Cântico Negro, de José Régio

Reinaldo Azevedo, em um dos seus programas esta semana, leu um poema do escritor português José Régio, a quem eu, na minha ignorância que nunca deixa de me surpreender por sua vastidão e segredos, não conhecia.

Foi um achado! O cara é incrível – como escritor, como ser humano. E, por falar nisso, sim, amigo de Pessoa – que nos seus versos ressoa – ou terá sido o contrário? Pouco importa.

Vale conhecer o Régio (coisa que o verbete do Wikipédia já serve de aperitivo) e, de quebra, o Modernismo português.

Segue o poema “Cântico Negro”:

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
— Sei que não vou por aí!

O último terço

Um dia, hei de ver chegar a morte,
Sem aviso nem surpresa,
E espero que me encontre pronto,
Alma lavada no corpo fatigado.

E venha não em fato negro,
Mas em forma de anjo
Que me conduza, leve,
à Casa onde repouse
No regaço da Luz
Em sua Glória.
Eu enfim eterno
Como sempre fui.

Domingo

“O silêncio cinza da tarde chuvosa”: o cinza do cimento, do amianto, do alumínio, do concreto. Das nuvens, da chuva. Da luz que disso tudo resulta. O silêncio vivo das gotas tamborilando pelos telhados, nos vidros, no chão em tantos tons e intensidades que mais parece jazz, cool jazz, tão distintos e dispersos, e ainda assim, carícia…

É domingo. As nuvens passam lentas. E na tarde tudo descansa – como Deus um dia.

Sinto a imensa solidão de ser tudo isso que ouço e vejo e penso e sinto. Solidário e só, sem dor nem dó, “assisto no que assisto” – truque semântico que nos poupará de muitas frases, leitor.

“Tudo é bom”, me disse Kim um dia citando Glauber.

O bem-te-vi diz quem é ao longe e, no fundo da paisagem, as palmeiras coloniais indicam que isto é a eternidade.

Não há ninguém nas varandas nem nas janelas. Apenas eu debruçado no parapeito faço este exercício de caligrafia. “As nuvens são a caligrafia do vento”, escrevi ontem. Caligrafia: há quanto tempo não me via assim exposto neste espelho: vejo-me na minha letra – e todos que me foram exemplo, desejo, inveja. Sou tantos… Sou todos: sou eu.

A voz, a letra, as palavras que escolho são também eu – e mais essa vista que conheço há 50 anos já – e que muda sem envelhecer.

Tudo sou eu e ainda mais há para ser. Nem na morte cessarei.

Deus é grande e quis ser homem. Talvez isso explique a Criação.

Não sei… Sei que chove e isso é bom. Com certeza.