Só há uma vida, a eterna

“Já estamos na vida eterna!”. Essa ideia me ocorreu como um estalo. É daquelas que parecem tão claras que não exigem explicação. Mas, é óbvio que exige. Aí, o que era auto-evidente torna-se um enigma: como explicar? Tento visualizar os elos da corrente que me conduziram à conclusão e reordená-los de modo que não pareçam um sonho, mas uma paisagem…

De cara, penso que, se somos uma composição de corpo e alma um tanto desconjuntada pelo pecado original, que inoculou a morte (e o trabalho!) no que era para ser o Paraíso; mas, ainda que nos advenha a morte do corpo, o espírito é imortal e essa morte do corpo provisória, porque em algum momento, no dia do Juízo, corpo e alma serão restabelecidos em sua unidade original, e uns conhecerão de Deus a Justiça, e outros, a Misericórdia. E a uns será dado o Esquecimento e a outros o Perdão; logo, “onde, ó morte, está teu aguilhão?”. Esta vida – que inclui essa morte temporária (ou temporal?) – faz parte, de um modo misterioso (porque está além das palavras), mas compreensível, da Eternidade.

Se conseguíssemos de fato perceber isso, viver isso em toda a sua atualidade – “com todo o corpo e com toda alma” – o jugo dessa vida seria de fato leve.

O que nos cega?

Lembrei de um conto de Borges (que nem católico era), A Rosa de Paracelso, onde, em dado momento, ele escreve:

“¿En qué otro sitio estamos? ¿Crees que la divinidad puede crear un sitio que no sea el Paraíso? ¿Crees que la Caída es otra cosa que ignorar que estamos en el Paraíso?“.

É essa exatamente a impressão que às vezes me assola.

Dança da chuva

Adoro essas chuvas de lavar a alma da lama que nela se acumula. Mas em mim alguém também lamenta quando lembra que para muitos essa chuva nao é bem, e sim flagelo que afoga, arrasta, mata e expõe flagrante a miséria que sob o céu sem nuvens a uns constrange e a outros nem abala. É como se de luto eu dançasse eufórico sob a chuva, um tanto doido, um tanto santo, cego ao olhar hipócrita dos passantes. Pois desde muito antes que em mim se acendesse a consciência, já esse som efervescente, os úmidos afagados das lufadas de vento fresco, uma ou outra gota que pousa fria para surpresa do pele num ínfimo êxtase, tudo isso já no berço me encantava, ainda quando os olhos mal sabiam ver. Então não será a torpeza flácida dos homens entres os quais me incluo que irá abalar o gozo íntimo que essa chuva me provoca. Danço, por dentro danço em júbilo. Se de luto como um santo ou nu como um doido revoltado, nem sei e nem me importo. Danço.