esboço de psicologia

À estrutura triangular freudiana – ego, id e supergo – podem ser assimiladas respectivamente as figuras de filho, mãe e pai. Nesse caso, o id, longe de ser uma estrutura irracional, é associada à intuição e aos aspectos não-verbais ou não-verbalizáveis das relações, a tudo que está aquém ou além da linguagem, dos primeiros anos da infância ao êxtase místico.

É a partir do id, do “apartamento” dele, que o ego começa a se construir em uma tensão crescente com o superego, a exterioridade portadora de uma língua, de todo um código de intermediação das relações. O ego se constrói como fábula/ fabulação/ fabulador, ele próprio personagem de si, ele próprio uma consciência em busca de um corpo e de uma fala que será o fundamento do seu silêncio. Porque corpo e silêncio são as únicas genuínas posses de todo ser humano, é nessa direção que a consiciência se lança.

Seu ponto de partida é a mãe/ id. Seu ponto de “inflexão”, de “ruptura”, é o pai/ superego – que talvez num primeiro momento seja simplesmente tudo mais que não é a mãe e tudo que afasta a mãe contra a vontade dele.

A princípio, o afastamento da mãe é como uma amputação – uma vez que nascer não deixa de ser exatamente isso, uma amputação, uma ruptura que, surpreendentemente, “como um lagarto a quem cortam o rabo/ E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente”, sobrevive à própria morte.

Pela repetição, uma voz – e depois uma presença – se impõe e se torna esse “outro” vago que leva a mãe/ lagarto para longe do ego/ rabo. Se a voz da mãe é como uma voz interior, indistinta de mim mesmo, ao mesmo tempo eu e não-eu, a voz do pai é reconhecidamente a voz que “cristaliza” o mundo exterior, a voz exterior, a voz do outro e do mundo que irá criar a tensão que “obrigará” a consciência a se materializar em um corpo – tanto externo como também interno: o id/ mãe também será descoberto como outro, e assim, o próprio ego.

Esse esquema corresponderia à gênese do corpo e da fala e, portanto, da própria consciência de si também como outro – que idealmente deveria coincidir com o ego. Isto é, o ego não deveria ser um motivo de tensão excessiva ou oposição: o ego não deveria ser um “transtorno” para a consciência, mas ela própria exteriorizada, ela própria no tempo e submetida às vicissitudes da sucessão e da carne.

Mas, aparentemente essa “ruptura construtiva” não se faz sem alguma mágoa, sem alguma dor traumática. À parte a singularidade de pai, mãe, mundo, há o dado universal de que essa consciência nascente não domina uma língua que lhe permita comunicar e estruturar sentimentos. Ela está como que por sua própria conta, em “livre associação”, à mercê de suas fabulações construídas a partir dos retalhos de entendimento do que lhe vão chegando do mundo. Ajustar esses conceitos singulares ao senso comum e entender (e agir conforme esse entendimento!), por exemplo, que o brinquedo amado de fato não tem vida (isto é apenas UM exemplo bem pobre…) é uma tarefa longa, tensa, delicada.

A relação intuitiva entre mãe e filho – tão amplamente conhecida, comentada – precisa ser interrompida para que a consciência possa ingressar no mundo da linguagem, no mundo do pai/ supergo. Mas o ideal é que essa sintonia intuitiva com as coisas – que será depois revivida com o “grande amor” – não se perca, mas ganhe uma “operacionalidade” no mundo da linguagem.

(O co-dependente procuraria manter essa relação ou recriá-la para preservar sua conexão com esse mundo de pura intuição que lhe permite ser o outro ou ser com o outro, a “fusão mística” que é, ao mesmo tempo, o “retorno” ou a “recordação” de um conhecimento esquecido)