Dos muitos matizes

Desfalece o dia em matizes de azul
ou será a noite que aos poucos se acende?
A quem pertence tamanha intensidade?
Morte e vida, início e fim,
tudo em mim às vezes se confunde
e me acalma uma espécie de tristeza
que se ampara no que lá fora sinaliza
mundo e Deus entrelaçados,
mistério inexplicável de tão simples,
jugo leve de quem espera
na fé do que não sabe,
mas pressente
nos azuis do céu
e na alma matizada.

Do que Deus concede aos amantes

Dia claro e a Lua ainda alta,
como se a manhã, usurpada, agora fosse sua –
calma soberana muito branca e luminosa.

E o Sol, contente em adiar-se,
espalha uma luz ainda mais rubra sobre o mundo
como se consentisse com tamanha petulância.

Sabem os dois que à Lua pertence
o veludo salpicado de brilhantes onde repousa.
E o Sol faz labutar toda a Terra sob o ritmo árduo do Céu
que reflete o Mar, servo da Lua e seus humores.

Mas hoje, só por hoje, concedem-se esse longo instante
A que, por direito, têm todos os amantes
De esquecer-se
Sendo um só
E cada um
o outro.

Meus vizinhos de janela

Cultivo meus vizinhos de janela como se fossem plantas minhas. Eu os cultivo, mas sigo a regra simples da boa rega: não os encharco de olhares invasivos. Apenas cuido deles com o mesmo olhar úmido de afeto que dedico às minhas plantas.

Não são muitos esses vizinhos porque a maioria se oculta por trás de grossas cortinas. Não os condeno: são plantas de sombra. Mas, como eu, há os que precisam de luz, de ar, de ver passar o tempo em brancas nuvens na brisa sempre incerta. Eu os admiro porque não temem o olhar dos outros – não se exibem, sedutores; apenas estão lá, concentrados em ser e crescer, dados e alheios, isentos de malícia.

Cultivo meus vizinhos pela mesma razão por que cultivo plantas: gosto de ver o curso da vida em sua discreta e obstinada singeleza. Preciso disso, sinto falta disso.

Para alguns até invento nome. Há dois irmãos, uma moça e um rapaz, ele o mais novo. Cada um tem seu quarto e passam os dois boa parte do tempo acredito que estudando, lendo e pesquisando na internet. A ela chamo de Rosa porque parece uma pessoa muito determinada, capaz de ficar horas no computador quase sem se mover. O rapaz, ao contrário, passa mais tempo na cama lendo, mas se mexe muito. Por isso o chamo de Gerúndio, que parece nome de flor e é o tempo verbal do que não pára quieto.

Há uma senhorinha que mora sozinha no último andar, num quarto e sala com varanda onde ela cultiva umas poucas plantas, mas entre elas… um girassol! Ele é alta, negra, seca, já um tanto curvada pelo tempo. Todo dia, no cair da noite, ela vai para a varanda e reza. Eu a chamo de Dona Flor de Pedra, tão antiga ela é, tão primordial e arcaica, tão forte e frágil como a própria vida.

Há um senhor que é passarinheiro e todos os dias, bem cedo, põe as gaiolas dos seus passarinhos na janela pra tomar sol. Moram com ele a filha e dois netos, além de uma empregada. Não lhes dei nomes porque pouco os vejo, mas às vezes à noite me calha de chegar na janela e vê-los à mesa jantando. Há nisso para mim uma graça comovente quase pré-histórica.

Ah! Lembrei agora de um velhinho de cabeça branca que todos os dias no fim da tarde vai pra janela assobiar pros cachorros da minha vizinha do térreo até fazê-los latir. Nem sempre dá certo, mas ele se diverte assim mesmo. É muito engraçado! Ele não tem ainda um nome, mas como parece uma coruja visto daqui, com seu nariz pequeno e adunco, vou chamá-lo de Seu Coruja… Não é nome de planta, mas é tão a cara dele… Que seja!

Enfim, há ainda os que não vejo, apenas ouço. Mas desses falo outro dia.