O dom de captar a luz

David Hockney, Retrato de um Artista (Piscina com duas pessoas)

O quadro é lindo…
Parece dotado de movimento, tamanha a intensidade da luz.
Pintura é isso: o dom de capturar a luz.
O resto é lavagem de dinheiro.
É um David Hockney e vale 800 milhões de dólares.
Lembra Hopper, claro. E Hockney não esconde sua admiração por ele. Pelo contrário, basta uma pesquisa rápida na internet para encontrar um monte de quadros que são citações ou mesmo versões de clássicos de Hopper. O nome disso é paixão – e não tem nada a ver com plágio.

Mas um Hopper que (como a Ipanema de Tom Jobim) “era só felicidade”.
Não há um traço de melancolia, tristeza, introspecção – nada. Tudo é o que é, numa exuberante exibição de vitalidade. Um elogio (e uma elegia) ao ser, à vida. À boa vida, inclusive, de que as piscinas são o melhor emblema.
Que Hockney as tenha transformado em objetos quase transcendentes é uma ironia que me encanta – eu que hoje tanto adoro estar numa piscina nadando…

Noturno

Há uma tristeza que às vezes me alcança,
E vai descendo comigo a longa noite
Silenciosa
Quase amiga
Essa velha conhecida
Sem que tenhamos muito a nos dizer
É tarde já, é tarde…
Ela parece dizer
(é o que sempre me diz)
Amanhã é dia de feira.
Já fez a sua lista?
Você precisa emagrecer…
Nada disso precisa ser dito
Está escrito em seu silêncio
Tão profundo que chega a ser leve
Frágil como a extremidade de uma raiz
Tão funda, tao funda
E tão nova quanto a flor
Há essa tristeza que as vezes me alcança
Tão minha sombra
Que às vezes me confunde
És minha mesmo,
Tristeza minha?
Tão distante
Tão vizinha
Vamos lado a a lado
Descendo a longa noite
Sombras os dois
Um do outro
Pontinha de raiz,
Brotinho de flor.

O corpo, ainda

Saber que o corpo não é só a carne me anima e consola. O mundo tenta a alma com ameaças e promessas que à carne estiolam e quase cinde o que em mim é eternidade. Salva-me a cruz, o dogma, o mistério.

Creio. E espero.

A luz é tanta que, por não ser puro, o olho cega. E humildemente fecha-se em face do que só poderá ver o corpo inteiro. E assim, na íntima e voluntária escuridão a que se entrega, vislumbra o Céu que, breve, se anuncia aos seus, os que esperam.

Beija-flores

É de manhã cedo, ainda nem tomei café e um beija-flor já está na janela, com aquele jeito impaciente, à espera da garrafinha de água com açucar.

São meus bichos de estimação.

Esse é um beija-flor menorzinho, não sei o nome, mas o mais agitado e briguento. Há uma outra espécie, a mais comum, maior e mais elegante, e um outro passarinho, pequininho, que parece um filhote de bem-te-vi por causa das cores. Acho que o pessoal o chama de sebinho, não tenho certeza.

São as três espécies que aparecem… Alíás, eis uma questão interessante: não sei distinguir se são vários indivíduos da mesma espécie que aparecem meio aleatoriamente por aqui, ou se são sempre os mesmos indivíduos. O mais provável é que seja uma mistura das duas coisas: uns poucos exemplares de cada especie frequentam minhas três, às vezes quatro, garrafinhas como se fossem famílias muito unidas

O que mais me intriga é como brigam. Há verdadeiros bate-bocas – e bate-bicos também – por conta das garrafinhas, que invariavelmente terminam o dia com água sobrando.

Piam, estrilam, se bicam, esvoaçam num balé que pretende ser ameaçador, até que acabam se entendendo. Um desiste e o  se instala todo impávido, o peito estufado, na barra horizontal da persiana aberta, tomando conta do que naquele momento é seu território. Diria-se um barão ou duque…

Digo “naquele momento” porque não demora muito lá vai ele voar, sei lá se visitar outras propriedades suas, e logo aparecem de novo os outros a se aproveitar de sua ausência. Até que tudo recomece… Tem algo de cômico nisso tudo, mas quando penso que nós humanos temos muito disso, me entristeço um pouco…

(Mas aqui, no Café, não é lugar de pensar essas coisas. Por isso criei o Cozinha Filosófica…)

No fim, acho que todos saem satisfeitos e ainda sobra água para os que vêm com a noite… Pois, se eu bobear e esquecer de tirar as garrafinhas quando o sol se põe, logo aparecem os beija-flores da noite: os morcegos.

É, a natureza não pára. A vida é incessante e nisso está muito de sua beleza.

Como todo mundo, não gostava de morcegos. Mas, com a convivência perdi o medo infantil que tinha deles. Ao contrário, já desenvolvi até uma certa simpatia. Acho atrevido o seu voo inesperado e imprevisível, as manobras que fazem, entrando por uma janela e saindo por outra, rápidos, ágeis e um pouco doidos. Se acostumaram a entrar, mesmo que não haja garrafinhas, simplesmente porque as janelas ficam abertas o tempo todo e de algum modo aprenderam que aqui, quem sabe, às vezes… Impressionante essa memória dos bichos.

Sobrancelhas

A esta distância e sem óculos não consigo presumir a idade da mulher – o que contribui para tornar a imagem tão abstrata e universal como um quadro de Hopper. Ela está na janela aproveitando-se de uma nesga de sol para fazer as sobrancelhas com uma pinça. Segura um pequeno espelho à frente do rosto e com movimentos quase imperceptíveis -mas precisos e inconfundíveis – vai arrancando pelos que talvez só ela veja – ou outra mulher veria. Trabalha com a paci?ncia e a minúcia dos artistas. Esculpe-se.

Enquanto escrevia, deu-se por satisfeita e saiu da janela.

Nao é a primeira vez que a flagro nessa atividade tão antiga e feminina. Lembra-me minha mãe quando era ainda moça e eu menino. Ou minhas tias e minhas primas mais velhas… “Fazer as sobrancelhas”. Isso era coisa comum e regular, ora quase secreta e íntima, ora coletiva com as mulheres cuidando uma das outras numa especie de ritual alegre e febril – ainda mais se era sábado!

O mundo muda, casas antigas e quietas dão lugar a prédios, tudo vai se tornando mais e mais incrível ou terrível. Fala-se até de uma imortalidade futura sem Deus e metafisica, obra pura da ciência. Mas antes disso certamente virá um robozinho que faça sobrancelhas. Ou algum remédio que as impeça de crescer ou, melhor até: as faça crescer em formatos determinados rapida e precisamente. Pois a imaginação e a vaidade andam juntas: uma segura o espelho a outra manobra a pinça…

Eu, da minha parte, aguardo uma máquina que me corte as unhas das mãos e dos pés – como me fazia minha mãe quando eu era menino e ainda não sabia manobrar a tesoura.

Claro, há a manicure que hoje em dia também está na barbearias. Meu problema é outro: não me sinto bem naquela pose de gangster de subúrbio. Ao menos até que a necessidade estrangule essas fantasias juvenis.