notas de um homem em seu quarto de menino

Hospedado na infância por dever filial, recupero lembranças e princípios.

Tenho sonhado muito.  O parágrafo anterior me ocorreu na cama, entre um sonho e outro.  Já não me lembro como continuava. Talvez tivesse a ver com essa idéia de dever que, para minha surpresa, me acalma em vez de oprimir. Tenho sido o que imagino um filho tem de ser e isso tem me feito muito feliz. Um tipo de felicidade que eu não conhecia. Há uma exigência permanente de calma: a velhice abomina a novidade, a pressa. Lido com a brava resistência de minha mãe ao lento, mas crescente, apagamento de suas forças. Secretamente, enfim concedo que ela me comunique a fé que sustenta essa bravura e será sua melhor herança.  Lina, a médica que nos assiste com fraternal carinho, me ajudou a entender que meu papel não é o do protagonista, mas o de um eficiente coadjuvante: silencioso, atento, calmo. Até nas inevitáveis discordâncias. Pouco temos brigado, é verdade. Pois, já não me desagrada a obstinação dela, às vezes transfigurada em obsessão, uma das formas do sintoma mais geral que é a repetição. A intrigante repetição que, pelo visto, há de nos acompanhar até o fim, desde os hábitos às manias até finalmente essa luta contra a memória que se esvai…

Há outras surpresas. Apesar da pele franzida como papel amassado, ao mesmo tempo, delicada e insensível, as palmas das mãos continuam suaves ao toque, macias e sedosas, imunes ao tempo. Chega a me constranger às vezes quando as toco e me sinto subitamente arremessado à infância, quando essas mãos me acarinhavam as têmporas para que eu dormisse. As mesmas mãos, o mesmo toque, a mesma sensação para sempre associada ao amor, aquele amor que pensamos para sempre.

* * *

Da casa minuciosamente repleta de lembranças, salta-me de uma gaveta, com a despretensão das coisas úteis, um enorme rolo de barbantes emendados um a um por imperceptíveis nós. Já sabia que os encontraria ali, como um retrato de meu pai, um ícone dos tempos mais duros da minha infância, quando tudo devia ser poupado, guardado, reutilizado. Um tempo onde tudo era útil e vivo em sua glória de nos servir múltiplas vezes até finalmente fenecer. Quantos anos terá esse rolo enorme de barbantes? Meu pai morreu há quase vinte anos, um tempo em que os barbantes já eram raros. Trinta anos então?  Quarenta? Lá no para sempre inacessível começo do rolo haverá algum sobrevivente daqueles tempos em que guardávamos barbantes? Barbantes, o papel do pão para rascunho e outros embrulhos, e havia velas espalhadas pela casa, porque a luz poderia faltar a qualquer momento, mesmo à noite. E mesmo os fósforos – até os fósforos! – eram guardados e usados de novo para que o fogo de uma boca do fogão acendesse outra.

Na mesma gaveta há outro grande rolo de barbantes, mas de outro tipo, amarelados e mais grossos. Porque aqueles eram tempos de barbantes, uma infinidade deles. Esse que primeiro achei para amarrar as margaridinhas que no vaso já iam se dispersando, são uns barbantes brancos e finos, típicos dos embrulhos do dia a dia, principalmente das compras de padaria – e por isso talvez seja tão grande o rolo: o pão era comprado todos os dias. O que sobrava, era torrado; e das torradas que sobravam se fazia a “farinha de rosca”. .. Lembro com estonteante clareza dos enormes rolos de barbante que pendiam do teto e dos balconistas que os manuseavam com destreza para rapidamente arrematar os embrulhos. Mas estes outros, mais grossos e amarelados,  eram para embrulhos  de objetos pesados e graves, feitos com papel mais grosso e pardo (os barbantes brancos se combinavam com um papel cinza claro que ainda se vê nas padarias, talvez mais por tradição e nostalgia do que por necessidade, não sei.)

E havia ainda, um barbante que era já quase uma corda, grosso e também amarelado, feito de um material fiapento que agora não me ocorre o nome. Era o barbante dos grandes embrulhos e que também servia para amarrar coisas e mantê-las juntas com segurança.

Aparte esses barbantes mais cotidianos, o mundo era povoado de fitas coloridas de diversas espessuras e tamanhos que se usavam para embrulhar presentes. “Embrulhar para presente” era uma arte em que se esmeravam os balconistas mais vaidosos. Porque havia o prazer do belo embrulho – que era talvez a mais vistosa expressão do “prazer do dever cumprido”. A impressão que me ocorre é que eram tempos mais duros, difíceis mesmo, mas que por isso  exigiam de todos dedicação, uma firmeza de ação que não deixava margem para dúvidas: todos pareciam saber quem eram e o que deviam fazer. Ou talvez fosse essa a impressão que o mundo passava aos meus olhos de menino curioso, fascinado e, já então, muitas vezes perplexo.