Burrinho de presépio

Sempre que rezo o Terceiro Mistério Gozoso do Rosário, que é o nascimento de Jesus, lembro que fui burrinho de presépio na festa de Natal do meu primeiro ano primário. Escola Estadual Rodrigues Alves, um prédio lindo, demolido para a passagem da serpente de metal que devorou parte da memória da cidade, do bairro, e minha. É próprio das serpentes devorar nossa memoria, mas isso é outra historia.

Durante muito tempo me envergonhei de ter sido burrinho de presépio. A expressão não é até hoje nada lisonjeira. Significa ser um sujeito Maria vai com as outras, sem muita opinião, um coadjuvante sem expressão nem talento. Como eu já tinha sido o padre que na festa junina de uns antes casara minha namorada platônica com o meu inimigo íntimo, ter sido escolhido pra burrinho parecia vaticinar para mim um destino nada glorioso: “Vai, Antonio, ser trouxa na vida!”, diria o verso que não fiz.

Lembro que cheguei a imaginar que seria um rei mago ou quem sabe até José. Meu melhor amigo, um menino preto, fora escolhido pra ser um dos reis magos. Me parecia natural que eu fosse um dos outros, se afinal ser rei no Natal era alguma forma de compensação.

Quando os personagens masculinos humanos se esgotaram, a melancolia foi tomando conta de mim. Aquele não fora um ano bom pra mim por isso meu pessimismo não me deixava alimentar esperanças angélicas. Sobravam ser burro, ovelha ou vaca. Acabei foi burro mesmo.

A roupa era um desastre: as orelhas eram caídas, ela exalava um cheiro de suor acumulado de séculos, a cor era de burro quando foge, um marrom desbotado e o tecido pinicava que era um horror.

E assim me tornei o burrinho eternizado numa foto que durante décadas me custava muito rever. Foi só agora rezando o terço que acabei me afeiçoando do burrinho que fui…

Primeiro porque a despeito da desastrosa caracterização do burrinho no presépio da escola, os burrinhos de presépio quase sempre se apresentam com grande dignidade, cinzas e garbosos, com suas orelhas levantadas muito atentas.

Ele como todos os animais do presépio transmitem uma tranquilidade como se fossem os que melhor ali entendem o que está se passando. Eu realmente tenho a impressão que os animais da estrebaria sabiam – com aquele saber muito exato dos bichos – que estavam diante do seu Criador. E viviam aquilo tudo com a maior naturalidade.

Mesmo os reis magos não tinham essa clareza toda. Os pastores então, misturavam perplexidade e êxtase e como sempre acontece conosco nessas horas “não tinham palavras”. Só mesmo os bichos estavam ali sossegados, completamente à vontade, curtindo aquele momento único, que se confundia com o primeiro momento da Criação – e, de certo modo, era isso mesmo.

E, entre todos os bichos, o burrinho é o mais simpático e sereno – sem querer com isso puxar a brasa pra minha sardinha. É que aquelas orelhas em pé dão um ar sábio ao silêncio dele…

Com o tempo, quanto mais rezava o terço e pensava no burrinho, mais lhe ia descobrindo dignidades. Por exemplo: aquele burrinho do presépio não é um burrinho qualquer: é o burrinho da Sagrada Família! Foi nele que Nossa Senhora grávida veio montada até Belém. Depois, foi nele que ela voltou com Jesus nos braços para Nazaré. Ah, e mais tarde, foi nele de novo que eles fugiram pro Egito pra escapar de Herodes.

Além disso, esse burrinho deve ter sido o primeiro bicho de estimação do Menino Jesus e certamente tinha até nome – que isso de dar nome aos bichos é coisa antiga que começou lá no Genesis.

E também não devemos esquecer que foi montado num burrinho que Jesus entrou em Jerusalém no Domingo de Ramos. Aliás a história desse burrinho é espetacular. Vá lá que o leitor argumente que não podia ser o mesmo burrinho. Afinal, já lá se iam 30 e tantos anos. Mas podemos admitir que eram parentes. Ah, e ainda tem aquele burrinho que a pedido de Santo Antonio, ajoelhou-se diante da cruz…

Enfim, hoje me orgulha muito ter sido burrinho. Acho um bom sinal. E sempre rezo para que Deus me olhe com o mesmo olhar que dedicou aquele burrinho e me conceda a mesma paz e entendimento que ele deve ter gozado. Amém.

Quanto à foto, mandei enquadrar e pus na parede, próxima dos meus santos, para que por aqui sempre seja Natal.

O menino e a rosa



A rosa atravessa as trevas,
e desde o chão de cor inunda o nada,
como o Sol que com sua chama nutre a vida,
num circulo incessante que une Céu e Terra.

É um coração pulsante de dor e júbilo,
a Rosa Meditativa.
Bulbo, haste, pétalas
que um menino feito Jesus sustenta,
tão leve, no ar.

Para onde vai o menino com sua rosa?

Para o alto!

Com sua rosa-balão-sol-estrela,
o menino voa sem sair do chão,
menino-monge, um só com sua rosa,
dupla natureza envolta no Mistério.

“Em verdade, vos digo
que se não vos fizerdes meninos…”

Mas não haverá menino
sem Rosa que o eleve,
Rosa Mística,
que no coração se acende
de quem a procura
e acolhe a graça de recebê-la.


O menino e rosa, Paloma Perez, 2019. Óleo sobre tela.