O mar

Outro dia foi o apito do rebocador. Ontem era o cheiro do mar. Se não vou ao mar, o mar vem a mim. E vem com uma veemência que suponho fruto de alguma ressaca que espalha pelo bairro esse perfume ao mesmo tempo muito próprio e indefinível – de mar.

Sinto falta do mar ainda que possa passar meses sem vê-lo nem tocá-lo, como acontece com velhos amigos de fato íntimos. Sempre digo que prefiro o mar à serra, essa questão quase metafísica que divide os cariocas. Porque amo no mar o minimalismo: com meia dúzia de pinceladas pinta-se uma marina e basta-nos um calção para estar em casa. Gosto da praia até no inverno, quando o sutilíssimo degradê de azuis se reduz a uma variedade de tons de cinzas envolta em levíssima névoa de umidade que nos abraça e veste desse cheiro: se não vamos ao mar, o mar vem a nós.

E amo sobretudo o som do mar, a batida regular das ondas, a efervescência da espuma que se desfaz na areia, incessante, mas nunca igual, como se sussurrasse para quem tem ouvidos de ouvir os segredos correntes sob o espelho do céu: o mar nos diz dos seus perigos, mas é preciso saber ver e ouvir.

Outro dia saí de carro e fui parar na praia do Pepino. Fui só olhar, até porque, quando saí, nem sabia que iria até lá. Houve um tempo em que eu tinha no porta-luvas uma sunga justamente para essas emergências. Me fez falta nesse dia…

Fiquei lá, olhando…