A Eucaristia

É difícil imaginar algo mais singelo que a Eucaristia. No começo, dizem, era um pedacinho de pão molhado no vinho. Hoje é uma hóstia, um biscoitinho muito leve, quase sem gosto, que se dissolve na boca sem esforço. É o que basta para que Cristo ressuscite em nós – como um segredo sussurrado no escuro dos olhos fechados em meditação e prece muda. A missa segue e logo se acaba e o mais incrível e comum dos milagres se realizou em todo seu mistério sem alarde nem pompa. É como se Deus quisesse nos mostrar como pode ser simples a vida sobrenatural, como ela não demanda esforço de nenhuma ordem, a não ser a boa vontade quase infantil de “tomar parte”, de “fazer parte”…

É de uma singeleza, de uma simplicidade. E, no entanto, não há inteligência que dê conta do que ocorre no altar. Por outro lado, quando se está ali, a hóstia ainda se desmanchando na boca, que importa entender, se aquela experiência é, intuímos de todo o coração, o mais alto que nossa alma pode alcançar?

“Tudo é palha!”, disse São Tomás de sua Suma e de tudo mais que escreveu depois de uma epifania que o fez levitar, segundo contam… “Querem tua túnica? Dá também o manto!”, pois naquele instantizinho não é que as coisas não tenham mais valor, não é isso, é que de súbito aboliu-se toda a dualidade por onde trafega a razão com suas medidas.

O instantizinho passa, porque é da nossa natureza presente deixá-lo passar. Mas ele parece que vai se acumulando em algum fundo ainda escuro, até que um dia virá à luz… Por enquanto, “Ite, missa est”: tudo volta a ter valor, mas agora revestido de uma beleza tocante, porque é a forma das coisas de exibir sua verdade…

A pedra e o vento

Se São Pedra é pedra, São Paulo é vento.

Essa imagem me ocorreu ao ler a missa de São Pedro e São Paulo, enquanto esperava no silêncio da capela a entrada do padre para a celebração da festa.

“Tu es Petrus, et super hanc petran edificábo Ecclesiam meam”, está escrito na Comunhão. E eu imaginava, num latim ruinoso, que Jesus também poderia dizer, “Tu es Paulus, et sub hanc vocem edificábo Ecclesiam meam”…

Oração a São José

Querido São José,

Jesus disse “Sede perfeito como vosso Pai é perfeito”.

Como o senhor cumpriu o papel do Pai Eterno na vida de Jesus e Maria, por favor, seja para mim o modelo da perfeição possível neste mundo. Impregna-me desse amor prático e firme que devotaste aos dois, e me inspira a humildade, a paciência e a pureza que te são tão próprias.

Toma-me como filho, São José, e faz de mim imagem tua. Que eu não me perca mais em gestos e palavras vãs e viva como vós em desperto silêncio, no mundo, sem ser do mundo, a orar e laborar, como secreto monge que conhece sua missão e a si mesmo.

Amém

Meu eu filho

Meu Filho, Paloma Perez, 2005 – acrílica sobre tela, Acervo Câmara Municipal de Lisboa

Meu filho, 
a última vez que fui moderno 
foi no tempo do ieieiê.
Depois disso, fui só louco,
louco, louco, louco:
louco de pedra, louco de flor.
Louco sem tirar nem por. 
Desses de quem dizem os amigos: 
“Coitado…” 
– e mandam ao bar comprar cervejas e cigarros,
já com o dinheiro contado na mão.

Pois eram tantos eus 
que me calavam de espanto
por detrás dos olhos rútilos,
que ao passar as velhinhas se persignavam,
imaginando o filho dileto de Deus.

E assim correu a eternidade que me coube…

Não houve bem nem fim nem cura:
um dia, se cansou de mim
a loucura e eu dela 
nem senti falta:
virei de repente
um rapaz muito manso,
um anjo de pijamas,
que com cuidado amava 
as mais bonitas moças desvalidas 
e a elas dedicava poemas de princesa.

E lia, lia, lia –
sem estardalhaço nem cansaço – 
tudo em que encontrasse um coração pulsando…

E nem me dei conta de que fui ficando velho,
os cabelos passando de castanhos a cinzas e depois brancos,
as calças que já não cabiam, 
as camisas que encardiam,
e eu de fato me achando cada vez mais moço, 
o corpo com a alma tão confundidos, 
que enfim entendi porque se diz que é eterna a vida. 
Porque, se é eterna, é só uma e nunca se acaba.

E era isso que já eu suspeitava
quando era louco, louco,
louco de pedra, louco de flor…

A guerra é sobrenatural

Houve um tempo em que no Reino da Igreja a luz nunca se punha. A cada segundo, em algum lugar, uma missa começava, sempre igual nos gestos e palavras em latim, e o mundo vivia então envolto por um coro de vozes sussurradas que simulava, no limite do humano, a eternidade dos anjos em sua louvação a Deus.

E assim o catolicismo resistia à pressão das trevas. Não eram tempos fáceis. E a luta era feroz e desigual. Escritores católicos que desde 1789 resistiam – e são tantos os nomes esquecidos! – se amparavam sobrenaturalmente nesse coro de vozes.

Mas com o tempo – sempre o tempo – o coro foi se apagando, se apagando, se apagando – até que em dado momento as trevas prevaleceram: o tempo engoliu a eternidade – e cada missa hoje é o que o padre pretenda que ela seja, e cada igreja hoje é que o padre pretenda que ela seja, e cada fiel hoje é o que ele pretenda ser. Uma legião de cabeças – e em cada cabeça, uma sentença.

É o tempo pós-conciliar, o nosso tempo.

Num texto que se poderia dizer profético, Dans Les Ténèbres, Leon Bloy percebeu e consignou o que vinha. É o livro mais pesado da literatura ocidental: 30 páginas e toneladas de amargura, tristeza e o que ainda restava de revolta ao guerreiro agonizante.

Ali se anunciava o fim. O ano era 1917. Cinquenta anos depois a derrota era completa. A missa se extinguira, o coro se calara e os espíritos malignos dominavam o ar, os ares. E estão no ar, triunfantes: no rádio, na tv, agora nos celulares, na internet.

Uma derrota completa.

Só em uma ou outra catacumba ao redor do mundo, a velinha de umas missas de verdade resiste ao vento que não cessa, cintilando, aqui e ali, gemendo, esporádicas, mas impávidas. Temos fé.

Mas tão completa é a derrota que hoje se acredita que a guerra é cultural. Vejam só: há católicos que acreditam que a guerra é cultural. Por quê? Porque não são mais católicos. E nem sabem. Engolem resignadamente o biscoitinho insosso que é a hóstia e, às vezes, até recitam a missa em latim. Vejam só, em latim…

Mas acreditam que a guerra é cultural, que existe mal menor, que há alianças táticas nessa guerra… cultural.

São guerreiros de vento lutando contra as fantasmagorias que lhe oferecem os professores de nada: “nós contra eles”, aprenderam – não sabem que a uma certa distância mal se distinguem.

A vontade que dá é gritar: “A guerra é sobrenatural, seu idiota!”.

Mas para quê? Para ouvi-los perguntar: “O que fazer?”, como um leninista de direita, e eu ter de responder: “Rezar o terço!”? Valeria a pena? Talvez valesse…

Mas, não – não para mim. Melhor calar a boca e rezar o terço.