Um regresso inesperado

Há mais de um ano, umas rolinhas vieram fazer ninho na minha área de serviço. Escolheram um canto do janelão de alumínio, ali onde há um basculante sempre aberto, mas num ângulo estreito o bastante para inspirar segurança.

Esses janelões seguem um padrão comum: elas correm entre esquadrias horizontais, e são completados no alto por essas janelas menores e basculantes, que permitem o arejamento, mesmo com as janelas grandes fechadas.

Foi no canto da esquadria superior que elas encontraram base para o ninho. Como as janelas ficam constantemente abertas porque estão cheias de plantas, acredito que o ambiente tenha lhes parecido seguro e acolhedor.

Enfim, lá ficaram por mais de um ano, e sucessivas ninhadas foram acontecendo a intervalos mais ou menos regulares. Uma meia dúzia talvez, sempre com dois ovinhos. Vi muita rolinha nascer aqui e aprendi alguma coisa da vida familiar delas. Posso garantir: parece gente. Não tenho a menor ideia se era o mesmo casal de rolinhas ou gerações de uma mesma família. Me encantava com eles e pronto.

A coisa foi ganhando vulto, o ninho foi se tornando maior. O problema é que a maior parte do ninho ia sendo feito de fezes secas que podem transmitir doenças. Além disso, com o tempo, as rolinhas começaram a ocupar outros espaços da área – o varal, a chaminé do aquecedor – e a invadir a cozinha em busca de migalhas. A coisa virou uma farra. Vizinhos reclamaram e eu mesmo comecei a achar tudo muito chato. Uma hora, há uns três meses, mandei acabar com o ninho e ponto final.

Mas elas de fato nunca deixaram de rondar por aqui: entravam e saíam, passeavam pela esquadria, descansavam um pouco, sumiam. Não sujavam nada, não faziam bagunça, não passavam a noite aqui. Vinha só pra uma visitinha, digamos assim. E foram sempre bem vindas.

Hoje de manhã bem cedo, estava eu tomando meu café na cozinha e de repente reparei num casal de rolinhas, no mesmo canto de sempre, namorando e preparando um ninho, numa agitação de recém-casados.

Ri. O que mais poderia fazer? No fundo, fiquei até feliz. Isso significa, suponho, que de tempos em tempos posso limpar a bagunça acumulada que eles acabarão voltando. Gosto assim. Vida selvagem. Gente é gente. Rolinha é rolinha. Mas que são uma graça, são. E fico até lisonjeado que elas escolham minha casa. E, mais ainda: insistam nela. Bacana. Só não podem é entrar numa que aqui é selva e eu sou Tarzan.

Aliás, por onde anda o Tarzan?

Os eleitos são os que pedem

Está lá, transbordando da missa do último domingo depois de Pentecostes: os eleitos são os que pedem. Está no Introito: “Vós me invocareis e eu vos ouvirei”. E na Comunhão, onde São Marcos não poderia ser mais explícito: “Em verdade vos digo: tudo o que pedirdes em vossas orações, crede que o recebereis, e vos será concedido”.

Os Céus estão abertos e as Graças virão a quem as pedir.