Anunciação

A Trindade realiza-se em Maria: Ela é a Filha dileta do Pai, concebida sem pecado original; a Esposa do Espírito Santo; e a Mãe do Filho. Negar sua Altíssima Santidade, sua Realeza, é negar a Trindade: Sua Altíssima Santidade, sua Realeza, é o corolário da Trindade. Nossa Senhora é a nova Arca da Aliança.

Veranico

Começaram os melhores dias do ano para quem é carioca: os dias de veranico, calmos e cálidos, que começam agora pelo fim de março e se estendem até meados de maio.

Uma garça brança cruza o céu azul-azul, imaculado de nuvens. Súbita e silenciosa, ela passa rápida como um piscar de olho cúmplice a confirmar minha impressão. A Criação se impõe ao mundo dos homens se temos um corpo que genuinamente sinta o desenrolar da eternidade, esse aparente paradoxo.

A política, a violência, o insegurança, as decepções pessoais, mesmo a nódoa de tristeza que parece inseparável do amor, da fé e da esperança – nada disso é capaz de sobrepujar essa percepção da presença do Criador e de suas hostes em tudo ao redor: não há o que temer. Mas como explicar isso aos que não crêem – ou não crêem o bastante – ou pensam ter motivos para não crer – ou crêem mas não se crêem entre os eleitos? Eleitos somos todos os que crêem, esse outro aparente paradoxo.

O mistério do corpo

Será maior o anjo do que esta rosa,
tão única quanto as incontáveis rosas sucedidas
desde o primeiro dia da Criação?
Será menor a inteligência que desta rosa abstrai a visão da rosa eterna
do que aquela que apenas essa ideal e imutável rosa vê?
Será melhor estar desde sempre à eternidade confiado
sem do tempo conhecer as delícias e agruras,
ou terá sido por inveja deste corpo – perecível porta do eterno –
que o inferno foi criado?

Consolações

Saber que o corpo não é só a carne me anima e consola. O mundo tenta a alma com ameaças e promessas que à carne estiolam, e quase cinde o que em mim é eternidade. Salva-me a cruz, o dogma, o mistério. Creio. E espero. A luz é tanta que, se não for puro, o olho cega. Mas se é puro, o olho humildemente fecha-se em face do que só pode ver o corpo inteiro. E vislumbra o Céu, que, breve, se anuncia aos seus, os que esperam.

Oração

Tão quieto está o mundo, que me confundo com as horas e assim passo o começo da manhã convosco, imerso no silêncio e na escuridão dos olhos em repouso. Rezo, quase sem palavras, pois nada peço, senão a conversão daqueles que mais amo, porque quero tê-los no céu conosco. E agradeço, por achardes que mereço o muito que me dais. Um só coração somos agora, e quase nunca lá fora estou tão vivo: sou só um corpo que ora como se dormisse, e me sinto imenso em Vós disperso.

Flores na janela

A vizinha ganhou flores… Ou será “o vizinho comprou flores”? Na verdade, um vasinho de flores – que daqui me parecem aquelas que eu erradamente chamo de begônias. Digo que se for vizinha ganhou e se for vizinho comprou porque sou um sujeito antigo. Hoje já vivemos num tempo em que há esse lado bom de também as mulheres surpreenderem os homens com flores.

Mas deixemos assim e sigamos adiante…

Moro de fundos e minhas janelas dão para os apartamentos de fundos da rua do outro quarteirão. Na verdade, nunca vejo nem esse, nem os outros vizinhos desse prédio. São uns apartamentos de quarto e sala conjugados, até grandes para o padrão moderno. Em todos, há uma só janela onde o sol bate quase toda a manhã – talvez por isso, e por uma busca insensata de privacidade, todos os apartamentos vivem fechados atrás de grossas cortinas que raramente são abertas.

Então como sei que o vizinho ou a vizinha comprou ou ganhou flores? Porque ele ou ela teve a delicadeza de abrir metade da cortina e deixar as flores tomando sol. Provavelmente já saiu para trabalhar. Hoje é dia de semana e já são quase nove da manhã. Além disso, a janela está fechada, prudência comum de quem vai passar o dia fora. Mas as florizinhas estão lá, meio espremidas entre a cortina e o vidro, tomando sol, satisfeitíssimas, presumo.

É a primeira vez que me dou conta de que há um ser humano atrás daquelas cortinas. Nunca o vi. Mas já nutro por ele um carinho fraterno, discreto, como se já fizesse parte das minhas orações.

A fórmula da infelicidade

Descobri a fórmula da infelicidade. Pensei até em patenteá-la mas resolvi deixá-la em domínio público. É uma fórmula tão simples que não haveria mérito em torna-la minha. E afinal a humanidade merece ser dona de sua própria infelicidade. Não quero que manhã ou depois alguém venha a se queixar de não saber porque é infeliz e ainda por cima me culpe por sua desgraça. Sabemos como é comum a gente atribuir a outros a causa de nossa infelicidade sempre insolúvel. Porque infelicidade boa é alheia e sem solução. “A solução? Soluçar!”
Poupem as lágrimas: não só tornarei pública a fórmula da infelicidade como demonstrarei que ela é fácil de fazer. Com isso espero tornar a infelicidade um bem ao alcance de qualquer um, rico ou pobre; preto, branco, amarelo, vermelho ou azul; jovem ou velho. Afinal, nunca é tarde para ser infeliz. Além disso, em sua simplicidade revelada, a infelicidade poderá ser agora múltipla e variada: as pessoas poderão trocar de infelicidade como quem troca de canal ou celular. Teremos infelicidades matutinas, vespertinas e noturnas. Infelicidades primaveris, invernais, outonais e estivais. Fácil, fácil…
Ser infeliz se tornará uma coisa tão banal que em pouco tempo ninguém mais achará graça nenhuma em ser infeliz. Acredito que o primeiro grande efeito será sobre o mercado musical: as músicas não terão mais letras. Não se perderá muito… Em compensação, a infelicidade vai acabar virando piada. Será quase ridículo ser infeliz. Vulgar até.
Mas, desculpem, tenho a impressão de estar sendo prolixo, rebarbativo, tergiversante, estendendo além da conta uma expectativa que já deveria ter sido saciada logo na primeira linha para fazer jus à propalada simplicidade da fórmula. Enfim, a fórmula da infelicidade é não olhar o fato, mas a falta. Não é simples, fácil de guardar e reproduzir em casa e no trabalho? Então, leitor, não perca tempo! Vá logo e seja infeliz farta e abundantemente, contando em minúcia tudo o que lhe falta…

Dá-me a tua mão

Clarice Lispector

Dá-me a tua mão
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
– nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

A árvore fértil

“José é broto de uma árvore fértil, broto de uma árvore fértil junto à nascente: seus ramos crescem acima do muro. Provocam-no, atiram contra ele, atacam-no os flecheiros, mas, seu arco permanece firme, seus braços e mãos desembaraçados pelas mãos do Poderoso de Jacó, pelo nome do Pastor, que é a pedra de Israel, graças ao Deus de teu pai, que te ajuda, graças ao todo-poderoso, que te abençoa com as bênçãos do céu altíssimo, com as bênçãos do profundo abismo, com as bênçãos dos peitos e do seio. As bênçãos de teu pai sobrepujam as bênçãos das antigas montanhas, as aspirações das colinas eternas. Que elas desçam sobre a cabeça de José, sobre a fronte do príncipe de seus irmãos!”

Gênesis, 49

Olhos de ver o céu

De manhã cedo, a lua ainda no céu, imensa e quieta. Tão discreta e mansa que mal se nota, se não se olha para o alto. Mas quem? Só criança – ou velho como eu, que neste 13 de maio, corro para a missa de centenário da aparição de Nossa Senhora – a quem quase ninguém dá bola. Maria, Mãe de Deus, que feito a Lua, lá no alto esquecida (mas imensa), também exige olhos de criança, pois quando apareceu foi a três pastorinhos lá do interior de Portugal que talvez mal soubessem rezar. Não quis o Papa, nem multidões. Nem teólogos, reis ou presidentes. Quis crianças. E isso nos diz (ou deveria) mais do que todos os segredos: é preciso ter olhos de criança, olhos de se maravilhar com a vida ao redor: com as plantas, os bichos, os outros humanos, como nós, que também têm nome, história, coração. Fome, falta de afeto, desconfiança… Pois, onde a fé?

Em verdade, vos digo que se não vos tornardes crianças não entrareis no Reino dos Céus.

E não sou eu quem o diz…