As noites de inverno

As noites estão mais longas. Cada vez mais longas. Como tenho acordado cedo, ainda é noite quando desperto, aos poucos, dessa outra vida que são os sonhos. Gosto de vivê-la, essa outra vida, pois lá também o critério da verdade é o corpo, ainda que liberto das amarras da ilusão verdadeira do tempo e do espaço separados, essa limitação que nos impõe a gravidade em que vivemos, e que nos faz pensar (e pesar) que tudo estará sempre inexoravelmente perdido.

Não está. E os sonhos são a prova, a antecipação talvez de uma outra vida onde o corpo glorioso terá de seu para sempre tudo que lhe for próximo, sem diminuí-lo, sem amarrá-lo, mas sobretudo sem perdê-lo. Um corpo espiritual seria – e essa aparente contradição de termos nos dá a vaga ideia de onde tão longe vamos quando sonhamos.

Acordo e ainda está escuro: vou amanhecendo com o dia, me alongando bem devagar, deitado no chão, “o melhor amigo do homem”, como me ensinou minha querida Gi. E como é imenso o corpo se o percorremos de olhos fechados e atentos, escuridão sobre escuridão que só faz destacar as linhas que nos percorrem e bordam no tecido do mundo.

Escuridão, silêncio e o discretíssimo movimento, invisível a quem de fora observasse esse corpo deitado no chão como se dormisse, imerso em si, mas desperto. Toco o que de imaterial sustenta a carne, e devagar me distendo com a delicadeza de quem aos poucos acrescenta fermento à massa do que será o pão, seu alimento.

Enfim, me levanto para dar de comer aos colibris – que daqui a pouco começarão a reclamar o seu sustento, o tanto de carinho que lhes devoto dia a dia – e café às vísceras.

Trago uma boa nova: o corpo é bom. E quem o descobre, descobre o mundo.

Labirinto

… sonho
que sou teseu
e perdi o fio

no labirinto
(tedioso e tenso)

por onde vago
em imprecisas
repetições:

sempre de volta
ao que parece ser
o mesmo ponto
(mas não exatamente)

sempre contra o tempo
que sei
(sem saber porquê)
cada vez mais
escasso

esqueceu-me
ariadne
ou
esqueci-a
eu?
ou
serei eu
o minotauro?

não há espelhos
nos labirintos
nem nos sonhos

(porque são espelhos
os labirintos
e os sonhos)

?

Dos amigos da rua

Minha primeira preocupação, quando a ideia da quarentena se impôs, foi com os meus amigos da rua. Sei, porque converso com eles, que eles vivem um dia de cada vez.

Alguns conheço pelo nome. O Luciano, por exemplo, é um homem grande, forte, mas doce como criança, que se tornou mendigo talvez por conta de problemas mentais. Ele some às vezes, mas, quando aparece, fica sentado sempre no mesmo lugar, o que é uma característica comum de quem não tem casa.

Uma vez lhe perguntei porque escolhera aquele lugar e ele tentou me explicar que ali, numa determinada hora do dia, descia uma luz do céu que ele não teve palavras para descrever. Em sua ansiedade para me revelar esse segredo essencial de sua existência, ele lutava com as palavras e a própria gramática parecia não dar conta da epifania quase diária que ele experimentava naquele lugar. Eu, que conheço bem essa dificuldade, fiquei comovido com ele partilhá-la comigo.

Jamais vi Luciano pedir. Ele simplesmente fica ali, largado no chão, conjecturando, muito atento à sua vida interior e ao que, externamente, é invisível aos passantes. Mas sempre que lhe dou alguma coisa – dinheiro, comida, bom dia, papo – ele agradece surpreso, como se não esperasse nem precisasse disso.

Outro dos meus prediletos é o Marcelo. Ele fica numa esquina movimentada do Catete tocando reggae e rock, só na voz e violão, sem o artifício nefasto da amplificação sonora. Só por isso mereceria o meu respeito. Ele é um negro retinto, muito magro, curtido de sol e tempo, com uns dreadlocks longos e bem cuidados que lhe dão ares de xamã.

Uma vez, ele me contou que já trabalhara em muitas coisas mais regulares pelo Brasil afora, mas o impulso da arte foi mais forte e, um dia, ele mandou tudo às favas, aceitou a sua sina e foi viver do risco de ser artista. Sempre que posso, especialmente nos dias nublados ou chuvosos, me esforço para salvar seu dia.

Há também o seu Zé Carlos, um senhor muito preto também, pequenino, ágil, e elegantíssimo. Aliás, mais do que isso: fashion, sempre combinando cores e tons fortes na medida, apesar das roupas simples. Ele tem estilo, enfim. Vende plantas aromáticas e medicinais, e produz seus próprios chás, segundo receitas que aprendeu nos livros. Usa um carrinho que lembra aqueles de pipoca, com tudo muito bem organizado e limpo. É um espetáculo visual vê-lo em seu ponto.

Uma vez, fomos juntos ao terreno baldio onde ele guarda suas plantas. O terreno fica nos fundos de uma loja e resultou, presumo, da derrubada promovida pelo Estado para a construção do metrô. Como está longe da rua e cercado por muros altos, ninguém se dá conta de sua existência. Mas seu Zé Carlos tem a chave da porta de metal que dá acesso ao terreno. Para mim, foi como atravessar um portal para outra dimensão, ao mesmo tempo mágica e perigosa, inacessível aos mortais comuns. Parecia esses jardins meio selvagens das fábulas infantis, e descobri, para minha surpresa, que seu Zé Carlos também o usava para cultivar algumas de suas plantas. Incrível…

Enfim, enclausurado voluntariamente há tantos dias seguindo o que me parece um dever cívico, penso nesses companheiros de viagem cotidianos e sinto saudade deles. É bom tê-los para poder lembrá-los e rezo para que estejam bem.