4º Domingo do Advento

A casa de dona Ana não é dona Ana. Podemos intuir quem é dona Ana pela sua casa e por tudo que há nela: seus filhos, seus netos e bisnetos, seus irmãos, as empregadas, as fotografias e quadros, seu jardim, as muitas orquídeas, o balancinho das crianças, os pássaros que se agitam ao entardecer, a capelinha improvisada numa sala: tudo isso só existe porque dona Ana existe, mas tudo isso ainda não é dona Ana. Nos diz muito dela, claro. Ao vê-la – os intensos olhos azuis, o corpo magro e ágil, uma alegria elegante e minuciosa sempre pronta a derramar-se – entende-se que seja assim a casa. Há essa conexão, percebe-se, mas algo do mistério permanece. E em vez de esclarecer-se, ele só se aprofunda: Tudo isso é dona Ana, mas dona Ana é mais do que tudo isso.

Elementar, não é?

Eu poderia dizer o mesmo da minha casa e de mim (ainda que não enxergue em mim nem em minha casa a mesma riqueza. E não estou aqui falsificando modéstias: cada um há de saber descobrir seus próprios tesouros, encantando-se com os alheios, sem cobiçá-los). E assim é com cada casa: cada casa reflete o seu dono. É seu espelho, mas não é ele próprio, que será sempre maior.

E assim é, enfim, com Deus e suas criaturas. O mundo à volta fala-nos Dele, conta-nos maravilhas, mas nada do que diga o mundo é capaz de esgotar Sua grandeza.

Quem entende isso, começa a entender um pouco o mundo, começa a se sentir mais à vontade nele. Quem entende isso, começa…