A aposta de Pascal

Logo saberemos.
É só nossa ansiedade que faz parecer longa a espera.
“Aproveitar a vida” não depende de crenças,

mas do talvez nem tão misterioso gosto
de ser barco ou de ser porto,
de ser livro ou paisagem.
Pouco ou nada escolhemos,
ainda que sejamos livres,
livres até o ponto do desespero.

Logo saberemos.
E quanto mais perto o momento presumido,
mais calmo eu me sinto.
Outros ao contrário parecem atônitos com os efeitos do tempo.
A mim, envelhecer é a novidade nem sempre cômoda de agora.
Não reclamo: quase morri de juventude.
A velhice ao menos me parece mais segura.

Logo, logo saberei.
A esperança na continuidade – que decorre da fé – não me apressa, mas atiça a curiosidade: como será?
E o que me resta de ceticismo contrapõe: e se não houver nada?
Ora, nada saberei.

Minhas memórias, esta modesta biblioteca, o prazer da metafísica e da oração são minha metrópole que percorro como um flaneur. Por ora, basta-me. E teria me bastado, se nada mais houvesse.

Às vezes, penso vislumbrar um jardim.
Não tenho pressa. Logo saberei.

As plantas

A plasticidade das plantas me encanta. Fixas, elas tomam formas inesperadas em sua ânsia de sol. Silenciosamente o procuram, com a discrição obstinada dos monges: não as vemos mover-se, mas elas seguem incessantes, como se quisessem evitar o testemunho de nossos olhos, como se quisessem nos mostrar o quanto são também espírito.

Gosto de colocar pedras junto dos vasos e imaginar que as plantas são bailarinas e as pedras escafandristas ou simples homens petrificados de amor. As plantas dançam para as pedras que só para elas têm olhos de ver…

Não sei se me sinto mais pedra ou mais flor. Pode ser que dependa do dia: se há mais sol ou mais vento, se chove, se faz frio. Não sei. Mais certo é que seja os dois alternadamente. Algo me diz que ser homem é já ser um pouco tudo. Não sei. No Genesis, Deus chama Adão pra dar nome às coisas. Dar nome não é criá-las, mas encantá-las.


“Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome.” Genesis, 2:19