O apito do rebocador

De manhã cedinho, ouço vindo da baía, o apito de um rebocador. Fazia tempo que eu não ouvia. Uma época esse som fez parte do meu cotidiano. Agora não mais… Por isso minha surpresa – tão cheia de nostalgia – com isso que sempre me soou como um lamento de baleia. Uma baleia triste que recitasse em sua língua os versos de Camões:

Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.

E repete-se o apito: dois, três longos sinais, graves, tristes, como se dissessem “Tudo passa…”, “Tudo passa…”, “Tudo tem de passar…”.

E, imagino, lá vai o pequeno rebocador a puxar o naviozão, como um chinezinho em seu riquixá levando o magnata pelas ruas de Pequim… Tudo passa, tudo passa, tudo tem de passar…

Como eu amo essa baía! Eu nasci no Catete, mais precisamente no Largo do Machado. Somos os fundos da praia do Flamengo, uma praia de baía muito calma, mas que também tem seus dias de ressaca.

Praias de mar aberto como Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra são para mim uma experiência mais juvenil. Lá me sinto um estrangeiro. Um estrangeiro muito à vontade, mas um estrangeiro. Onde me sinto em casa é nessas praias pequenas, de enseada, como a praia do Flamengo – ou a de Botafogo, que no meu tempo de criança ainda era frequentável.

Amo o aconchego da Baía de Guanabara vista aqui do Flamengo, com o Pão de Açúcar e o seu bondinho, à direita, o aeroporto Santos Dumont com seus aviões, à esquerda, e ao fundo, Niterói, quase mítica, nos dias em que amanhece envolta em brumas.

Amo a ponto de nem precisar mais vê-la, tão impressa está em minhas retinas.

Morellianas

“… ele descobrira que era preciso fracassar, pois sem fracasso não haveria salvação. E não poderia ser um fracasso sem esforço genuíno, o simples abandono de quem sequer tentara, mas o fracasso sofrido e humilhante, repetido obstinadamente até a exaustão física e moral, que o conduzisse à condição de pária, de desprezado, de esquecido. Só assim poderia provar da Graça, reconhecer sua completa gratuidade e imerecimento, e finalmente sentir-se grato.”

Do amor maduro

A flor da orquídea que ganhei em dezembro iluminou meus dias por bem mais de um mês. Depois, foi fenecendo devagar, daquele jeito tão próprio das flores, até finalmente secar e cair.

Mas a beleza não se extingue.

As pétalas perderam seu frescor, mas ganharam a textura de um papel delicadíssimo, onde imagino escrever, em letras miúdas à nanquim, haikais do amor maduro àquela que escolhi.

Acaricio a flor seca, ainda branquíssima e salpicada de tons do mesmo amarelo que antes a tingia. No silêncio, ela farfallha a cada toque, e à vista lembra mesmo uma borboleta:

Bendita és tu.
Pois, como a beleza,
permaneces.

És então o amor
que, como a beleza,
permanece.

Amor que cresce,
distante dos olhos,
no silêncio.

Além do passado,
ou do futuro, o amor
em nós perdura.

Amor maduro,
que se tece de ternura,
e palavras – poucas.

Pois, é terna a voz
que diz “bom dia” a cada dia
e já isso basta.

Saber-te aí.
Ter-me aqui: eis o amor,
suficiente e perto.