E o Espírito de Deus pairava sobre as águas

“E o Espirito de Deus pairava sobre as águas…”

São 4:30 da manhã. O Espirito de Deus paira sobre o silêncio e logo se fará Luz. Paira sobre a vida imersa nas profundezas de um sono sem sonhos, reparador e imemorial nada, as trevas que a Luz iminente tornará o solo fértil da imaginação que nos anima: que surpresas o novo dia guarda a cada um que agora dorme?

“Enviai, Senhor o Vosso Espirito e tudo será recriado. E renovareis a face da Terra.”

* * *

Fez-se a Luz já e os biguás e fragatas começam a acariciar o ar com sua caligrafia: leio-os? Nem sei, mas lhes atribuo a brisa inesperadamente fresca que me envolve num abraço de anjo. É verão, e um abraço desses não é pouca coisa – só quem é carioca sabe. Não importa. Por dentro exulto e escrevo como se rezasse apenas para evitar que eu mesmo voe. Sabe-se lá o que diriam meus vizinhos…

Dos muitos matizes

Desfalece o dia em matizes de azul
ou será a noite que aos poucos se acende?
A quem pertence tamanha intensidade?
Morte e vida, início e fim,
tudo em mim às vezes se confunde
e me acalma uma espécie de tristeza
que se ampara no que lá fora sinaliza
mundo e Deus entrelaçados,
mistério inexplicável de tão simples,
jugo leve de quem espera
na fé do que não sabe,
mas pressente
nos azuis do céu
e na alma matizada.

Do que Deus concede aos amantes

Dia claro e a Lua ainda alta,
como se a manhã, usurpada, agora fosse sua –
calma soberana muito branca e luminosa.

E o Sol, contente em adiar-se,
espalha uma luz ainda mais rubra sobre o mundo
como se consentisse com tamanha petulância.

Sabem os dois que à Lua pertence
o veludo salpicado de brilhantes onde repousa.
E o Sol faz labutar toda a Terra sob o ritmo árduo do Céu
que reflete o Mar, servo da Lua e seus humores.

Mas hoje, só por hoje, concedem-se esse longo instante
A que, por direito, têm todos os amantes
De esquecer-se
Sendo um só
E cada um
o outro.