Família

Passo em revista minha tropa de solitários de bom coração: The Misfits. Sinto uma inesperada vontade de chorar. Como uma pontada. Um grão de mostarda. É amor, não é tristeza. Construí uma família que não é segundo a carne, mas segundo o espírito.

De súbito, imaginei nós todos – eu, paloma, gui, pê, sofia, mat e daisy – na terra de meu pai – onde tudo começou. Vila Garcia. Trancoso. Portugal é meu pai e Fernando Pessoa. E o mar.

Voltaria de navio. Sozinho.

O amor. O mar.

La mer. Em sua profundeza o mar é mulher, a despeito de suas iras tão masculinas. Sou Pessoa, mas temperado por Baudelaire.

(Mas em português do Brazil me sinto tão Rubem, tão Maria…)

Laços espirituais. Não creio em reencarnações, mas creio na comunhão dos santos. No Corpo Místico cujo cimento e fermento é o amor.

Laços espirituais. Não creio em reencarnações, mas creio na comunhão dos santos. No Corpo Místico cujo cimento e fermento é o amor.

Bendita

bendita luz azul que me deste
benditas plantas, benditas flores
benditas luzes de outras cores que me deste,

os muitos tons de laranja que se espalham em arranjos pela casa me envolvem num manto de luz sempre suave, sempre intensa: e assim me quero.

benditas as luzes todas que me deste, paloma
as flores
as cores
bendita é toda graça:

a extrema delicadeza é saber equilibrar-se

Chuva

Acordei com a chuva. Não resisti: fui para a janela ouvi-la mais do que vê-la, sentir sua umidade na pele, os ínfimos respingos que sobre mim se salpicavam num dinâmico e discretíssimo do-in. Via os relâmpagos e calculava a distância e direção das nuvens mais carregadas pelos trovões que logo se seguiam. Era como se eu estivesse no mar.

Se eu viajasse de novo queria ir por mar.

Fui ficando na janela, distraído e atento – “como um rádio”, me ocorreu a analogia meio sem pé nem cabeça… Gosto de janelas. Gosto de assistir ao movimento aleatório do mundo… Ouça! Acabo de capturar o som distante de um rebocador abrindo caminho para algum navio na baía nevoenta! De novo! Sim, é um rebocador. Ele faz soar sua sirene como um lamento de baleia para avisar aos barcos menores que se afastem do seu caminho… Viajei muito de navio quando estive nas ilhas gregas, há 40 anos. Eram viagens curtas, mas que às vezes varavam a noite, o convés repleto de uma garotada muito louca e feliz. Como eu gostava daquilo…

Cessou a chuva e com ela meus devaneios. Perdi o sono. Vou fazer um café e trabalhar no úmido silêncio deste resto de noite sem estrelas.