Pão e Adão

Faz-se pão como Deus fez Adão.

Junto água à farinha e naquele barro acrescento manteiga e o sopro do fermento, que dá vida à massa. Sovo com carinho, deixo descansar, enformo e levo ao fogo. Pronto. Aos poucos, o aroma dessa combinação de elementos primordiais vai enchendo a casa, ancestralíssimo e trivial. Vê-lo ganhar sua forma final – dourar-se de uma crosta que abraça a massa tornada fofa pelo fogo, tão delicada ao paladar – é também um deleite visual.

Eucarístico, ei-lo sobre a mesa, o pão: carne de Deus a nos convidar para a comunhão. Com Deus ou qualquer um. Porque pão é coisa que se divide – como os nomes que Adão deu de primeiro a cada criatura, uma a uma.

De palavra e pão somos feitos, nos ensina o Pai Nosso que Jesus nos deixou. E é tão fácil fazer pão. Tão fácil dividir. E mais fácil ainda dizer não? Há quem se engane…

Gratidão

Minha primeira reação foi chorar. Chorei muito. Quase à seco, mas de soluçar – porque talvez também as lágrimas vão se acabando com a idade, não sei. Depois, só depois que deixei chorar o menino as suas perdas – porque a cada uma ele sempre chora todas – o homem pôde perceber o quanto deve a ti ser o homem que é. E senti gratidão. Por isso posso te dizer sem dor, sem rancor, sem o que for que não seja amor: eu sempre estarei aqui para o que der e vier.

Amor estragado

O amor que me deram estava estragado e eu comi assim mesmo para não magoar ninguém. Era veneno o amor que me deram. Um veneno que não mata, mas deforma até que no corpo não reste mais lugar para alma alguma: cadáver mecânico sem vontade de inventar-se para além da mímica que chamam “minha vida”, respondo resignadamente nem sim/nem não aos apelos do cotidiano. Apenas sigo indiferente porque é de seguir que se trata. E desse lamentável equívoco semântico faço versos para parecer outro Pessoa. É ridículo. Tão verdadeiramente ridículo que me comove, último traço de humanidade em mim. Autopiedade, chama-se.

Os olhos ardem, úmidos, mas nenhuma lágrima corre. Não haverá lágrimas – efeito lógico do veneno que me serviram como amor. O que procuro? “Felicidade ou morte”, poderia ter sido meu lema no passado em que pensei que drogas poderiam ser o antídoto para o veneno que me deram. E foram. Mas o veneno que chamaram de amor seduziu o próprio antídoto e de novo me vi sozinho com o amor que me deram e é tudo que tenho para repartir agora.

Pobre amor podre que nem sequer se envergonha de cheirar tão mal à vista de todos. Sinto pena do próprio veneno que me mata. Daí concluo que já posso morrer sossegado, certo de ir para o paraíso bom-mocista que premia os que renunciam à alma em troca de um corpo vazio. Um paraíso habitado por ninguém, ninguéns.

* * *

Eu escrevo bem? Isso até impressiona muito. A literatura é uma atividade circense. Mas não há em mim nada a ser genuinamente amado, além da duvidosa habilidade com as palavras. Eu devia me amar mais, alguém certamente me aconselhará. É de se rir… Eu me amo muito. Eu me amo com todo o amor que me deram. E quem mais suportaria esse amor, além de mim? Quem vai querer um amor estragado? Quem pode amorosamente dar a quem ama um amor estragado? Mas é só o que eu tenho para dividir: o amor estragado que me deram e eu comi para não magoar ninguém.

Então deixemos isto de lado… O amor é um maravilhoso equívoco: você ama em mim aquilo que eu não sou, mas você acha que eu poderia ser, sabe-se lá porquê. E eu, se te amo, tento ser este que só você vê, apenas pra te agradar. Eis aí, o milagre do amor – explicado em pouquíssimas palavras. Eu disse que era hábil com as palavras – e quase posso ouvir os aplausos do respeitável público.

Acontece que, como toda mágica, o milagre do amor perde sua graça quando descobrimos o truque. Mas, não se apavore, leitor. Nosso próximo número chama-se “hipnose cotidiana” e você será induzido a esquecer o que acaba de descobrir.


Essa crônica foi publicada em outubro de 2014, na coluna semanal Crônicas de Amor e Perplexidade que mantive no jornal Tribuna da Imprensa de 1999 a 2019.