Dos muitos silêncios

Eu me nutro de silêncios. Não de um impossível silêncio absoluto, figuração do nada, mas de silêncios. Dos muitos silêncios que nos envolvem e povoam.

Há o jazz e tudo que nele evoque o imenso Bill Evans.

Há essa delicada polifonia de sons distantes e efêmeros, tantos que incontáveis: é a vida, múltipla e incessante, em sua discreta exuberância – e os ouvidos divertem-se em distingui-los.

Há o silêncio dos livros velando por nós. Os livros que são mais uma espécie de anjo que Deus nos inspira a criar para o reforço da nossa guarda. Sim, são como anjos, únicos e imateriais em sua essência: cada livro é um livro, como cada anjo é um anjo.

E há o mais magnífico de todos os silêncios: a oração. Tão delicado, profundo, extenso que, às vezes, em sua pureza, pode prescindir das palavras. E o que se ouve então é como um vento que o corpo capta, todo ouvidos: “Exaudi me Domine”. E no silêncio ouço que Tu me ouves. E isso me basta.

Desautorizada esperança

Levai as almas todas para o Céu” – Nossa Senhora de Fátima nos ensinou a pedir a Jesus na oração do terço. E se ela nos diz que rezemos assim, pedindo por todas as almas, deve ser porque sabe que Jesus nos ouvirá: no Juízo Final, todas as almas será salvas, seja por Justiça, seja por Misericórdia. A Justiça está reservada às almas do Purgatório; a Misericórdia, às almas do Inferno.

É tamanha a Misericórdia de Deus que até o sofrimento eterno terá fim: pois será eterno só enquanto durar a Queda. Aquele que sofre no Purgatório, sofre no tempo, como uma alma convalescente. E aquele que sofre no Inferno, sofre na eternidade, sem esperança – só a Misericórdia de Deus pode salvá-lo. E salvará.

Ao menos essa é a minha desautorizada esperança.

Por isso, contra todas as recomendações dos teólogos, rezo também pelas almas daqueles que a jurisprudência teológica afirma que devem estar no Inferno. Alguns são meus amigos; outros, gente que nunca vi: escritores, músicos, pintores, musas, doidos que apenas se perderam no caminho. Rezo por todos. Não posso acreditar que Bill Evans, por exemplo, seja lá onde esteja agora, não acabará no Céu – talvez contra todos os cálculos teológicos e magisteriais. Nessas horas, me amparo nas bem-aventuranças do Sermão da Montanha, um alívio para as almas desassossegadas,e lembro da simpatia que Jesus devotou aos rebeldes e desprezados.

Enfim, rezo. É de graça.

A fé e a flor

Tenho fé não por vontade minha ou por força de argumentos, mas por um encantamento que me vem da contemplação da vida e dos mistérios revelados. Será esse encantamento o que chamam graça? Até dizemos de algo que nos encanta que “é uma graça”. Ou, quando algo nos surpreende, dizemos que é “engraçado”, palavra que também usamos pra tudo que nos deixa alegres ou nos faz rir.

Sim, certamente a fé é uma graça. Como não ter fé depois de contemplar os mistérios gozosos do Rosário ou a vida em sua silenciosa obstinação?

Não foi a razão ou a vontade que me trouxeram a fé. A razão e vontade são instrumentos a serviço da sobrevivência e da reprodução: cálculo, sedução, decisões, escolhas. A fé é uma intuição que a imaginação completa a partir dos dados presentes – “gato escondido com o rabo de fora” – e que me vem por uma espécie de inteligência espiritual, que é esse poder de encantar-se.

Lembro de mim muito menino encantado em ver que a luz do sol que entrava por uma fresta da cortina revelava o ar povoado de uns minúsculos seres flutuantes que de outro modo não se viam. Muito depois, quando aprendi a ver constelações no céu, ficava pasmo de passar do caos ao cosmos num piscar de olhos.

Falo, enfim, de encantamentos, essas coisas que nos deixam sem palavras, sem fôlego, em êxtases diversos: às vezes, imóveis de tão perplexos, às vezes, valsando de alegria.

A fé é a descoberta de algo que sempre estivera lá e agora nos chega num estalo: inexplicável, involuntária, gratuita. É como essa flor que não vi desabrochar seu esplendor: abriu-se, enquanto eu dormia. Como se abrirá a outra, tenho fé.