Do que Deus concede aos amantes

Dia claro e a Lua ainda alta,
como se a manhã, usurpada, agora fosse sua –
calma soberana muito branca e luminosa.

E o Sol, contente em adiar-se,
espalha uma luz ainda mais rubra sobre o mundo
como se consentisse com tamanha petulância.

Sabem os dois que à Lua pertence
o veludo salpicado de brilhantes onde repousa.
E o Sol faz labutar toda a Terra sob o ritmo árduo do Céu
que reflete o Mar, servo da Lua e seus humores.

Mas hoje, só por hoje, concedem-se esse longo instante
A que, por direito, têm todos os amantes
De esquecer-se
Sendo um só
E cada um
o outro.

Meus vizinhos de janela

Cultivo meus vizinhos de janela como se fossem plantas minhas. Eu os cultivo, mas sigo a regra simples da boa rega: não os encharco de olhares invasivos. Apenas cuido deles com o mesmo olhar úmido de afeto que dedico às minhas plantas.

Não são muitos esses vizinhos porque a maioria se oculta por trás de grossas cortinas. Não os condeno: são plantas de sombra. Mas, como eu, há os que precisam de luz, de ar, de ver passar o tempo em brancas nuvens na brisa sempre incerta. Eu os admiro porque não temem o olhar dos outros – não se exibem, sedutores; apenas estão lá, concentrados em ser e crescer, dados e alheios, isentos de malícia.

Cultivo meus vizinhos pela mesma razão por que cultivo plantas: gosto de ver o curso da vida em sua discreta e obstinada singeleza. Preciso disso, sinto falta disso.

Para alguns até invento nome. Há dois irmãos, uma moça e um rapaz, ele o mais novo. Cada um tem seu quarto e passam os dois boa parte do tempo acredito que estudando, lendo e pesquisando na internet. A ela chamo de Rosa porque parece uma pessoa muito determinada, capaz de ficar horas no computador quase sem se mover. O rapaz, ao contrário, passa mais tempo na cama lendo, mas se mexe muito. Por isso o chamo de Gerúndio, que parece nome de flor e é o tempo verbal do que não pára quieto.

Há uma senhorinha que mora sozinha no último andar, num quarto e sala com varanda onde ela cultiva umas poucas plantas, mas entre elas… um girassol! Ele é alta, negra, seca, já um tanto curvada pelo tempo. Todo dia, no cair da noite, ela vai para a varanda e reza. Eu a chamo de Dona Flor de Pedra, tão antiga ela é, tão primordial e arcaica, tão forte e frágil como a própria vida.

Há um senhor que é passarinheiro e todos os dias, bem cedo, põe as gaiolas dos seus passarinhos na janela pra tomar sol. Moram com ele a filha e dois netos, além de uma empregada. Não lhes dei nomes porque pouco os vejo, mas às vezes à noite me calha de chegar na janela e vê-los à mesa jantando. Há nisso para mim uma graça comovente quase pré-histórica.

Ah! Lembrei agora de um velhinho de cabeça branca que todos os dias no fim da tarde vai pra janela assobiar pros cachorros da minha vizinha do térreo até fazê-los latir. Nem sempre dá certo, mas ele se diverte assim mesmo. É muito engraçado! Ele não tem ainda um nome, mas como parece uma coruja visto daqui, com seu nariz pequeno e adunco, vou chamá-lo de Seu Coruja… Não é nome de planta, mas é tão a cara dele… Que seja!

Enfim, há ainda os que não vejo, apenas ouço. Mas desses falo outro dia.

A espessura da realidade

Acusam-me de fugir da realidade e refugiar-me no sonho. Penso que não se pode considerar a realidade como um panorama de superfície única, pois uma paisagem tem várias camadas, e a mais profunda – aquela que somente a linguagem poética pode revelar – não é a menos real.

Quero ir além da epiderme das coisas. Chamam a isso “gosto pelo mistério”. Aceito de bom grado a expressão, com a condição de escrever mistério com M maiúsculo. Porque não me refiro ao mistério, cultuado por alguns, que não passa de um sucedâneo poético com que querem salpicar a realidade. Para mim, o Mistério é o mistério do homem, as grandes linhas irracionais de sua vida espiritual: o amor, a salvação, a redenção, a encarnação…

No centro dessas camadas sucessivas está Deus que, para mim, é a chave dos mistérios.
Creio que Jesus é não somente o maior personagem da História da Humanidade, mas que ele continua a sobreviver em todo aquele que se sacrifica pelo seu próximo.

Ignoro os dogmas católicos. Sou, talvez, um herege. Meu cristianismo é bruto. Não frequento os sacramentos. Mas penso que a oração poderia ser considerada como uma ginástica que nos aproxima cada vez mais do sobrenatural. Pratiquei-a antigamente. Agora, só sei rezar na hora do medo e da tristeza. É preciso saber rezar na hora da alegria.

Entrevi o caminho da salvação. Antes, a religião era, para mim, uma simples suspeição da alma. Um dia, encontrei um anjo que me estendeu a mão. Segui-o. Mas, depois de ter dado alguns passos, deixei-o e voltei atrás. Ele, porém, permaneceu em pé, no mesmo lugar, esperando-me. Eu o revejo nos momentos de sofrimento, cada vez um pouco mais envolto em brumas. Eu lhe digo: “espera”, “espera”, como eu o faço com qualquer um. Receio que, um dia, eu o chame e não mais o possa encontrar.

Mais do que Jesus, o anjo foi sempre aquele que me despertou do meu torpor espiritual.
Quando eu era criança, ele era a encarnação de um mundo fantástico. Depois, ele se tornou a encarnação de uma urgência moral.


Esse texto é atribuído a Federico Fellini.

É tão bonito que me parece plausível.

Deixei para revelar o autor no fim para que o leitor provasse da sua beleza sem se deixar contaminar pela autoria. Busquei o original em italiano ou a versão em inglês ou francês, mas não achei. Talvez não tenha me esforçado o bastante. Dei uma ajeitada na tradução para o português. Troquei “espessura” por “camada” no texto, mas no título usei a palavra “espessura” porque ela denota a soma das camadas – que é, no fundo, do que se trata. Mudei também alguns tempos verbais, cortei alguns pronomes, e um ou dois adjetivos supérfluos. O texto ganhou mais fluidez, sem perda de sentido.

Pensei em rubricar uma frase, mas essa ênfase seria minha e não de Fellini. Por isso, por fidelidade, desisti. A frase é esta: É preciso saber rezar na hora da alegria. A ideia envolve gratidão, mas vai muito além disso. Tem a ver com aquilo que os padres chamam de “amizade com Deus”.