A fé e a flor

Tenho fé não por vontade minha ou por força de argumentos, mas por um encantamento que me vem da contemplação da vida e dos mistérios revelados. Será esse encantamento o que chamam graça? Até dizemos de algo que nos encanta que “é uma graça”. Ou, quando algo nos surpreende, dizemos que é “engraçado”, palavra que também usamos pra tudo que nos deixa alegres ou nos faz rir.

Sim, certamente a fé é uma graça. Como não ter fé depois de contemplar os mistérios gozosos do Rosário ou a vida em sua silenciosa obstinação?

Não foi a razão ou a vontade que me trouxeram a fé. A razão e vontade são instrumentos a serviço da sobrevivência e da reprodução: cálculo, sedução, decisões, escolhas. A fé é uma intuição que a imaginação completa a partir dos dados presentes – “gato escondido com o rabo de fora” – e que me vem por uma espécie de inteligência espiritual, que é esse poder de encantar-se.

Lembro de mim muito menino encantado em ver que a luz do sol que entrava por uma fresta da cortina revelava o ar povoado de uns minúsculos seres flutuantes que de outro modo não se viam. Muito depois, quando aprendi a ver constelações no céu, ficava pasmo de passar do caos ao cosmos num piscar de olhos.

Falo, enfim, de encantamentos, essas coisas que nos deixam sem palavras, sem fôlego, em êxtases diversos: às vezes, imóveis de tão perplexos, às vezes, valsando de alegria.

A fé é a descoberta de algo que sempre estivera lá e agora nos chega num estalo: inexplicável, involuntária, gratuita. É como essa flor que não vi desabrochar seu esplendor: abriu-se, enquanto eu dormia. Como se abrirá a outra, tenho fé.

O mar

Outro dia foi o apito do rebocador. Ontem era o cheiro do mar. Se não vou ao mar, o mar vem a mim. E vem com uma veemência que suponho fruto de alguma ressaca que espalha pelo bairro esse perfume ao mesmo tempo muito próprio e indefinível – de mar.

Sinto falta do mar ainda que possa passar meses sem vê-lo nem tocá-lo, como acontece com velhos amigos de fato íntimos. Sempre digo que prefiro o mar à serra, essa questão quase metafísica que divide os cariocas. Porque amo no mar o minimalismo: com meia dúzia de pinceladas pinta-se uma marina e basta-nos um calção para estar em casa. Gosto da praia até no inverno, quando o sutilíssimo degradê de azuis se reduz a uma variedade de tons de cinzas envolta em levíssima névoa de umidade que nos abraça e veste desse cheiro: se não vamos ao mar, o mar vem a nós.

E amo sobretudo o som do mar, a batida regular das ondas, a efervescência da espuma que se desfaz na areia, incessante, mas nunca igual, como se sussurrasse para quem tem ouvidos de ouvir os segredos correntes sob o espelho do céu: o mar nos diz dos seus perigos, mas é preciso saber ver e ouvir.

Outro dia saí de carro e fui parar na praia do Pepino. Fui só olhar, até porque, quando saí, nem sabia que iria até lá. Houve um tempo em que eu tinha no porta-luvas uma sunga justamente para essas emergências. Me fez falta nesse dia…

Fiquei lá, olhando…

O apito do rebocador

De manhã cedinho, ouço vindo da baía, o apito de um rebocador. Fazia tempo que eu não ouvia. Uma época esse som fez parte do meu cotidiano. Agora não mais… Por isso minha surpresa – tão cheia de nostalgia – com isso que sempre me soou como um lamento de baleia. Uma baleia triste que recitasse em sua língua os versos de Camões:

Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.

E repete-se o apito: dois, três longos sinais, graves, tristes, como se dissessem “Tudo passa…”, “Tudo passa…”, “Tudo tem de passar…”.

E, imagino, lá vai o pequeno rebocador a puxar o naviozão, como um chinezinho em seu riquixá levando o magnata pelas ruas de Pequim… Tudo passa, tudo passa, tudo tem de passar…

Como eu amo essa baía! Eu nasci no Catete, mais precisamente no Largo do Machado. Somos os fundos da praia do Flamengo, uma praia de baía muito calma, mas que também tem seus dias de ressaca.

Praias de mar aberto como Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra são para mim uma experiência mais juvenil. Lá me sinto um estrangeiro. Um estrangeiro muito à vontade, mas um estrangeiro. Onde me sinto em casa é nessas praias pequenas, de enseada, como a praia do Flamengo – ou a de Botafogo, que no meu tempo de criança ainda era frequentável.

Amo o aconchego da Baía de Guanabara vista aqui do Flamengo, com o Pão de Açúcar e o seu bondinho, à direita, o aeroporto Santos Dumont com seus aviões, à esquerda, e ao fundo, Niterói, quase mítica, nos dias em que amanhece envolta em brumas.

Amo a ponto de nem precisar mais vê-la, tão impressa está em minhas retinas.