Calor. Muito calor. O prédio devia ser feito biruta e acompanhar sempre o vento. Quando há vento. Agora-agora não há vento. O custo desta vista aberta para o leste é que o sol bate direto quase o dia todo. À noite, o calor liberta-se. Dissipa-se, como se diz. Mas, se não há vento, o calor parece que vai ficando grudado nas coisas da casa, no corpo.
Foi assim a noite toda e agora, de manhã, persiste:
o dia parece imóvel no silêncio. Um silêncio
brilhante, veemente, onde bate um vento relutante, que não
chove nem deixa chover. Uma alma tormentosa tem esse vento
quieto pelo que se vê do céu onde desenha nuvens
em grandes pinceladas de Van Gogh.
Às vezes parece norte, às vezes parece leste...
Está certo que esta janela dá direto para o
nordeste, o que talvez amplifique essa indecisão e
explique essas nuvens espiraladas e esse ar parado na contradição
que se cria entre um vento que vem do mar e outro que vem
lá do interior do continente.
Repara que parece de novo o leste, agora mais forte. E não
é por acaso que o céu se abre um pouco e logo
a cidade parece que acorda junto com esse sol que também
luta para se firmar: há dias que céu não
se fixa limpo no azul.
Mas são só rajadas. É como se o vento
em silêncio lá no alto de si mesmo se enfrentasse
discretíssimo e às vezes uns jatos escapassem
como um sinal mais evidente. (Olha, olha, as nuvens! Já
mudaram todas!)
Não, não entendo nada de ventos... Mas como
já disse, a janela dá exatamente para o nordeste,
então qualquer vento que entre por ela é alguma
coisa entre norte e leste... Também tenho mania de
visitar esses sites de tempo, onde se pode acompanhar as nuvens
mais ou menos como um anjo as veria: bem do alto.
Assim pequeno, o mundo parece que se humaniza, com seus ritmos
e fluxos de chuvas e ventos, sol e nuvens. O mundo com seus
humores, como um ser humano.
É impossível não se gostar de algo à
medida que se vai conhecendo...
O conhecimento parece que desfaz a impressão do mal.
Quando se observa com atenção, parece que o
mal é uma fraqueza e a violência, uma inabilidade
e uma descrença.
Se olhamos bem, tudo se perdoa.
A gente mesmo fala muito mal do ser humano. Somos ambíguos, volúveis, egoístas, mas, no fundo, no fundo, estamos sempre mais dispostos para as lágrimas do que para o riso. Não quero dizer mais para dor do que para a alegria, e, sim, mais para a compaixão do que para o escárnio.
Não sei se é assim, mas crer nisso é uma forma de esperança. E é melhor ter esperança do que não ter. Não precisa nem ser uma esperança girassol, pode ser uma esperança violetinhas miúdas, dessas que se acham fácil pelas ruas, mas que, com o mínimo de cuidado, vão durando.
Ficou todo mundo impressionado como os animais pressentiram a tragédia e escaparam. É que eles prestam atenção. Os animais, eles sim, ouvem. E entendem. Entendem até o que a gente diz porque nos escutam com uma atenção que muito humano já não sabe dar. Basta que a gente saiba dar o tom do que se quer dizer, basta que a gente fale com o coração. Eles entendem. Porque prestam atenção.