Chocolates

São quase dez da manhã de uma quinta-feira e a rua está que parece um domingo. É o frio. Estava com saudade desse frio. Frio carioca. Quanto mais eu sinto que posso viver em qualquer lugar, mais carioca me percebo. Adoro esse frio que só tem aqui – feito de pedra, mar e mato. Gosto de sentir esse frio, sem camisa, na janela, tomando sol. Gosto de sentir esse frio, cada fez mais cortante a medida que o tempo avança até que a noite vem como uma lâmina.

Finalmente, já quase em julho, é junho-junho. Digo assim porque no começo do mês andou fazendo os dias que não fizera em maio. Dias de praias magníficas. Eram dias de Rubem Braga como agora são dias de Manuel Bandeira.

Sim, junho começou muito maio e só agora enjulhece maravilhosamente. Tem feitos noites dignas das festas juninas. São João, Santo Antonio e São Pedro são santos muito simpáticos. Engraçado que não me lembro de nenhum clássico onde haja três irmãos – Antonio, João e Pedro – como há o Pedro e Paulo de Esaú e Jacó, de Machado de Assis…

Os morangos muito maduros – e baratos nesta época – contrastam com o céu nublado. Merecia uma foto: a cozinha branca, o céu nublado, os morangos. Morangos com creme de leite batido. E chocolate. Eu não devia contar, mas, sim, chocolate. Para ser honesto: chocolates.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Pensar, Fernando, será mesmo isso: saber que o papel de prata é, na verdade, de folha de estanho? É duro. Será isso pensar, Fernando, essa desilusão? Não sei… Ainda assim, que a desilusão não se torne então desencantamento. Ao contrário, que ela revele algo menos óbvio, mais singular.

Em um parque de Pequim, todos os dias um velho munido de um balde d’água e um grande pincel, escreve poemas no chão. Os ideogramas perfeitos secam devagar até desaparecer no ar. Todos os dias. No momento em que a repórter Ruth de Aquino o abordou ele escrevera: “É fim de outono, está escuro, mas ainda trabalho duro à luz da lanterna”. Aqui, agora, já é quase noite. “Amo em você a vasta solidão por onde vagas toda só vestida de véus”, eu escrevo.

Espero você sem esperar que venha. Na verdade, não sou navio nem porto. Sou bote e cais precário. Frio. Faz frio. A noite será cortante.