Desautorizada esperança

Levai as almas todas para o Céu” – Nossa Senhora de Fátima nos ensinou a pedir a Jesus na oração do terço. E se ela nos diz que rezemos assim, pedindo por todas as almas, deve ser porque sabe que Jesus nos ouvirá: no Juízo Final, todas as almas será salvas, seja por Justiça, seja por Misericórdia. A Justiça está reservada às almas do Purgatório; a Misericórdia, às almas do Inferno.

É tamanha a Misericórdia de Deus que até o sofrimento eterno terá fim: pois será eterno só enquanto durar a Queda. Aquele que sofre no Purgatório, sofre no tempo, como uma alma convalescente. E aquele que sofre no Inferno, sofre na eternidade, sem esperança – só a Misericórdia de Deus pode salvá-lo. E salvará.

Ao menos essa é a minha desautorizada esperança.

Por isso, contra todas as recomendações dos teólogos, rezo também pelas almas daqueles que a jurisprudência teológica afirma que devem estar no Inferno. Alguns são meus amigos; outros, gente que nunca vi: escritores, músicos, pintores, musas, doidos que apenas se perderam no caminho. Rezo por todos. Não posso acreditar que Bill Evans, por exemplo, seja lá onde esteja agora, não acabará no Céu – talvez contra todos os cálculos teológicos e magisteriais. Nessas horas, me amparo nas bem-aventuranças do Sermão da Montanha, um alívio para as almas desassossegadas,e lembro da simpatia que Jesus devotou aos rebeldes e desprezados.

Enfim, rezo. É de graça.

A fé e a flor

Tenho fé não por vontade minha ou por força de argumentos, mas por um encantamento que me vem da contemplação da vida e dos mistérios revelados. Será esse encantamento o que chamam graça? Até dizemos de algo que nos encanta que “é uma graça”. Ou, quando algo nos surpreende, dizemos que é “engraçado”, palavra que também usamos pra tudo que nos deixa alegres ou nos faz rir.

Sim, certamente a fé é uma graça. Como não ter fé depois de contemplar os mistérios gozosos do Rosário ou a vida em sua silenciosa obstinação?

Não foi a razão ou a vontade que me trouxeram a fé. A razão e vontade são instrumentos a serviço da sobrevivência e da reprodução: cálculo, sedução, decisões, escolhas. A fé é uma intuição que a imaginação completa a partir dos dados presentes – “gato escondido com o rabo de fora” – e que me vem por uma espécie de inteligência espiritual, que é esse poder de encantar-se.

Lembro de mim muito menino encantado em ver que a luz do sol que entrava por uma fresta da cortina revelava o ar povoado de uns minúsculos seres flutuantes que de outro modo não se viam. Muito depois, quando aprendi a ver constelações no céu, ficava pasmo de passar do caos ao cosmos num piscar de olhos.

Falo, enfim, de encantamentos, essas coisas que nos deixam sem palavras, sem fôlego, em êxtases diversos: às vezes, imóveis de tão perplexos, às vezes, valsando de alegria.

A fé é a descoberta de algo que sempre estivera lá e agora nos chega num estalo: inexplicável, involuntária, gratuita. É como essa flor que não vi desabrochar seu esplendor: abriu-se, enquanto eu dormia. Como se abrirá a outra, tenho fé.

O mar

Outro dia foi o apito do rebocador. Ontem era o cheiro do mar. Se não vou ao mar, o mar vem a mim. E vem com uma veemência que suponho fruto de alguma ressaca que espalha pelo bairro esse perfume ao mesmo tempo muito próprio e indefinível – de mar.

Sinto falta do mar ainda que possa passar meses sem vê-lo nem tocá-lo, como acontece com velhos amigos de fato íntimos. Sempre digo que prefiro o mar à serra, essa questão quase metafísica que divide os cariocas. Porque amo no mar o minimalismo: com meia dúzia de pinceladas pinta-se uma marina e basta-nos um calção para estar em casa. Gosto da praia até no inverno, quando o sutilíssimo degradê de azuis se reduz a uma variedade de tons de cinzas envolta em levíssima névoa de umidade que nos abraça e veste desse cheiro: se não vamos ao mar, o mar vem a nós.

E amo sobretudo o som do mar, a batida regular das ondas, a efervescência da espuma que se desfaz na areia, incessante, mas nunca igual, como se sussurrasse para quem tem ouvidos de ouvir os segredos correntes sob o espelho do céu: o mar nos diz dos seus perigos, mas é preciso saber ver e ouvir.

Outro dia saí de carro e fui parar na praia do Pepino. Fui só olhar, até porque, quando saí, nem sabia que iria até lá. Houve um tempo em que eu tinha no porta-luvas uma sunga justamente para essas emergências. Me fez falta nesse dia…

Fiquei lá, olhando…