A guerra é sobrenatural

Houve um tempo em que no Reino da Igreja a luz nunca se punha. A cada segundo, em algum lugar, uma missa começava, sempre igual nos gestos e palavras em latim, e o mundo vivia então envolto por um coro de vozes sussurradas que simulava, no limite do humano, a eternidade dos anjos em sua louvação a Deus.

E assim o catolicismo resistia à pressão das trevas. Não eram tempos fáceis. E a luta era feroz e desigual. Escritores católicos que desde 1789 resistiam – e são tantos os nomes esquecidos! – se amparavam sobrenaturalmente nesse coro de vozes.

Mas com o tempo – sempre o tempo – o coro foi se apagando, se apagando, se apagando – até que em dado momento as trevas prevaleceram: o tempo engoliu a eternidade – e cada missa hoje é o que o padre pretenda que ela seja, e cada igreja hoje é que o padre pretenda que ela seja, e cada fiel hoje é o que ele pretenda ser. Uma legião de cabeças – e em cada cabeça, uma sentença.

É o tempo pós-conciliar, o nosso tempo.

Num texto que se poderia dizer profético, Dans Les Ténèbres, Leon Bloy percebeu e consignou o que vinha. É o livro mais pesado da literatura ocidental: 30 páginas e toneladas de amargura, tristeza e o que ainda restava de revolta ao guerreiro agonizante.

Ali se anunciava o fim. O ano era 1917. Cinquenta anos depois a derrota era completa. A missa se extinguira, o coro se calara e os espíritos malignos dominavam o ar, os ares. E estão no ar, triunfantes: no rádio, na tv, agora nos celulares, na internet.

Uma derrota completa.

Só em uma ou outra catacumba ao redor do mundo, a velinha de umas missas de verdade resiste ao vento que não cessa, cintilando, aqui e ali, gemendo, esporádicas, mas impávidas. Temos fé.

Mas tão completa é a derrota que hoje se acredita que a guerra é cultural. Vejam só: há católicos que acreditam que a guerra é cultural. Por quê? Porque não são mais católicos. E nem sabem. Engolem resignadamente o biscoitinho insosso que é a hóstia e, às vezes, até recitam a missa em latim. Vejam só, em latim…

Mas acreditam que a guerra é cultural, que existe mal menor, que há alianças táticas nessa guerra… cultural.

São guerreiros de vento lutando contra as fantasmagorias que lhe oferecem os professores de nada: “nós contra eles”, aprenderam – não sabem que a uma certa distância mal se distinguem.

A vontade que dá é gritar: “A guerra é sobrenatural, seu idiota!”.

Mas para quê? Para ouvi-los perguntar: “O que fazer?”, como um leninista de direita, e eu ter de responder: “Rezar o terço!”? Valeria a pena? Talvez valesse…

Mas, não – não para mim. Melhor calar a boca e rezar o terço.

Natividade

A consumação dos séculos

… como dizer que está aqui o passado e aqui o futuro e aqui as incontáveis possibilidades que ligam um a outro, modeladas por preposições, conjunções e tempos verbais onde pulsa imanente o sobrenatural? E tudo isso aqui, no presente – no presente do corpo e do mundo ao redor – aqui, no presente contínuo, plástico, sem buracos nem arestas – onde a vida se move à força do Verbo e Deus está em cada coisa e fora, absconso e imenso, ao alcance do braço (e de um abraço), na Cruz e na Manjedoura, no Jardim e no Templo, no Presente e no Corpo, agora e sempre, por todos os séculos… 

Sobre o pecado original

“Quando me apresento a alguém, pouco importa se essa pessoa é branca, negra ou amarela. Também não faz diferença se é capitalista ou comunista, cristã ou ateia, judia ou muçulmana, hindu ou budista, pobre ou rica. Para mim basta que seja um ser humano, pois não pode haver nada pior do que isso.”

Atribuído a Mark Twain

Um estranha forma de elegia à vida

Sempre imagino o poema que segue como uma resposta de Álvaro de Campos a esse outro heterônimo (isto é, algo mais do que um personagem ou pseudônimo) que é Hamlet, em seu célebre monólogo. 

O poema, claro, deve ser lido como elegia à vida, mas “à vida apenas, sem mistificação”, para citar outro poeta e outro poema que amo.

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mata
ria…

Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…

E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…
A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…
Depois, lentamente esqueceste.

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!…
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…

Alguns links
www.umfernandopessoa.com
arquivopessoa.net

Surpresas no jardim

Anunciação, Paloma Perez

Me aconteceu uma ótima. Estava trabalhando, quando ouvi uma barulhada na sala. As janelas aqui em casa ficam permanentemente abertas e com as persianas levantadas. Há luz, mas pouco sol direto, então precisamos aproveitar ao máximo, eu e minhas plantas.

Porque tenho um monte de plantas. O canto próximo às janelas da sala está se tornando meu jardim e é lá que gosto de rezar o rosário. Fui aos poucos decorando esse canto com imagens alusivas aos mistérios – há uma capelinha de Nossa Senhora cercada de anjos, um presépio que não desmonto mais, um crucifixo lindo que herdei de minha tia, um Espírito Santo entalhado em madeira que ganhei de um amigo, um quadro que vejo como uma Anunciação moderna – e à noite acendo umas velas e fico ali, rezando devagar, meditando mais ou menos longamente sobre cada mistério, porque cada mistério é um exercício espiritual e tudo que importa está lá nos mistérios, como um catecismo vivo.

Mas eis que no meio da tarde ouço uma barulhada no jardim. Corri pra ver o que era. Esqueci de contar que durante o dia também mantenho umas garrafinhas de água com açúcar para os beija-flores penduradas nas janelas, então já aconteceu de um se perder aqui dentro.

Só que não era um beija-flor. Era um pombo.

Quando cheguei, ele parecia descansar sobre os livros na mesinha ao lado do sofá, mas ao me ver atirou-se de novo contra o vidro, suas asas misturando-se com as folhas da rafia, até que finalmente conseguiu sair.

Corri para a mesinha e dei por falta do meu terço, um do muitos que tenho espalhados pela casa, que um amigo me trouxe de Fátima. “O pombo levou meu terço!” Foi a primeira coisa que me ocorreu. Achei poético e até plausível: o terço é de madeira e vai que ele o confundiu com a ração que eu coloco no parapeito quando por aqui me aparece algum bem-te-vi, mas que os pombos também adoram?

Não achava o terço e um pombo beato, isso sim, seria implausível. Ainda mais que não era um pombo de um branco imaculado, mas um desses bem comuns, de um negro desbotado tisnado de branco. 

A controvérsia ganhava asas em minha imaginação quando olhos sonsamente distraídos acharam o terço no chão, encolhidinho, mas intacto.
Presumi que na ânsia de comer as contas, e as achando pra lá de indigestas, o pombo folgado acabou derrubando o terço no chão.

Nem beato, nem apóstata: um pombo pagão e guloso.