Oração a São José

Querido São José,

Jesus disse “Sede perfeito como vosso Pai é perfeito”.

Como o senhor cumpriu o papel do Pai Eterno na vida de Jesus e Maria, por favor, seja para mim o modelo da perfeição possível neste mundo. Impregna-me desse amor prático e firme que devotaste aos dois, e me inspira a humildade, a paciência e a pureza que te são tão próprias.

Toma-me como filho, São José, e faz de mim imagem tua. Que eu não me perca mais em gestos e palavras vãs e viva como vós em desperto silêncio, no mundo, sem ser do mundo, a orar e laborar, como secreto monge que conhece sua missão e a si mesmo.

Amém

Meu eu filho

Meu Filho, Paloma Perez, 2005 – acrílica sobre tela, Acervo Câmara Municipal de Lisboa

Meu filho, 
a última vez que fui moderno 
foi no tempo do ieieiê.
Depois disso, fui só louco,
louco, louco, louco:
louco de pedra, louco de flor.
Louco sem tirar nem por. 
Desses de quem dizem os amigos: 
“Coitado…” 
– e mandam ao bar comprar cervejas e cigarros,
já com o dinheiro contado na mão.

Pois eram tantos eus 
que me calavam de espanto
por detrás dos olhos rútilos,
que ao passar as velhinhas se persignavam,
imaginando o filho dileto de Deus.

E assim correu a eternidade que me coube…

Não houve bem nem fim nem cura:
um dia, se cansou de mim
a loucura e eu dela 
nem senti falta:
virei de repente
um rapaz muito manso,
um anjo de pijamas,
que com cuidado amava 
as mais bonitas moças desvalidas 
e a elas dedicava poemas de princesa.

E lia, lia, lia –
sem estardalhaço nem cansaço – 
tudo em que encontrasse um coração pulsando…

E nem me dei conta de que fui ficando velho,
os cabelos passando de castanhos a cinzas e depois brancos,
as calças que já não cabiam, 
as camisas que encardiam,
e eu de fato me achando cada vez mais moço, 
o corpo com a alma tão confundidos, 
que enfim entendi porque se diz que é eterna a vida. 
Porque, se é eterna, é só uma e nunca se acaba.

E era isso que já eu suspeitava
quando era louco, louco,
louco de pedra, louco de flor…

A guerra é sobrenatural

Houve um tempo em que no Reino da Igreja a luz nunca se punha. A cada segundo, em algum lugar, uma missa começava, sempre igual nos gestos e palavras em latim, e o mundo vivia então envolto por um coro de vozes sussurradas que simulava, no limite do humano, a eternidade dos anjos em sua louvação a Deus.

E assim o catolicismo resistia à pressão das trevas. Não eram tempos fáceis. E a luta era feroz e desigual. Escritores católicos que desde 1789 resistiam – e são tantos os nomes esquecidos! – se amparavam sobrenaturalmente nesse coro de vozes.

Mas com o tempo – sempre o tempo – o coro foi se apagando, se apagando, se apagando – até que em dado momento as trevas prevaleceram: o tempo engoliu a eternidade – e cada missa hoje é o que o padre pretenda que ela seja, e cada igreja hoje é que o padre pretenda que ela seja, e cada fiel hoje é o que ele pretenda ser. Uma legião de cabeças – e em cada cabeça, uma sentença.

É o tempo pós-conciliar, o nosso tempo.

Num texto que se poderia dizer profético, Dans Les Ténèbres, Leon Bloy percebeu e consignou o que vinha. É o livro mais pesado da literatura ocidental: 30 páginas e toneladas de amargura, tristeza e o que ainda restava de revolta ao guerreiro agonizante.

Ali se anunciava o fim. O ano era 1917. Cinquenta anos depois a derrota era completa. A missa se extinguira, o coro se calara e os espíritos malignos dominavam o ar, os ares. E estão no ar, triunfantes: no rádio, na tv, agora nos celulares, na internet.

Uma derrota completa.

Só em uma ou outra catacumba ao redor do mundo, a velinha de umas missas de verdade resiste ao vento que não cessa, cintilando, aqui e ali, gemendo, esporádicas, mas impávidas. Temos fé.

Mas tão completa é a derrota que hoje se acredita que a guerra é cultural. Vejam só: há católicos que acreditam que a guerra é cultural. Por quê? Porque não são mais católicos. E nem sabem. Engolem resignadamente o biscoitinho insosso que é a hóstia e, às vezes, até recitam a missa em latim. Vejam só, em latim…

Mas acreditam que a guerra é cultural, que existe mal menor, que há alianças táticas nessa guerra… cultural.

São guerreiros de vento lutando contra as fantasmagorias que lhe oferecem os professores de nada: “nós contra eles”, aprenderam – não sabem que a uma certa distância mal se distinguem.

A vontade que dá é gritar: “A guerra é sobrenatural, seu idiota!”.

Mas para quê? Para ouvi-los perguntar: “O que fazer?”, como um leninista de direita, e eu ter de responder: “Rezar o terço!”? Valeria a pena? Talvez valesse…

Mas, não – não para mim. Melhor calar a boca e rezar o terço.

Natividade

A consumação dos séculos

… como dizer que está aqui o passado e aqui o futuro e aqui as incontáveis possibilidades que ligam um a outro, modeladas por preposições, conjunções e tempos verbais onde pulsa imanente o sobrenatural? E tudo isso aqui, no presente – no presente do corpo e do mundo ao redor – aqui, no presente contínuo, plástico, sem buracos nem arestas – onde a vida se move à força do Verbo e Deus está em cada coisa e fora, absconso e imenso, ao alcance do braço (e de um abraço), na Cruz e na Manjedoura, no Jardim e no Templo, no Presente e no Corpo, agora e sempre, por todos os séculos… 

Sobre o pecado original

“Quando me apresento a alguém, pouco importa se essa pessoa é branca, negra ou amarela. Também não faz diferença se é capitalista ou comunista, cristã ou ateia, judia ou muçulmana, hindu ou budista, pobre ou rica. Para mim basta que seja um ser humano, pois não pode haver nada pior do que isso.”

Atribuído a Mark Twain