é o que por vezes chamamos uma iluminação,
quando o mecanismo, por acaso, se põe em marcha.
Se o cérebro pode funcionar como uma máquina analógica,
pode, igualmente, trabalhar, não sobre a própria coisa, mas sobre
uma maqueta da coisa. Não sobre o próprio Deus, mas sobre um
ídolo. Não sobre a eternidade, mas sobre uma hora. Não sobre a
Terra, mas sobre um grão de areia. Quer dizer que deve poder,
estabelecendo-se as conexões a uma velocidade que ultrapassa o
raciocínio binário mais rápido, sobre uma imagem representando
o papel de maqueta, ver, como dizia Blake, “o Universo num grão
de areia e a eternidade numa hora”.
Se isto se passasse assim, se a velocidade da classificação,
de comparação, de dedução estivesse formidavelmente acelerada,
se nossa inteligência se encontrasse, em certos casos, como
a partícula no ciclotrão, teríamos a explicação de toda a magia.
A partir da observação de uma estrela a olho nu, um sacerdote
maia teria podido reorganizar no seu cérebro o conjunto do
sistema solar e descobrir Urano e Plutão sem telescópio (assim
como o provam, parece, alguns baixos-relevos). A partir de um
fenómeno no crisol, o alquimista poderia conseguir uma representação
exacta do átomo mais complexo e descobrir o segredo
da matéria. Ter-se-ia a explicação da fórmula segundo a qual:
“O que está em cima é semelhante ao que está em baixo”.
No domínio mais grosseiro da magia imitativa, compreender-se-ia
de que forma o mágico pré-histórico, contemplando na sua
gruta a imagem do bisão cerimonial, conseguia apreender o conjunto
das leis do mundo bisão e anunciar à tribo a data, o local
e as épocas favoráveis para a próxima caçada.

*
Os técnicos da cibernética construíram máquinas electrónicas
que funcionam primeiro aritmeticamente, depois analogicamente.
Estas máquinas servem inclusivamente para o deciframento
das linguagens cifradas. Mas os sábios são assim: eles recusam-se
a imaginar que O que o homem criou possa também sê-lo.
Estranha humildade!
Admitimos esta hipótese: o homem possui uma aparelhagem
pelo menos igual, senão superior, a qualquer aparelhagem tecnicamente
realizável, e destinada a atingir o resultado que se propõe
qualquer técnica, a saber a compreensão e o manejamento
das forças universais. Por que motivo não possuiria ele uma
espécie de máquina electrónica analógica nas profundezas do
seu cérebro? Sabemos actualmente que nove décimos do cérebro
humano não são utilizados na vida consciente normal e o doutor
Warren Penfield demonstrou a existência, em nós, desse
vasto domínio silencioso. E se esse domínio silencioso fosse uma
imensa sala de máquinas prestes a porem-se em movimento,
à espera de uma ordem? Se assim fosse, a magia teria razão.

Temos correios: as secreções das hormonas ramificam-se em
mil locais do nosso corpo para provocar excitações.

Temos um telefone: o nosso sistema nervoso; beliscam-me,
eu grito; tenho vergonha, coro, etc.
Porque não teríamos também um rádio? O cérebro emite
talvez ondas que se propagam a grande velocidade e que, como
as ondas hiperfrequências que penetram nos condutores ocos,
circulam no interior dos cilindros de mieline que são os nervos.
Neste caso possuiríamos um sistema de comunicações e conexões
desconhecido. O nosso cérebro emite talvez sem cessar tais ondas,
mas os receptores não são utilizados, ou então não começam a
funcionar senão em raras ocasiões, como esses postos de T.S.F.
mal sintonizados que um choque torna por instantes sonoros.

———————– Page 222———————–

*

Eu tinha sete anos. Encontrava-me na cozinha, ao lado de
minha mãe, que lavava a loiça. A minha mãe pegou num esfregão
para retirar a gordura dos pratos, e pensou, nesse mesmo
momento, que a sua amiga Raymonde chamava esse objecto
“uma relavote” (de lavar, limpar). Eu estava a tagarelar, mas,
nesse próprio segundo parei e disse: “a Raymonde chama a isto
uma relavote.” Não me recordaria deste incidente se minha mãe,
vivamente impressionada, não mo tivesse várias vezes recordado,
como se tivesse adivinhado um grande mistério e sentido, num
bafo de alegria, que eu era ela, e que recebera uma prova mais
do que humana do meu amor. Mais tarde, quando eu a fazia
sofrer, nos momentos de trégua ela evocava esses segundos do
“encontro”, como que para se convencer de que qualquer coisa
de mais profundo que o seu sangue passara dela para mim.
Sei bem tudo o que se deve pensar das coincidências,
e mesmo dessas coincidências privilegiadas que Jung chama
“significativas”, mas parece-me, por ter vivido momentos análogos
com um amigo muito caro, com uma mulher amada apaixonadamente,
que é necessário ultrapassar a noção de coincidência e
ousar atingir uma interpretação mágica. Basta para isso chegar
a um acordo sobre a palavra “mágico”.
Que se passou nessa cozinha, numa tarde dos meus sete anos?
Creio que involuntariamente devido a um choque imperceptível,
um ínfimo estremecimento comparável à onda ligeira que faz cair
um objecto muito tempo em equilíbrio, um ínfimo estremecimento
provocado por puro acaso, uma máquina, em mim próprio, tornada
infinitamente sensível por milhares de impulsos de amor, desse
simples, violento, exclusivo amor de infância, se pôs bruscamente
a funcionar. Essa máquina do meu cérebro, na fábrica cibernética
da Bela Adormecida, contemplou minha mãe. Viu-a, recolheu e
classificou todas as facetas do seu pensamento, do seu coração, dos
seus humores, das suas sensações; transformou-se na minha mãe;
teve conhecimento da sua essência e do seu destino até esse instante.
Fixou, arrumou, a uma velocidade maior que a luz, todas
as associações de sentimentos e de ideias que tinham desfilado
em minha mãe desde o seu nascimento, e chegou à última associação,
a do esfregão, de Raymonde e da relavote. E então eu exprimi
o resultado do trabalho dessa máquina, que fora executado tão
loucamente depressa que o seu próprio fruto me atravessava sem
deixar vestígios, como os raios cósmicos nos atravessam, sem provocar
qualquer sensação. Eu disse: “Raymonde chama a isto uma
relavote”. Depois a máquina parou, ou então deixei de ser receptivo
depois de o ter sido durante um milionésimo de segundo,
prossegui a frase iniciada antes. Antes que o tempo parasse, ou
melhor, se acelerasse em todos os sentidos, passado, presente,
futuro; é a mesma coisa.
Eu viria a experimentar, noutras circunstâncias, “coincidências”
da mesma natureza. Creio que é possível interpretá-las dessa
forma. Pode ser que a máquina funcione constantemente, mas que
nós só possamos ser receptivos ocasionalmente. Para mais, essa
receptividade só pode ser raríssima. Talvez seja nula em certas
pessoas. Desta forma há pessoas “que têm sorte”, e outras que
a não tem. Os felizardos seriam aqueles que, por vezes, recebem
uma mensagem da máquina: ela analisou todos os elementos
da conjuntura, classificou, escolheu, comparou todos os efeitos e
todas as causas possíveis e, descobrindo desta forma o melhor
caminho do destino, pronunciou o oráculo, que foi recolhido sem
que, nem ao de leve, a consciência suspeitasse desse trabalho
formidável. Esses são “queridos dos deuses”, de facto. Eles são de
tempos a tempos ligados para a sua fábrica. Para só falar de mim,
tenho aquilo a que se chama “sorte”. Tudo me leva a crer que os
fenómenos que presidem a esta sorte são da mesma espécie que
os fenómenos que presidem à história da “relavote”.

———————– Page 223———————–

*
E assim nos começamos a aperceber de que a concepção
mágica das relações do homem com outrem, com as coisas, com
o tempo – que essa concepção não é completamente estranha
a uma reflexão livre e viva sobre a técnica e a ciência modernas.
É a modernidade que nos permite acreditar no mágico. São as
máquinas electrónicas que nos fazem tomar a sério o feiticeiro
pré-histórico e o sacerdote maia. Se se estabelecerem conexões
ultra-rápidas no domínio silencioso do cérebro humano e se,
em certas circunstâncias, o resultado desse trabalho é captado
pela consciência, determinadas práticas dessa magia imitativa,
determinadas revelações proféticas, determinadas iluminações
poéticas ou místicas, determinadas divinações, que levamos à
conta do delírio ou acaso, serão de considerar como aquisições
reais do espírito em estado de vigília.
Aliás, há vários anos que sabemos que a natureza não é
razoável. Ela não se adapta à forma vulgar do funcionamento
da inteligência. Para a parte do nosso cérebro normalmente
utilizável, qualquer raciocínio é binário. Isto é negro ou branco.
É sim ou não. É contínuo ou descontínuo. A nossa máquina de
compreender é aritmética. Classifica e compara. Todo o Discurso
do método se baseia nisso. Toda a filosofia chinesa do Ying
e do Yang também (e o Livro das mudanças, único livro de
oráculos do qual a antiguidade nos transmitiu as leis, é composto
por figuras gráficas: três linhas contínuas, três descontínuas
em todas as ordens possíveis). Ora, como o dizia Einstein no
final da sua vida: “Pergunto a mim próprio se a natureza joga
sempre o mesmo jogo”. De facto, dá a impressão que a natureza
escapa à máquina binária que é o nosso cérebro no seu estado
de marcha normal. Desde Louis de Broglie fomos obrigados a
admitir que a luz é simultaneamente contínua e quebrada. Mas
nenhum cérebro humano conseguiu a representação de tal fenómeno,
a compreensão a partir do interior, um conhecimento
real. Admite-se. Sabe-se. Mas não se conhece. Imagine-se agora
que, sobre um modelo da luz (toda a literatura e iconografia
religiosas abundam em evocações da luz), um cérebro passa do
estado aritmético ao estado analógico, no relâmpago do êxtase.
Transforma-se na luz. Ele vive o incompreensível fenómeno.
Nasce com ele. Conhece-o. Ele chega onde a sublime inteligência
de Broglie não consegue chegar. Depois volta a cair, o contacto
com as máquinas superiores é cortado, essas máquinas que
funcionam na imensa galeria secreta do cérebro humano. A sua
memória apenas lhe restitui os restos do conhecimento que
acaba de adquirir. E a linguagem é impotente até para traduzir
esses restos. Talvez certos místicos tenham conhecido
desta forma os fenómenos da natureza que a nossa inteligência
moderna conseguiu descobrir e admitir, mas não logrou integrar.

“E, da mesma forma que eu, o escriba perguntava ComO,
ou que coisa ela via, ou se via coisa corpórea. Ela respondia
assim: eu via uma plenitude, uma claridade que me enchia de
tal forma que não sei explicá-la ou dar qualquer similitude…”
Eis uma passagem daquilo que Ângela de Foligno ditou ao seu
confessor, passagem essa absolutamente significativa.

*
O cALcUlador electrónico, sobre uma maqueta matemática de
barragem ou de avião, funciona analogicamente. Em certa medida
transforma-se nessa barragem ou nesse avião e dá a conhecer
a totalidade dos aspectos da sua existência. Se o cérebro pode
agir da mesma forma, começamos a compreender por que
motivo o feiticeiro elabora uma estrutura invocando o inimigo
que quer atingir ou desenha o bisão de que pretende descobrir
o rasto. Espera diante desses esboços a passagem da sua inteligência
do estado binário para o estado analógico, a passagem
da sua consciência do estado ordinário para o estado de vigília

———————– Page 224———————–

superior. Ele aguarda que a máquina comece a trabalhar analogicamente,
que se produzam, no domínio silencioso do seu cérebro,
conexões ultra-rápidas que lhe revelarão a realidade total
da coisa representada. Ele espera, mas não passivamente. Que
faz então? Escolheu a hora e o local em função de ensinamentos
antigos, de tradições que talvez sejam o resultado de uma série
de experiências. Tal momento de tal noite, por exemplo, é mais
favorável que outro tal momento de tal outra noite, talvez
devido ao estado do céu, da radiação cósmica, da disposição
dos campos magnéticos, etc. Ele coloca-se numa determinada
posição bem precisa. Faz certos gestos, uma dança especial, pronuncia
certas palavras, emite sons, modula um sopro, etc. Ainda
se não suspeitou que poderia tratar-se de técnicas (embrionárias,
hesitantes) destinadas a provocar o estremecimento das máquinas
ultra-rápidas contidas na parte adormecida do nosso cérebro.
Os rituais talvez não sejam mais do que conjuntos complexos
de disposições rítmicas susceptíveis de provocar uma actividade
das funções superiores da inteligência. Uma espécie de voltas
de manivela, mais ou menos eficazes. Tudo leva a crer que o
funcionamento dessas funções superiores, desses cérebros electrónicos
analógicos, exigem ramificações mil vezes mais complicadas
subtis que aquelas necessárias para a passagem do sono
à lucidez.
Depois dos trabalhos de Von Frisch, sabe-se que as abelhas
têm uma linguagem: desenham no espaço figuras matemáticas

‘ Bem entendido, a nossa comparação com a máquina electrónica não
é completa. Como qualquer comparação, é apenas um ponto de partida e
também um esboço da ideia.

infinitamente complicadas, durante o voo, e comunicam desta forma
entre si as informações necessárias à vida da colmeia. Tudo leva
a crer que o homem, para estabelecer comunicação com os seus
poderes mais elevados, deve pôr em jogo uma série de impulsos
pelo menos tão complexos, tão ténues e tão estranhos àquilo que
habitualmente determina os seus actos intelectuais.
As rezas e os rituais perante os ídolos, perante as figuras
simbólicas das religiões, seriam portanto tentativas para captar
e orientar energias subtis (magnéticas, cósmicas, rítmicas, etc),
para provocar o movimento da inteligência analógica que permitiria
ao homem conhecer a divindade representada.
Se assim é, se existem técnicas para obter do cérebro um
rendimento sem medida comum com os resultados da inteligência
binária, mesmo que se tratasse da maior, e se essas técnicas
apenas foram procuradas até aqui pelos ocultistas, compreende-se
que a maior parte das importantes descobertas práticas
e científicas, antes do século xIx, tenham sido feitas por estes.

*
A nossa linguagem, assim como o nosso passado, procede do
funcionamento aritmético, binário, do nosso cérebro. Nós classificamos
em sim, não, positivo, negativo, estabelecemos as comparações
e deduzimos. Se a linguagem nos serve para ordenar o
nosso pensamento por sua vez inteiramente ocupado em organizar,
é necessário verificar que ela não é um elemento criador exterior,
um atributo divino. Ela não vem acrescentar um pensamento ao
pensamento. Se eu falo ou escrevo, refreio a minha máquina. Não
a posso descrever senão observando ao ralenti. Portanto apenas
exprimo a minha tomada de consciência binária do mundo
e mesmo assim quando essa consciência cessa de funcionar à
velocidade normal. A minha linguagem é apenas testemunho do
ralenti de uma visão do mundo também limitada ao binário. Esta
insuficiência da linguagem é evidente e intensamente ressentida.
Mas que dizer da insuficiência da própria inteligência binária?
A existência interna, a essência das coisas escapa-lhe. Pode descobrir
que a luz é contínua e descontínua simultaneamente, que a

———————– Page 225———————–

molécula do benzeno estabelece entre os seus seis átomos relações
duplas e no entanto mutuamente exclusivas; admite-o, mas
não o pode compreender, não pode integrar ao seu próprio
movimento a realidade das estruturas profundas que examina. Para
o conseguir ser-lhe-ia necessário mudar de estado, seria preciso
que outras máquinas diferentes das habitualmente usadas começassem
a funcionar no cérebro, e que o raciocínio binário fosse
substituído por uma consciência analógica que revestisse as formas
e assimilasse os ritmos inconcebíveis dessas estruturas profundas.
Talvez isso se produza, na intuição científica, na inspiração poética,
no êxtase religioso e noutros casos que ignoramos. O recurso
à consciência desperta, quer dizer, a um estado diferente do
estado de vigília lúcida, é o leitmotiv de todas as antigas filosofias.
É também o leitmotiv dos maiores físicos e matemáticos modernos,
para quem “qualquer coisa se deve passar na consciência humana
para que ela passe do saber ao conhecimento”.
Não é portanto surpreendente que a linguagem, que não
consegue senão testemunhar uma consciência do mundo em
estado de vigília lúcida normal, seja obscura desde que se trate
de exprimir essas estruturas profundas, quer se trate da luz, da
eternidade, do tempo, da energia, da essência do homem, etc.
No entanto, distinguimos duas espécies de obscuridade.
Uma provém de que a linguagem é o veículo de uma inteligência
que se aplica a examinar essas estruturas sem nunca as
poder assimilar. É o veículo de uma natureza que esbarra em vão
com outra natureza. Quando muito, apenas traz o testemunho de
uma impossibilidade, o eco de uma sensação de impotência e
de exílio. A sua obscuridade é real. Trata-se apenas da obscuridade.
A outra provém do facto que o homem que tenta exprimir-se
experimentou, por instantes, outro estado de consciência.
Viveu por um momento na intimidade dessas estruturas profundas.
Conheceu-as. É o místico do tipo São João da Cruz, o sábio
iluminado do tipo Einstein ou o poeta inspirado do tipo William
Blake, o matemático arrebatado do tipo Galois, o filósofo visionário
do tipo Meyrink.
Depois da queda, o “vidente” é incapaz de comunicar. Mas
a partir daí, ele exprime a certeza positiva de que o Universo
seria controlável e manejável se o homem pudesse combinar tão
intimamente quanto possível o estado de vigília e o estado de
supervigília. Qualquer coisa de eficaz, o perfil de um instrumento
soberano aparece em tal linguagem. Fulcanelli, ao falar do mistério
das Catedrais, Wiener, ao falar da estrutura do Tempo, são
obscuros, mas aqui a obscuridade não é a obscuridade: ela é
o sinal de que qualquer coisa brilha algures.

*
Apenas a moderna linguagem matemática pode, provavelmente,
traduzir certos resultados do pensamento analógico. Existem,
na física matemática, domínios do “algures absoluto” e de
“contínuos de medida nula”, quer dizer, medidas de universos
inconcebíveis e no entanto reais. É natural que nos interroguemos
a nós próprios para saber por que motivo os poetas ainda não
foram ouvir junto dessa ciência o canto das realidades fantásticas,
a não ser por receio de terem de reconhecer esta evidência: que
a arte mágica vive e progride para além dos seus gabinetes.
Esta linguagem matemática a testemunhar a existência de um
universo que escapa à consciência normalmente lúcida é a única
em actividade, em constante progresso.

‘ Cantor: A essência das matemáticas é a liberdade.
Mittag-LefHer a propósito dos trabalhos de Abel: Trata-se de autênticos
poemas líricos de uma beleza sublime a perfeição da forma deixa transparecer
a grandeza do pensamento e enche o espírito de imagens de um mundo mais
afastado das banais aparências da vida, mais directamente vindo da alma
que a mais bela criação do maior poeta, no vulgar sentido da palavra.
Dedekind: Nós somos de raça divina e possuímos o poder de criar.

———————– Page 226———————–

2 Aí tudo é amplo: as técnicas.do pensamento, as lógicas”, os “conjuntos”,
tudo é vivo, tudo se renova sem cessar, as concepções mais estranhas
e mais transparentes nascem umas das outras, transformam-se, semelhantes
aos “movimentos” de uma sinfonia; estamos no domínio divino da imaginação.
Mas de uma imaginação abstracta, se assim se pode dizer. De facto, essas
imagens da técnica matemática não têm nada a ver com as do mundo ilusório
onde chapinhamos, embora possuam a chave e o segredo dele. (Georges
Buraud: Matemática e Civilização, Revista “La Table Ronden, Abril de 1959).

Os “seres matemáticos”, quer dizer, as expressões, os signos
que simbolizam a vida e as leis do mundo invisível, do mundo
impensável, desenvolvem, fecundam outros “seres”. Para falar
com propriedade, esta linguagem é a verdadeira “língua verde”
do nosso tempo.
Sim, a “língua verde”, a gíria no sentido original dessas palavras
‘, no sentido que se lhes dava na Idade Média (e não no
sentido insípido que hoje lhe atribuem certos literatos que se julgam
audaciosos), eis que a encontramos na ciência de vanguarda,
na física matemática que é, se analisarmos bem, um desregramento
da inteligência aceite, uma ruptura, uma visão.
O que é a arte gótica, à qual devemos as catedrais? Baseando-se
na similitude fonética entre argot (gíria) e art goth (arte
dos godos), bem como entre argotique (de gíria) e art gotháque
(arte gótica, arte dos godos), Fulcanelli escrevia2: “Para nós
a arte gótica não passa de uma deformação ortográfica da palavra
argotáque, de acordo com a lei fonética que rege, em todas
as línguas, sem dar a menor atenção à ortografia, a cabala tradicional”.
A catedral é uma obra de art got ou de argot.
E o que é a catedral de hoje, a que ensina aos homens as
estruturas da Criação, senão a equação, que substituiu a rosácea?
Libertemo-nos das fidelidades inúteis ao passado, a fim de melhor
nos ligarmos a ele. Não procuremos a catedral moderna no
monumento de vidro e betão encimado de uma cruz. A catedral
da Idade Média era o livro dos mistérios dado aos homens do
passado. O livro dos mistérios, hoje, são os físicos matemáticos
que o escrevem, com “seres matemáticos”, encaixados como
rosáceas nas construções que se chamam foguetões interplanetários,
fábrica atómica, ciclotrão. Eis a verdadeira continuidade,
eis o verdadeiro fio da tradição.
Os argotáers da Idade Média, filhos espirituais dos Argonautas
que conheciam o caminho do jardim das Hespérides, escreviam na
pedra a sua mensagem hermética. Signos incompreensíveis para

‘ Quer dizer, no sentido de língua própria dum ofício, e por conseguinte
secreta, como as técnicas. (N. da Z)
2 Fulcanelli: Le Mystère des Cathédrales.

os homens nos quais a consciência não sofreu transformações,
nem o cérebro sofreu aquela “aceleração” formidável pela qual o
inconcebível se torna real, sensível e manejável. Não eram secretos
por amor ao secreto, mas simplesmente porque as suas descobertas
das leis da energia, da matéria e do espírito se tinham efectuado
noutro estado de consciência, incomunicável directamente.
Eram secretos, porque “ser” é “ser diferente”.
Por tradição atenuada, como em recordação de tão alto
exemplo, o calão é nos nossos dias um dialecto à margem, usado
pelos insubmissos, ávidos de liberdade, pelos proscritos, os nómadas,
por todos aqueles que vivem à margem das leis vigentes e
das convenções. Esses eram os voyants (videntes), ou seja, por
corrupção da palavra, os voyous (que veio a significar vadios), e
entre eles havia-os que se proclamavam Filhos do Sol, sendo assim
L’art got a arte da luz ou do espírito.
Mas reencontraremos a tradição sem degenerescência se nos
apercebermos de que esse art got, que é arte do espírito, é hoje
a arte dos “seres matemáticos” e dos integrais de Lebesque, dos
“números para além do Infinito”; a dos físicos matemáticos que

———————– Page 227———————–

edificam, em curvas insólitas, em “luzes interditas”, em trovoadas
e em chamas, as catedrais para as missas do futuro.

*
Estas observações arriscam-se a parecer revoltantes para um
leitor religioso. Mas não são. Pensamos que as possibilidades do
cérebro humano são infinitas. Isto põe-nos em contradição com
a psicologia e a ciência oficiais, que têm “confiança no homem”,
sob a condição de que ele não ultrapasse o quadro traçado pelos
racionalistas do século xix. Isto não deveria pôr-nos em contradição
com o espírito religioso, pelo menos com o que tem de
mais puro e de mais alto.
O homem pode atingir os segredos, ver a luz, ver a Eternidade,
apreender as leis da Energia, adaptar a sua marcha interior
ao ritmo do destino universal, ter um conhecimento sensível da
última convergência das forças e, como Teilhard de Chardin,
viver da incompreensível vida do ponto Ómega onde toda a
criação se encontrará, no final do tempo terrestre, a um tempo
terminada, consumida e exaltada. O homem tudo pode.
A sua inteligência, equipada provavelmente, desde a origem,
para um conhecimento infinito, pode, em certas condições,
apreender o conjunto dos mecanismos da vida. O poder
da inteligência humana inteiramente manifestada provavelmente
pode atingir a totalidade do Universo. Mas esse poder cessa
onde essa inteligência, chegada ao termo da sua missão, pressente
que ainda há “qualquer coisa” para além do Universo.
Aqui, a consciência analógica perde toda a possibilidade de funcionar.
Não há, no Universo, modelos do que está para além
do Universo. Essa porta intransponível é a do Reino de Deus.
Aceitamos essa expressão, nesta acepção: “Reino de Deus.”
Por ter tentado ultrapassar o Universo imaginando um número
maior que tudo o que se poderia conceber no Universo, por ter
tentado constituir um conceito que o Universo não pudesse
preencher, o genial matemático Cantor acabou na loucura. Há uma
última porta que a inteligência analógica não pode abrir. Poucos
textos igualam em grandeza metafísica aquele onde H. P. Lovecraft’
tenta descrever a aventura desvairada do homem desperto
que teria conseguido entreabrir essa porta e portanto afirmaria ter
penetrado ali onde Deus reina para além do infinito. . .
“Ele sabia que um tal Randolph Carter, de Boston, tinha
existido; no entanto não podia saber com certeza se era ele
próprio, fragmento ou faceta de entidade para além da última
Porta, ou qualquer outro, que fora esse Randolph Carter. O seu
“eu” fora destruído, e, no entanto, graças a qualquer faculdade
inconcebível, tinha igualmente consciência de ser uma legião de
“eu”. Se é que nesse sítio, onde a menor noção de existência
individual estava abolida, podia sobreviver, sob qualquer forma,
uma coisa tão singular. Era como se o seu corpo tivesse sido
bruscamente transformado numa dessas efígies, de múltiplas

‘ Excerto do conto: À travers les Portes de la Clè dÁrgent, que Bergier
e eu publicámos em francês num volume intitulado: Dénzons et Merveilles.
(Colecção uLumière Interdite”, edições Deux Rives, Paris.)

cabeças e membros, dos templos hindus. Num esforço insensato,
contemplando esse aglomerado, tentava separar o seu corpo
original – se é que podia existir um corpo original…
“Nessas terrificantes visões, esse fragmento de Randolph
Carter que ultrapassara a última Porta foi arrancado ao nadir do
horror para mergulhar nos abismos de um horror ainda mais
profundo e, dessa vez, isso vinha do interior: era uma força, uma
espécie de personalidade que bruscamente lhe fazia frente e o
envolvia ao mesmo tempo, se apossava dele e se integrava a
sua própria presença, coexistia a todas as eternidades, era contíguo
a todos os espaços. Não havia qualquer manifestação
visível, mas a percepção dessa entidade e a temível combinação

———————– Page 228———————–

dos conceitos de entidade e de infinidade provocava-lhe um terror
paralisante. Esse terror ultrapassava de longe todos os que,
até ali, Carter suspeitara que existiam… Essa entidade era una
e um todo, um ser a um tempo infinito e limitado que não fazia
apenas parte de um contínuo espaço-tempo, mas que fazia parte
integrante do turbilhão eterno das forças de vida, do último
turbilhão sem limites que tanto ultrapassa as matemáticas como
a imaginação. Essa entidade talvez fosse aquela que certos cultos
secretos da Terra evocam em voz baixa e que os espíritos
vaporosos das nebulosas espirais designam por meio de um
signo impossível de reproduzir… E, num relâmpago, projectado
ainda mais longe, o fragmento de Carter conheceu a superficialidade,
a insuficiência do que acabava de experimentar mesmo
disso, mesmo disso…”

*
Voltemos ao nosso assunto inicial. Nós não dizemos: existe,
na imensa superfície silenciosa do cérebro, uma máquina electrónica
analógica. Dizemos: visto que existem máquinas aritméticas e
máquinas analógicas, não seria possível imaginar, para além do
funcionamento da nossa inteligência em estado normal, um funcionamento
em estado superior? Poderes da inteligência que pertenceriam
à mesma categoria dos da máquina analógica? A nossa
comparação não deve ser tomada à letra. Trata-se de um ponto de
partida, de uma rampa de lançamento em direcção às regiões da
inteligência ainda selvagens, quase por explorar. Nessas regiões,
a inteligência talvez comece bruscamente a cintilar, iluminando as
coisas habitualmente escondidas do Universo. De que forma consegue
ela atingir essas regiões onde a sua própria vida se torna
prodigiosa? Por que operações se dá a mudança de estado? Não
afirmamos que o sabemos. Dizemos que há, nos ritos mágicos e
religiosos, na imensa literatura antiga e moderna consagrada aos
momentos singulares, aos instantes fantásticos do espírito, milhares
e milhares de descrições fragmentárias que seria necessário reunir,
comparar, e que talvez evoquem um método perdido – ou um
método futuro.
Pode dar-se o caso de que por vezes a inteligência roce, como
que por acaso, a fronteira dessas regiões selvagens. Aí põe em
movimento, durante uma fracção de segundo, as máquinas superiores
de que distingue confusamente o ruído. É a minha história
da “relavote”, são todos esses fenómenos ditos “parapsicológicos”
cuja existência tanto nos perturba, são esses extraordinários
e raros fachos iluminativos, um, dois ou três, que a maior parte das
pessoas sensitivas sentem no decorrer da vida, e sobretudo nas
mais tenras idades. Nada resta, apenas a recordação.
transpor essa fronteira (ou, como dizem os textos tradicionais:
“entrar no estado de vigília”) provoca um benefício muito
maior e não parece ser obra do acaso. Tudo leva a pensar que
essa ultrapassagem exige a reunião e a orientação de um enorme
número de forças, exteriores e interiores. Não é absurdo supor
que essas forças estão à nossa disposição. Simplesmente, falta-nos
o método. Também nos faltava o método, há pouco tempo, para
libertar a energia nuclear. Mas talvez essas forças estejam apenas
à nossa disposição no caso de nós comprometermos, para as
captar, a totalidade da nossa existência. Os ascetas, os santos, os
taumaturgos, os videntes, os poetas e os sábios de génio não
dizem outra coisa. E é o que escreve William Temple, moderno
poeta americano: “Nenhuma revelação especial é possível se a
própria existência não for um instrumento de revelação”.

*
Retomemos portanto a nossa comparação. Foi durante a
segunda guerra mundial que a “pesquisa operacional” nasceu.
Para que a necessidade de semelhante método se fizesse sentir
“era necessário que se pusessem problemas que escapavam ao
bom-senso e à experiência”. Portanto os tácticos recorreram aos

———————– Page 229———————–

matemáticos:
“Quando uma situação, pela complexidade da sua estrutura
aparente e da sua evolução visível, não pode ser dominada pelos
processos habituais, pede-se aos cientistas para tratarem essa
situação da mesma forma que, na sua especialidade, tratam os
fenómenos da natureza, e para, desta forma, elaborarem uma
teoria. Criar a teoria de uma situação ou de um objecto é imaginar
um modelo abstracto cujas propriedades simularão as
propriedades desse objecto. O modelo é sempre matemático. Por
seu intermédio, as questões concretas são traduzidas em propriedades
matemáticas.”
Trata-se do “modelo” de uma coisa ou de uma situação
demasiado nova ou demasiado complexa para ser apreendida na
sua realidade total pela inteligência. “Em pesquisa operacional
fundamental, há então interesse em construir uma máquina electrónica
analógica de forma que essa máquina realize o modelo.
Pode-se então, manipulando os botões de regulamento e vendo-a
funcionar, encontrar respostas para todas as perguntas em
vista das quais o modelo foi concebido”.
Essas definições são extraídas de um boletim técnico ‘. São
mais importantes, para uma visão do “homem desperto”, para
uma compreensão do espírito “mágico”, do que a maior parte
das obras de literatura ocultista. Se nós traduzirmos modelo por
ídolo ou símbolo, e máquina analógica por funcionamento iluminativo
do cérebro ou estado de hiperlucidez, vemos que o
mais misterioso caminho do conhecimento humano – aquele
que se recusa a admitir os herdeiros do século xIx positivista

‘ “Bulletin de Liaison des Cercles de Politique Économique” Março
de 1959.

– é um verdadeiro e grande caminho. É a técnica moderna que
nos convida a considerá-lo como tal.
“A presença dos símbolos, signos enigmáticos e de expressão
misteriosa nas tradições religiosas, as obras de arte, os contos
e os costumes do folclore provam a existência de uma linguagem
universalmente espalhada no Oriente assim como no Ocidente,
e cuja significação trans-histórica parece situar-se na própria raiz
da nossa existência, dos nossos conhecimentos e dos nossos
valores ‘.”
Ora, o que é o símbolo, senão o modelo abstracto de uma
realidade, de uma estrutura, que a inteligência humana não pode
dominar inteiramente, mas cuja “teoria” esboça?
“O símbolo revela certos aspectos da realidade – os mais
profundos – que desafiam qualquer processo de conhecimento
2.” Como o “modelo” que o matemático elabora a partir
de um objecto ou de uma situação que escapa ao bom-senso
ou a experiência, as propriedades do símbolo simulam as propriedades
do objecto ou da situação assim abstractamente representados,
e cujo aspecto fundamental se mantém dissimulado.
Em seguida seria necessário que uma máquina electrónica analógica
fosse montada e funcionasse, a partir desse modelo, para
que o símbolo mostrasse a realidade que contém e as respostas
a todas as perguntas em vista das quais foi concebido. O equivalente
dessa máquina, supomos nós, existe no homem. Certas
atitudes mentais e físicas ainda mal conhecidas podem provocar-lhe
o funcionamento. Todas as técnicas, ascéticas, religiosas,
mágicas parecem orientadas para esse resultado, e é provavelmente
isso que a tradição, percorrendo toda a história da humanidade,
exprime ao prometer aos sábios o “estado de vigília”.
Assim, os símbolos talvez sejam os modelos abstractos,
estabelecidos desde as origens da humanidade pensante, a partir
dos quais as estruturas profundas do Universo nos poderiam
ser sensíveis. Mas atenção! Os símbolos não representam a coisa

‘ René Alleau: De la Nature des Symboles (ed. Flammarion)

———————– Page 230———————–

2 Mircéa Éliade: Images et Symboles.

em si, o fenómeno em si. Seria igualmente falso pensar que eles
são pura e simplesmente esquematizações. Na pesquisa operacional,
o modelo não é o modelo reduzido ou simplificado de
uma coisa conhecida. É o ponto de partida possível em vista
do conhecimento dessa coisa. É um ponto de partida situado
fora da realidade: situado no universo matemático. Em seguida
será necessário que a máquina analógica, construída sobre esse
modelo, entre em transes electrónicos para que as respostas práticas
sejam dadas. Eis porque todas as explicações dos símbolos
aos quais se dedicam os ocultistas são sem interesse. Eles trabalham
sobre os símbolos como se se tratasse de esquemas traduzíveis
pela inteligência no estado normal. Como se, desses
esquemas, se pudesse caminhar imediatamente para uma realidade.
Desde há séculos que assim ocupam o seu tempo na Cruz
de Santo André, na suástica, na estrela de Salomão, e o estudo
das estruturas profundas do Universo nem por isso avançou.
Devido a uma inspiração da sua sublime inteligência, Einstein
conseguiu entrever (não a apreender totalmente, não a incorporar-se
e a dominar) a relação espaço-tempo. Para comunicar a
sua descoberta no grau em que ela é inteligentemente comunicável,
e para se ajudar a si próprio, no sentido de se elevar
até à sua própria visão iluminativa, desenha o signo e/ou triedro
de referência. Esse desenho não é um esquema da realidade.
É vulgarmente inutilizável. É um “levanta-te e caminha!” para
o conjunto dos conhecimentos físico-matemáticos. Mas todo esse
conjunto posto em movimento num cérebro potente não conseguirá
senão reencontrar o que esse triedro evoca, e não passar
ao Universo onde existe a lei expressa por esse signo. No final
dessa marcha, porém, saber-se-á pelo menos que este outro
universo existe.
Todos os símbolos são talvez da mesma categoria. A suástica
invertida, ou Cruz gamada, cuja origem se perde no mais longínquo
passado, talvez seja o “modelo” da lei que preside a toda
a destruição. Cada vez que há destruição, na matéria ou no espírito,
o movimento das forças é talvez conforme a esse modelo, da
mesma forma que a relação espaço-tempo é conforme ao triedro.
Assim também, diz-nos o matemático Eric Temple Bell, talvez
a espiral seja o “modelo” da estrutura profunda de toda a evolução
(da energia, da vida, da consciência). Pode ser que no
“estado de vigília” o cérebro possa funcionar como a máquina
analógica a partir de um modelo estabelecido, e que desta forma
ele penetre, a partir da suástica, a estrutura universal da destruição,
a partir da espiral, a estrutura universal da evolução.
Os símbolos, os signos são talvez, portanto, modelos concebidos
para as máquinas superiores do nosso espírito, em vista
ao funcionamento da nossa inteligência noutro estado.
A nossa inteligência, no seu estado vulgar, talvez trabalhe,
com o seu vértice mais delicado, desenhando modelos graças aos
quais, passando para um estado superior, poderia incorporar-se a
última realidade das coisas. Quando Teilhard de Chardin chega
a atingir o ponto Ómega, elabora dessa forma o “modelo” do
último ponto da evolução. Mas para sentir a realidade desse
ponto, para viver em profundidade uma realidade tão pouco imaginável,
para que a consciência integre essa realidade, a assimile
por completo – para que a consciência, no fim de contas,
se transforme ela própria no ponto Ómega e apreenda tudo o
que é apreensível num tal ponto: o sentido último da vida da
Terra, o destino cósmico do Espírito realizado, para além do final
dos tempos no nosso globo -, para que essa passagem da ideia
ao conhecimento se faça, seria necessário que surgisse outra
forma de inteligência. Ou seja uma inteligência analógica, ou a
inspiração mística, ou o estado de contemplação absoluta.
Assim, a ideia de Eternidade, a ideia de Transfinido, a ideia
de Deus, etc., são talvez “modelos” estabelecidos por nós e

———————– Page 231———————–

destinados, noutro domínio da nossa inteligência, num domínio
habitualmente adormecido, a dar as respostas em vista das quais
nós as elaborámos.
O que é preciso ver bem é que a ideia mais sublime é talvez
o equivalente do desenho do bisão para o feiticeiro pré-histórico.
Trata-se de uma maqueta. Em seguida será necessário que
as máquinas analógicas comecem a funcionar sobre esse modelo
na zona secreta do cérebro. O feiticeiro passa, por transes, para
a realidade do mundo bisão, descobre-lhe todos os aspectos de
uma só vez e pode anunciar o lugar e a hora da próxima caçada.
Isto é a magia no estado mais inferior. No estado superior,
o modelo não é um desenho ou uma estatueta, nem sequer um
símbolo. É uma ideia, é o produto mais perfeito da mais perfeita
inteligência possível. Essa ideia só foi concebida em vista de
outra etapa da investigação: a etapa analógica, segundo tempo
de toda a investigação operacional.

*
O que nos parece é que a mais alta, a mais fervorosa actividade
do espírito humano consiste em estabelecer “modelos”
destinados a outra actividade do espírito, pouco conhecida e
difícil de pôr em actividade. É neste sentido que se pode dizer:
tudo é símbolo, tudo é signo, tudo é evocação de outra realidade.
Isto abre-nos portas sobre o possível e infinito poder do
homem. Isto não nos dá a chave de todas as coisas, contrariamente
ao que crêem os simbologistas. Da ideia de Trindade,
da ideia do transfinido, à estatueta cravada de alfinetes do mago
aldeão, passando pela cruz, a suástica, o vitral, a catedral, a Virgem
Maria, os “seres matemáticos”, os números, etc., tudo é
modelo, maqueta de qualquer coisa que existe num universo
diferente daquele onde essa maqueta foi concebida. Mas as
maquetas não são intercambiáveis: um modelo matemático de
barragem fornecido ao cALcUlador electrónico não é comparável
a um modelo de foguetão supersónico. Nem tudo está em tudo.
A espiral não está na cruz. A imagem do bisão não está na
fotografia sobre a qual o médium se exercita, o ponto Ómega
do P.e Teilhard não está no Inferno de Dante, o menir não está
na catedral, os números de Cantor não estão nos números do
Apocalipse. Se existem maquetas de tudo, nem todas as maquetas
são como mesas gigognes, e não formam um todo desmontável
que revele o segredo do Universo.

‘ Table gigognes mesa contendo uma série de mesas que entram umas
nas outras. (N. da T.)

Se os modelos mais poderosos fornecidos à inteligência em
estado de vigília superior são os modelos sem dimensão, quer
dizer, as ideias, é preciso abandonar a esperança de encontrar
a maqueta do Universo na Grande Pirâmide ou sobre o pórtico
de Notre-Dame. Se existe uma maqueta do Universo inteiro, ela
só poderia existir no cérebro humano, no cume extremo da mais
sublime das inteligências. Mas não teria o Universo mais recursos
do que o homem? Se o homem é um infinito, não seria o Universo
o infinito mais qualquer coisa?
No entanto, descobrir que tudo é maqueta, modelo, signo,
símbolo, leva a descobrir uma chave. Não aquela que abre a
porta do mistério insondável, e que aliás não existe, ou está ainda
nas mãos de Deus. A chave, não de uma certeza, mas de uma
atitude. Trata-se de fazer funcionar a inteligência “diferente” à
qual essas maquetas são propostas. Trata-se portanto de passar
do estado de vigília vulgar para o estado de vigília superior.
O estado desperto. Nem tudo está em tudo. Mas a vigília é tudo.