Chove

Ouço o som efervescente da água se estilhaçando no chão e fazendo subir o cheiro mineral das pedras que arrefecem de repente: chove.

Me sinto mais sozinho quando chove. Os animais também. As rolinhas se encolhem no seu ninho, os outros pássaros somem. Acho que todos se sentem mais sozinhos quando chove. Porque é tudo sempre muito brusco e radical: o céu escurece de súbito, a luz cessa até não haver mais sombras e então o mundo se inverte: chove.

Não tenho para quem ligar. Não tenho para quem dizer: “Eu me sinto mais sozinho quando chove”.

A água desce do céu. Fecha-se o ciclo da eternidade sensível às criaturas: as águas subiram e agora descem de volta: “Sempre atravessarás o mesmo rio, Antonio, tu que mal sabes quem és”.

“Talvez sejas o mesmo sempre, como a água que corre incessante. Essencialmente os mesmos, tu, homem, e o rio.”

Imagem móvel da eternidade? É o que dizem que Platão teria dito, mas talvez seja mesmo um erro de tradução, porque não é mera imagem. É real: movemo-nos, eu e o rio, na eternidade. Somos e não somos os mesmos. Em essência, sim, somos. Mas não haverá nada lá no fundo que nos distinga?

É, ao menos, o que me diz a solidão que sinto.

Arrefecem-se as pedras e eu entristeço. Isso é certo. Sinto no ar o cheiro, sinto na alma a sombra. Eis o que posso de fato dizer. Tudo mais é mistério.