Silêncio e velas

À noite, Deus pede silêncio e velas, minha forma preferida de oração. De dia, basta-Lhe a atenção admirada e grata à sua minuciosa criação. Adorar a Deus não é submissão, mas gozo estético que conduz, sim, ao amor ao Criador e às suas criaturas, da mais miúda à mais grandiosa.
Os beija-flores, a rolinha com seu filhote, as plantas todas do meu jardim, esse vento, o sol que nos nutre a todos, a água que circula incessante entre o céu e a terra, as estrelas com seu morse enigmático, você, eu mesmo, cada um de nós – o que nos falta afinal para retornarmos à eternidade de onde nunca saímos?

(É tarde já, Deus nos abraça, adormecemos – tão longe os dois, tão perto – sem nos dar conta que somos seus)

Enquanto viver, cantarei à glória do Senhor,
Salmodiarei ao meu Deus enquanto existir.
Possam minhas palavras lhe ser agradáveis!
Minha única alegria se encontra no Senhor.

Salmo 103,33-34

O dom de captar a luz

David Hockney, Retrato de um Artista (Piscina com duas pessoas)

O quadro é lindo…
Parece dotado de movimento, tamanha a intensidade da luz.
Pintura é isso: o dom de capturar a luz.
O resto é lavagem de dinheiro.
É um David Hockney e vale 800 milhões de dólares.
Lembra Hopper, claro. E Hockney não esconde sua admiração por ele. Pelo contrário, basta uma pesquisa rápida na internet para encontrar um monte de quadros que são citações ou mesmo versões de clássicos de Hopper. O nome disso é paixão – e não tem nada a ver com plágio.

Mas um Hopper que (como a Ipanema de Tom Jobim) “era só felicidade”.
Não há um traço de melancolia, tristeza, introspecção – nada. Tudo é o que é, numa exuberante exibição de vitalidade. Um elogio (e uma elegia) ao ser, à vida. À boa vida, inclusive, de que as piscinas são o melhor emblema.
Que Hockney as tenha transformado em objetos quase transcendentes é uma ironia que me encanta – eu que hoje tanto adoro estar numa piscina nadando…

Noturno

Há uma tristeza que às vezes me alcança,
E vai descendo comigo a longa noite
Silenciosa
Quase amiga
Essa velha conhecida
Sem que tenhamos muito a nos dizer
É tarde já, é tarde…
Ela parece dizer
(é o que sempre me diz)
Amanhã é dia de feira.
Já fez a sua lista?
Você precisa emagrecer…
Nada disso precisa ser dito
Está escrito em seu silêncio
Tão profundo que chega a ser leve
Frágil como a extremidade de uma raiz
Tão funda, tao funda
E tão nova quanto a flor
Há essa tristeza que as vezes me alcança
Tão minha sombra
Que às vezes me confunde
És minha mesmo,
Tristeza minha?
Tão distante
Tão vizinha
Vamos lado a a lado
Descendo a longa noite
Sombras os dois
Um do outro
Pontinha de raiz,
Brotinho de flor.

O corpo, ainda

Saber que o corpo não é só a carne me anima e consola. O mundo tenta a alma com ameaças e promessas que à carne estiolam e quase cinde o que em mim é eternidade. Salva-me a cruz, o dogma, o mistério.

Creio. E espero.

A luz é tanta que, por não ser puro, o olho cega. E humildemente fecha-se em face do que só poderá ver o corpo inteiro. E assim, na íntima e voluntária escuridão a que se entrega, vislumbra o Céu que, breve, se anuncia aos seus, os que esperam.

Beija-flores

É de manhã cedo, ainda nem tomei café e um beija-flor já está na janela, com aquele jeito impaciente, à espera da garrafinha de água com açucar.

São meus bichos de estimação.

Esse é um beija-flor menorzinho, não sei o nome, mas o mais agitado e briguento. Há uma outra espécie, a mais comum, maior e mais elegante, e um outro passarinho, pequininho, que parece um filhote de bem-te-vi por causa das cores. Acho que o pessoal o chama de sebinho, não tenho certeza.

São as três espécies que aparecem… Alíás, eis uma questão interessante: não sei distinguir se são vários indivíduos da mesma espécie que aparecem meio aleatoriamente por aqui, ou se são sempre os mesmos indivíduos. O mais provável é que seja uma mistura das duas coisas: uns poucos exemplares de cada especie frequentam minhas três, às vezes quatro, garrafinhas como se fossem famílias muito unidas

O que mais me intriga é como brigam. Há verdadeiros bate-bocas – e bate-bicos também – por conta das garrafinhas, que invariavelmente terminam o dia com água sobrando.

Piam, estrilam, se bicam, esvoaçam num balé que pretende ser ameaçador, até que acabam se entendendo. Um desiste e o  se instala todo impávido, o peito estufado, na barra horizontal da persiana aberta, tomando conta do que naquele momento é seu território. Diria-se um barão ou duque…

Digo “naquele momento” porque não demora muito lá vai ele voar, sei lá se visitar outras propriedades suas, e logo aparecem de novo os outros a se aproveitar de sua ausência. Até que tudo recomece… Tem algo de cômico nisso tudo, mas quando penso que nós humanos temos muito disso, me entristeço um pouco…

(Mas aqui, no Café, não é lugar de pensar essas coisas. Por isso criei o Cozinha Filosófica…)

No fim, acho que todos saem satisfeitos e ainda sobra água para os que vêm com a noite… Pois, se eu bobear e esquecer de tirar as garrafinhas quando o sol se põe, logo aparecem os beija-flores da noite: os morcegos.

É, a natureza não pára. A vida é incessante e nisso está muito de sua beleza.

Como todo mundo, não gostava de morcegos. Mas, com a convivência perdi o medo infantil que tinha deles. Ao contrário, já desenvolvi até uma certa simpatia. Acho atrevido o seu voo inesperado e imprevisível, as manobras que fazem, entrando por uma janela e saindo por outra, rápidos, ágeis e um pouco doidos. Se acostumaram a entrar, mesmo que não haja garrafinhas, simplesmente porque as janelas ficam abertas o tempo todo e de algum modo aprenderam que aqui, quem sabe, às vezes… Impressionante essa memória dos bichos.