Chuva

Acordei com a chuva. Não resisti: fui para a janela ouvi-la mais do que vê-la, sentir sua umidade na pele, os ínfimos respingos que sobre mim se salpicavam num dinâmico e discretíssimo do-in. Via os relâmpagos e calculava a distância e direção das nuvens mais carregadas pelos trovões que logo se seguiam. Era como se eu estivesse no mar.

Se eu viajasse de novo queria ir por mar.

Fui ficando na janela, distraído e atento – “como um rádio”, me ocorreu a analogia meio sem pé nem cabeça… Gosto de janelas. Gosto de assistir ao movimento aleatório do mundo… Ouça! Acabo de capturar o som distante de um rebocador abrindo caminho para algum navio na baía nevoenta! De novo! Sim, é um rebocador. Ele faz soar sua sirene como um lamento de baleia para avisar aos barcos menores que se afastem do seu caminho… Viajei muito de navio quando estive nas ilhas gregas, há 40 anos. Eram viagens curtas, mas que às vezes varavam a noite, o convés repleto de uma garotada muito louca e feliz. Como eu gostava daquilo…

Cessou a chuva e com ela meus devaneios. Perdi o sono. Vou fazer um café e trabalhar no úmido silêncio deste resto de noite sem estrelas.