Os dias e as noites

O homem é um bicho muito barulhento. A rolinha que mora na área de serviços já se acostumou comigo, acho eu, mas acompanha com curiosa preocupação a variedade de ruídos que produzo. O abrir e fechar de torneiras, o tilitar de vidros e copos, o tinir atabalhoado das panelas esbarrando em tudo, o rugir do mixer, do moedor de café, do liquidificador, os estalos do fogão e da geladeira, o apitar da chaleira… Ah! E os talheres! Os talheres que sempre soam como um bando de mulheres a se vestir para uma festa!

E há eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu – o distraído motor disso tudo que às vezes quebra um copo ou deixa cair alguma coisa, atira outras na pia, fala sozinho, fala no celular, murmura, imita vozes, forja diálogos, cantarola, gesticula, e ainda assim se acha silencioso, discreto e calmo – para espanto das rolinhas e surpresa de ninguém.

Só à noite de fato tudo se acalma e sobre a casa desce um silêncio tão denso que até a noite escurece e então se pode ouvir o íntimo pulsar das coisas. É quando Deus às vezes vem na brisa soprar em suas criaturas a graça de sabermos todos existir assim tão juntos, Nele, por Ele e para Ele, irmãos e irmãs, lua, orquídea, estrela, eu, os vizinhos que lêem ou dormem e sonham e são como eu e tudo mais criaturas vivas, mais vivas até do que costumamos conceber se Dele nos esquecemos…

A aposta de Pascal

Logo saberemos.
É só nossa ansiedade que faz parecer longa a espera.
“Aproveitar a vida” não depende de crenças,
mas do talvez nem tão misterioso gosto
de ser barco ou de ser porto,
de ser livro ou paisagem.
Pouco ou nada escolhemos,
ainda que sejamos livres,
livres até o ponto do desespero.

Logo saberemos.
E quanto mais perto o momento presumido,
mais calmo eu me sinto.
Outros ao contrário parecem atônitos com os efeitos do tempo.
A mim, envelhecer é a novidade nem sempre cômoda de agora.
Não reclamo: quase morri de juventude.
A velhice ao menos me parece mais segura.

Logo, logo saberei.
A esperança na continuidade – que decorre da fé – não me apressa, mas atiça a curiosidade: como será?
E o que me resta de ceticismo contrapõe: e se não houver nada?
Ora, nada saberei.

Minhas memórias, esta modesta biblioteca, o prazer da metafísica e da oração são a metrópole que percorro como um flaneur. Por ora, basta-me. E teria me bastado, se nada houvesse depois.

Às vezes, penso vislumbrar um jardim.
Não tenho pressa. Logo saberei.