Morellianas

“… ele descobrira que era preciso fracassar, pois sem fracasso não haveria salvação. E não poderia ser um fracasso sem esforço genuíno, o simples abandono de quem sequer tentara, mas o fracasso sofrido e humilhante, repetido obstinadamente até a exaustão física e moral, que o conduzisse à condição de pária, de desprezado, de esquecido. Só assim poderia provar da Graça, reconhecer sua completa gratuidade e imerecimento, e finalmente sentir-se grato.”

Do amor maduro

A flor da orquídea que ganhei em dezembro iluminou meus dias por bem mais de um mês. Depois, foi fenecendo devagar, daquele jeito tão próprio das flores, até finalmente secar e cair.

Mas a beleza não se extingue.

As pétalas perderam seu frescor, mas ganharam a textura de um papel delicadíssimo, onde imagino escrever, em letras miúdas à nanquim, haikais do amor maduro àquela que escolhi.

Acaricio a flor seca, ainda branquíssima e salpicada de tons do mesmo amarelo que antes a tingia. No silêncio, ela farfallha a cada toque, e à vista lembra mesmo uma borboleta:

Bendita és tu.
Pois, como a beleza,
permaneces.

És então o amor
que, como a beleza,
permanece.

Amor que cresce,
distante dos olhos,
no silêncio.

Além do passado,
ou do futuro, o amor
em nós perdura.

Amor maduro,
que se tece de ternura,
e palavras – poucas.

Pois, é terna a voz
que diz “bom dia” a cada dia
e já isso basta.

Saber-te aí.
Ter-me aqui: eis o amor,
suficiente e perto.

As noites de inverno

As noites estão mais longas. Cada vez mais longas. Como tenho acordado cedo, ainda é noite quando desperto, aos poucos, dessa outra vida que são os sonhos. Gosto de vivê-la, essa outra vida, pois lá também o critério da verdade é o corpo, ainda que liberto das amarras da ilusão verdadeira do tempo e do espaço separados, essa limitação que nos impõe a gravidade em que vivemos, e que nos faz pensar (e pesar) que tudo estará sempre inexoravelmente perdido.

Não está. E os sonhos são a prova, a antecipação talvez de uma outra vida onde o corpo glorioso terá de seu para sempre tudo que lhe for próximo, sem diminuí-lo, sem amarrá-lo, mas sobretudo sem perdê-lo. Um corpo espiritual seria – e essa aparente contradição de termos nos dá a vaga ideia de onde tão longe vamos quando sonhamos.

Acordo e ainda está escuro: vou amanhecendo com o dia, me alongando bem devagar, deitado no chão, “o melhor amigo do homem”, como me ensinou minha querida Gi. E como é imenso o corpo se o percorremos de olhos fechados e atentos, escuridão sobre escuridão que só faz destacar as linhas que nos percorrem e bordam no tecido do mundo.

Escuridão, silêncio e o discretíssimo movimento, invisível a quem de fora observasse esse corpo deitado no chão como se dormisse, imerso em si, mas desperto. Toco o que de imaterial sustenta a carne, e devagar me distendo com a delicadeza de quem aos poucos acrescenta fermento à massa do que será o pão, seu alimento.

Enfim, me levanto para dar de comer aos colibris – que daqui a pouco começarão a reclamar o seu sustento, o tanto de carinho que lhes devoto dia a dia – e café às vísceras.

Trago uma boa nova: o corpo é bom. E quem o descobre, descobre o mundo.