Minha mãe ucraniana

Antonio Caetano aos 7 anos e sua mãe ucraniana. Foto de Fernando Pamplona, 1965, Teatro Municipal RJ, Conjunto Emérito Estatal de Danças da Ucrânia

Eu tenho uma mãe ucraniana. Ela foi minha mãe de 10 a 16 de maio de 1965, e me deu à luz como herdeiro de um cossaco morto no campo de batalha na liderança de nosso povo. Onde estará hoje minha mãe ucraniana quando nosso povo precisa tanto de seus filhos? Sempre quis muito reencontrá-la. Tão jovem, tão linda, tão vigorosa. Todas as noites, ao fim do nosso esquete, ela me cobria de beijos (na boca até!), feliz com o nosso sucesso. Lembro de tudo: das imagens, dos cheiros, do suor, dos sorrisos, da alegria.

Onde estarão agora os netos e bisnetos de minha mãe? E meus irmãos e sobrinhos? De arma em punho como os cassacos que celebrávamos aos saltos no palco do teatro lotado?

Ontem li sobre o Fantasma de Kiev, um piloto mitológico que já teria abatido quase uma dezena de aviões russos e ninguém sabe quem é. Ao ler, entendi imediatamente quem fui naquelas longínquas noites de maio; quem emergia da terra para apertar contra o peito o gorro e a espada (como pesava!) do pai morto: o fantasma de Kiev, transfiguração humanizada do arcanjo São Miguel, padroeiro da Ucrânia.

Estou velho demais para guerra. Mas queria saber de minha mãe. Minha mãe ucraniana. Rezo por ela e por nosso povo.


Na foto, sou eu e minha mãe ucraniana fotografados pelo diretor artístico do Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1965, o genial Fernando Pamplona. Ela era bailarina do Conjunto Emérito Estatal de Danças da Ucrânia.

Retirar-se

“A Montanha sob o Céu: a imagem do retirar-se. O que é superior domina não pelo conflito, mas por manter a distância correta de cada coisa” diz o hexagrama que o vento nordeste desenha no céu, nítido e fugaz, enquanto rezo na janela por mim, por todos os mortos, pelos meus amados, vivos e mortos, e por cada vizinho que dorme por detrás de cada janela escura. Rezo a Deus que lhes acenda a fé durante o sono num lampejo de sua Glória e então para sempre acordarão outros sem saber. Rezo que a conversão lhes seja fácil e venha em sonho.

Rezo. E cada vez gosto mais de rezar.

Tenho minhas orações particulares e tenho o Rosário com seus terços de Mistérios. Gosto de mergulhar longamente em cada Mistério antes de rezar as orações de praxe e assim em sucessão até o Salve Regina que lhes coroa o fim. Tanta coisa me vem enquanto rezo, grãoszinhos epifânicos que me rejubila sentir e deixar passar, tão certo estou que não preciso guardá-los porque eles se lembrarão de mim na hora certa: certos pensamentos são como anjos. Como são anjos as orações. Deve ser por isso que gosto de rezar na janela…

“O caminho se revela nas pequenas coisas, nos gestos e cuidados mais simples, como é a tarefa de regar regularmente as plantas para que floresçam e frutifiquem quando chegar a hora.”