Do amor e da beleza

“Vê-se desde já onde se situa a lei natural. Ela existia no começo, no ato mesmo da Criação: foi então promulgada por Deus ao inscrevê-la na estrutura da natureza que nos foi dada.

Toda criatura traz, pois, em si a lei da sua natureza: e esta lei universal consiste em amar acima de tudo a seu Criador.

O universo inteiro ama naturalmente a Deus acima de tudo, mas o ama a seu modo de mineral ou de vegetal, e dá-lo a perceber é a mais alta função da arte quando representa coisas materiais: não se trata de fotografá-lo, pois então o fotógrafo melhor faria que o artista, seria mais exato; não se trata tampouco do quimérico e orgulhoso projeto de pretender tornar as coisas materiais mais belas do que são, como se Deus fosse um artista menor.

Trata-se, para o artista, misteriosamente, de mostrar que uma paisagem, a curva de um rio, a figura de uma árvore rendem, à sua maneira, um testemunho, que é um testemunho de amor.”

Jean Madiran, Breve Compêndio da Lei Natural, Revista Permanência, # 274

Sobre a fé

“Havia, não longe dali, uma grande manada de porcos que pastava. Os demônios imploraram a Jesus: Se nos expulsas, envia-nos para aquela manada de porcos. Ide, disse-lhes. Eles saíram e entraram nos porcos. Nesse instante toda a manada se precipitou pelo declive escarpado para o lago, e morreu nas águas” (Mateus, 8, 30-32).

Jesus atende a quem tem fé. Os milagres se sucedem. Os visíveis – cegos v?em, paralíticos andam, surdos ouvem, mortos ressuscitam – e os invisíveis – pecados são perdoados. “Tua fé te salvou”, é sempre o que diz Jesus a cada milagre. Até os demônios são atendidos. Porque têm fé. Uma fé negativa, digamos assim, fundada exclusivamente no reconhecimento do poder de Deus. Do Seu poder, e não do Seu amor. E por isso odeiam à Deus, porque recusam seu amor, mas temem seu poder. Ou, talvez melhor: porque o mal não vê no amor senão uma forma de poder? Não sei…

E o que quer o mal? É estranho… O mal não quer o perdão, mas o esquecimento. O esquecimento divino que equivale à completa extinção, a não ter existido. Os demônios se atiram do precipício e morrem nas águas do lago. Estariam confinados neste mundo, como que aprisionados num corpo humano, que eles lutavam para conduzir ao suicídio, mas que a eles resistia, tamanha é a força da vida em nós? Não sei, não sei; apenas conjecturo, em voz alta, entre amigos.

Minhas plantas

Eu amo minhas plantas sem delas nada esperar e elas de mim esperam muito pouco. Água e umas poucas palavras. Só. Basta-lhes. No mais, buscam o sol como eu a Deus e vamos juntos em nossa fé que no essencial coincide.

Agora minha orquídea menor deu flores – pela primeira vez em dois anos. Uma multidão de flores, cinco, seis, sete… sei lá, um monte. Estamos numa felicidade eu e ela só compreensível por almas predominantemente vegetativas.

Eis um ponto em que se São Tomás tivesse mais tempo, talvez concordasse comigo: no Paraíso – o nome físico da eternidade – éramos como plantas: nos alimentávamos de sol, de água, de ar – e se comíamos era por prazer estético e não por necessidade.

Veio o pecado, e com ele o tempo, o trabalho, a morte.

Perdemos a eternidade que é um estado da alma onde a paz se junta com a alegria e tudo se entende sem esforço porque estamos com Deus e O adoramos, não como servos, mas como estetas.

Mas com o pecado, tivemos que engavetar nossa alma vegetativa e dar tratos ao espírito desencaixado do corpo para desenvolver isso que o Doutor Angélico chamou de alma racional, essa capacidade nossa de entender devagar e fazer contas, e medir, medir, medir…

Nisso prefiro minha pequena orquídea que mal cabe em si de tantas flores. Se calculasse talvez só me desse uma e ainda era capaz de me cobrar a visitação. É uma desmedida, dirão talvez os austríacos – e eu digo: tem fé.

Silêncio e velas

À noite, Deus pede silêncio e velas, minha forma preferida de oração. De dia, basta-Lhe a atenção admirada e grata à sua minuciosa criação. Adorar a Deus não é submissão, mas gozo estético que conduz, sim, ao amor ao Criador e às suas criaturas, da mais miúda à mais grandiosa.
Os beija-flores, a rolinha com seu filhote, as plantas todas do meu jardim, esse vento, o sol que nos nutre a todos, a água que circula incessante entre o céu e a terra, as estrelas com seu morse enigmático, você, eu mesmo, cada um de nós – o que nos falta afinal para retornarmos à eternidade de onde nunca saímos?

(É tarde já, Deus nos abraça, adormecemos – tão longe os dois, tão perto – sem nos dar conta que somos seus)

Enquanto viver, cantarei à glória do Senhor,
Salmodiarei ao meu Deus enquanto existir.
Possam minhas palavras lhe ser agradáveis!
Minha única alegria se encontra no Senhor.

Salmo 103,33-34

O dom de captar a luz

David Hockney, Retrato de um Artista (Piscina com duas pessoas)

O quadro é lindo…
Parece dotado de movimento, tamanha a intensidade da luz.
Pintura é isso: o dom de capturar a luz.
O resto é lavagem de dinheiro.
É um David Hockney e vale 800 milhões de dólares.
Lembra Hopper, claro. E Hockney não esconde sua admiração por ele. Pelo contrário, basta uma pesquisa rápida na internet para encontrar um monte de quadros que são citações ou mesmo versões de clássicos de Hopper. O nome disso é paixão – e não tem nada a ver com plágio.

Mas um Hopper que (como a Ipanema de Tom Jobim) “era só felicidade”.
Não há um traço de melancolia, tristeza, introspecção – nada. Tudo é o que é, numa exuberante exibição de vitalidade. Um elogio (e uma elegia) ao ser, à vida. À boa vida, inclusive, de que as piscinas são o melhor emblema.
Que Hockney as tenha transformado em objetos quase transcendentes é uma ironia que me encanta – eu que hoje tanto adoro estar numa piscina nadando…